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Realização, Trump e ruídos com Previdência: o que está fazendo o Ibovespa cair até 2%

Governo deve enviar uma nova PEC para a reforma, ou seja, não vai aproveitar o projeto do ex-presidente Michel Temer, o que deve atrasar a tramitação

Rodrigo Maia e Paulo Guedes
(Agência Brasil)

SÃO PAULO - O mercado financeiro vive dia nublado nesta quarta-feira (6) em meio a cautela no exterior e a necessidade de mais informações sobre a reforma da Previdência, uma vez que os dados vazados na imprensa até agora não são definitivos e encontram resistência junto ao presidente Jair Bolsonaro.

Além disso, informações do jornal Valor Econômico apontam que o governo deve enviar uma nova PEC (proposta de emenda constitucional) para a reforma, ou seja, não vai aproveitar o projeto do ex-presidente Michel Temer, o que deve atrasar a tramitação. 

"O governo admite que a reforma deve ser mais abrangente que de Temer e Guedes espera R$ 1 trilhão de impacto em 15 anos, mas divergências entre ele e Bolsonaro sobre idade mínima devem tornar a proposta final mais branda que a minuta vazada", acrescenta a equipe de análise da XP Research.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump insiste na construção de um muro na fronteira com o México. Vale lembrar que o assunto foi responsável pela maior paralisação da história do país neste início de ano e que o shutdown pode ser retomado em fevereiro se não houver acordo sobre o orçamento no Congresso, que não quer liberar dinheiro para o muro.

Neste cenário, às 14h21 (horário de Brasília), o Ibovespa caía 1,96%, a 96.439 pontos, após ter caído mais de 2% e chegado à mínima de 96.234 pontos. O contrato de dólar futuro com vencimento em março de 2019 tinha alta de 0,84%, cotado a R$ 3,712, e o dólar comercial subia 0,95%, para R$ 3,703.

A valorização do dólar acompanha o movimento da moeda ante os emergentes após perdas significativas do dólar australiano em meio a mudança na perspectiva de política monetária do país para neutra.

Ontem, o Banco Central da Austrália (RBA, pela sigla em inglês) decidiu manter sua taxa básica de juros na mínima histórica de 1,5%, patamar em que se encontra desde agosto de 2016. A decisão veio em linha com as expectativas, mas o tom do comunicado mudou a sinalização de hawkish (agressiva, um aceno para alta das taxas) para neutra, o que empurrou a moeda para uma queda de 1,4% e aumentou o sentimento de risco.

O reflexo do movimento no câmbio australiano nas moedas de países emergentes ganhou amplitude porque os investidores estão, nesta semana, sem a referência de um importante mercado, o asiático. As bolsas por lá estão fechadas devido ao feriado de Ano Novo Lunar.

O feriado impõe pausa também nas negociações entre China e Estados Unidos para colocar fim à guerra comercial entre os países, deixando o mercado também sem esse importante termômetro para os negócios.

No cenário doméstico, destaque para a decisão do Copom - que deve manter os juros básicos em 6,50% -,  com atenção especial para os recados que o Banco Central poderá mandar em seu comunicado sobre o rumo da política monetária nos próximos meses.

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"Boa parte do mercado já trabalha com o cenário de manutenção dos juros ao longo e alguns grandes nomes do mercado já começam a enxergar possíveis cortes na Selic", observam os analistas da Rico em relatório enviado a clientes.

Em meio às expectativas, o contrato com vencimento em janeiro de 2021 subia de 7% para 7,01%, e o contrato para janeiro de 2023 avançava de 8,10% para 8,14%.

No destaque corporativo, a Vale declarou força maior - instrumento invocado quando uma das partes não consegue cumprir um acordo por um evento imprevisto - em uma série de contratos de venda de minério de ferro e de pelotas, após decisão judicial na véspera que determinou a paralisação de barragens em Minas Gerais, com impacto na produção da mina de Brucutu – a segunda maior mina da empresa. A empresa não informou o volume de contratos afetados pela força maior.

A Vale reiterou que não existe fundamento técnico ou avaliação de risco que justifique a decisão de suspender a operação e está adotando as medidas judiciais cabíveis para retomar suas operações o mais rápido possível.

Na segunda-feira, a mineradora informou que o impacto estimado da paralisação temporária da barragem de Laranjeiras na mina de Brucutu (complexo de Minas Centrais) é de aproximadamente 30 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.

O jornal O Globo informa que, após a tragédia em Brumadinho, o governo deve adiar a renovação antecipada do contrato de duas ferrovias administradas pela Vale. A intenção da equipe econômica é não “contaminar” o processo de renovação das concessões, que só vencem em 2027, com o desastre. A Vale opera hoje as ferrovias Estrada de Ferro Carajás e Estrada de Ferro Vitória-Minas, cujos contratos se encerram daqui oito anos. 

Destaques da Bolsa

As maiores baixas dentre as ações que compõem o Ibovespa são:

Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 ECOR3 ECORODOVIAS ON 11,05 -4,16 +17,80 85,79M
 CCRO3 CCR SA ON 14,18 -4,12 +26,61 97,66M
 VVAR3 VIAVAREJO ON 5,41 -4,08 +23,23 78,73M
 CIEL3 CIELO ON 10,74 -3,94 +20,81 121,88M
 BBAS3 BRASIL ON 52,56 -3,82 +13,06 393,10M

As maiores altas dentre as ações que compõem o Ibovespa são:

Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 SUZB3 SUZANO PAPELON 47,87 +1,23 +25,71 96,40M
 BRKM5 BRASKEM PNA 54,04 +0,46 +14,06 77,27M
* - Lote de mil ações
1 - Em reais (K - Mil | M - Milhão | B - Bilhão)

Bolsas mundiais

Os índices dos Estados Unidos operam em leve queda após o esperado discurso de Donald Trump no Estado da União e à espera de mais balanços corporativos, como General Motors, Toyota e Spotify. As bolsas na Europa operam em queda repercutindo o discurso de Trump e a decepção com os dados de encomendas à indústria na Alemanha e balanços piores que o previsto. 

Diante do Congresso, Trump pediu por um acordo para superar o shutdown (paralisação parcial do governo), mas insistiu na necessidade de construir um muro na fronteira com o México, justamente o tema que vem causando divergências entre os congressistas. 

Na Ásia, as bolsas na China e em Hong Kong permanecem fechadas ao longo desta semana devido ao Ano Novo Lunar. O índice do Japão encerrou em leve alta, com ganhos limitados pelas declarações de Trump.

Os preços do petróleo operam em queda diante dos temores em relação ao crescimento das economias globais e o minério de ferro sobe após decisão da Vale de suspender contratos por motivos de força maior.

Reforma da Previdência

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse ontem que a proposta de reforma da Previdência do governo projeta uma economia de pelo menos um R$ 1 trilhão, em um período de 10 anos. A afirmação foi feita em entrevista coletiva ao lado do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Os dois se reuniram no gabinete de Guedes para tratar da tramitação da reforma e Maia chegou a dizer que o tema poderá ser votado pelos deputados até maio.

"A ideia é que ela [a reforma] chegue pelo menos a R$ 1 trilhão [de economia de gastos]. Simulamos com 15 anos, com 20, com 10. O valor de R$ 1 trilhão é para 10 anos, mas há simulações em que é R$ 1 trilhão em 15 anos também, de valor presente. Isso é o que está sendo calibrado", afirmou o ministro. Ele voltou a criticar o atual sistema previdenciário que, segundo ele, aprofunda desigualdades sociais e contribui para o desemprego.

Perguntado sobre o estabelecimento de uma idade mínima única de 65 anos para homens e mulheres, conforme o trecho vazado na imprensa na segunda-feira (4), do que seria uma das propostas do governo, Guedes reforçou que a decisão final é do presidente da República.

Segundo Maia, o governo pretende conseguir de 320 a 330 votos para aprovar a reforma na Câmara em dois meses. O presidente da Câmara disse ser possível aprovar a reforma até maio, e o Senado aprová-la em junho ou julho, caso a base aliada esteja articulada.

Noticiário político 

Foi publicada nesta manhã, no Diário Oficial da União, a exoneração do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. O decreto é assinado pelo presidente Jair Bolsonaro. Reportagem do jornal Folha de S.Paulo aponta Marcelo Antônio como integrante de um esquema irregular para lançar candidatos "laranjas", nas eleições, e assim desviar verbas eleitorais do Fundo Partidário, beneficiando-se do sistema.

Reeleito por Minas Gerais, Marcelo Antônio foi o deputado federal mais votado do estado. Há dois dias, na sua conta no Twitter, ele negou qualquer tipo de irregularidade.

O Senado vai se reunir à tarde para eleger os dez cargos vagos da Mesa Diretora. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), articulou um acordo com os partidos para que o PSDB e o Podemos fiquem com as vice-presidências, o PSD, o MDB e o PSL ocupem três das quatro secretarias.

Se o acordo for fechado, a eleição da Mesa será em votação única, ao contrário da eleição do presidente que exigiu duas sessões e teve até anulação. Se não houver acordo, a votação será feita cargo por cargo. O acerto passa pela articulação envolvendo o PT, PP,  PDT e PSB.

Além da distribuição de cargos na Mesa Diretora, também está em jogo o comando das comissões permanentes e mistas do Congresso. PSDB e MDB têm interesse em ficar com a presidência da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), considerada a mais importante por ser onde começa a tramitação de propostas legislativas.

Sobre as movimentações financeiras atípicas que envolvem o senador Flávio Bolsonaro (PSL), o promotor de Justiça Claudio Calo, do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, abriu mão de liderar a investigação. Segundo ele, a decisão foi tomada depois de “profunda reflexão jurídica.”

Em nota, o promotor informou que “juridicamente” entendeu que as investigações devem ser conduzidas pela Promotoria de Justiça de Investigação Penal Tabelar. "Não se trata de declínio de atribuição, pois a atribuição, como se sabe, é da 24ª PIP, mas trata-se de questão de cunho pessoal”, disse em nota o promotor.

 

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