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Por que a ação da Vale encerrou em alta mesmo com tragédia de Brumadinho?

Mineradora ainda está longe de recuperar os R$ 72 bilhões em valor de mercado perdidos na véspera 

escavadeira - minério de ferro - commodities
(Tim Wimborne/Reuters)

SÃO PAULO - Após registrar o pior pregão da história da companhia, as ações da Vale (VALE3) ensaiaram uma recuperação nesta sessão, mas ainda muito longe de compensar a derrocada de 24,52% da véspera que puxou o Ibovespa para baixo.

As ações chegaram a subir 5,45% na máxima, mas reduziu seus ganhos nesta terça-feira (29) e encerraram em alta de 0,85% em um movimento de correção após a perda de R$ 72 bilhões em valor de mercado no pregão anterior. Uma ação coletiva contra a empresa aberta na Corte de Nova York e a colocação de seu rating em revisão para eventual rebaixamento pelo Moody's pesaram no preço do ativo.

Apesar da alta mais tímida, o desempenho do papel ajudou o Ibovespa a fechar em patamar positivo. Os ativos da Vale, que correspondem a 10,90% do índice, e da Bradespar, que têm uma fatia de 0,49% no Ibovespa, levaram a um impacto positivo de 0,09 ponto percentual para a alta de 0,20% Ibovespa. 

Na véspera, a influência foi negativa em 2,79 ponto percentual. Ou seja, caso os ativos tivessem fechado estáveis, o benchmark da bolsa teria registrado alta de cerca de 0,5% no pregão de segunda-feira (28).

Prisões

A mineradora enviou uma nota à imprensa informando que está contribuindo com as investigações, sem citar nominalmente a operação policial que ocorreu em São Paulo e Belo Horizonte atendendo ao pedido da Justiça de Minas Gerais.

“Referente aos mandados cumpridos nesta manhã, a Vale informa que está colaborando plenamente com as autoridades. A Vale permanecerá contribuindo com as investigações para a apuração dos fatos, juntamente com o apoio incondicional às famílias atingidas”, diz em nota a companhia.

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O Ministério Público de São Paulo, a Polícia Federal e a Polícia Civil cumpriram 12 mandados de busca e apreensão e cinco de prisão contra engenheiros terceirizados e funcionários da Vale que atestaram a segurança da barragem 1 da Mina do Feijão, em Brumadinho, que se rompeu na última sexta-feira.

Entre os presos estão dois engenheiros da empresa TÜD SÜD, Makoto Namba e André Yum Yassuda, que prestaram serviços para a Vale e são suspeitos de fraudar laudos técnicos da empresa, permitindo as operações na barragem, segundo informações da TV Globo. Os funcionários presos foram responsáveis pelo licenciamento da barragem e atestaram a estabilidade do empreendimento.

A juíza federal da Comarca de Brumadinho, Perla Saliba Brito, considerou a prisão dos funcionários da Vale e dos dois engenheiros terceirizados, que atestaram a estabilidade do empreendimento, “imprescindível” para as investigações. “Trata-se de apuração complexa de delitos, alguns, perpetrados na clandestinidade”, disse.

A magistrada destacou que os documentos demonstram a existência de indícios de autoria ou participação dos representados nas infrações penais de falsidade ideológica, crimes ambientais e homicídios, “crimes estes punidos com penas de reclusão”.

Direção na berlinda? 

O governo federal busca formas de derrubar a diretoria da Vale. Segundo a Folha de São Paulo, a avaliação é que há aliados suficientes no conselho de administração da mineradora para que a destituição dos executivos seja aprovada.

Entre os acionistas, o Banco do Brasil lidera o movimento de busca por derrubada dos executivos junto com funcionários da empresa. Também têm cadeiras no conselho os fundos de pensão Previ e Petros, ambos aliados do governo.

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Com maioria simples dos acionistas já é possível convocar assembleia para discutir o afastamento dos diretores. Contudo, para destituir a diretoria são necessários 75% dos votos dos 7 membros ativos. O governo precisaria, portanto, de mais um aliado – a Bradespar, de acordo com o jornal.

O governo veio mais uma vez a público nesta terça-feira (29) para refutar uma intervenção drástica na mineradora. O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse que a "golden share não permite interferência na gestão da Vale", reiterando que essa é uma decisão do Conselho de Administração. Ele ainda completou: "não há condição de haver qualquer grau de intervenção até porque essa não seria uma sinalização desejada ao mercado”.

Investidores descontentes 

Uma ação coletiva contra a Vale foi aberta na Corte de Nova York pelo escritório de advocacia Rosen Law Firm em função da tragédia em Brumadinho. O escritório americano diz que o processo “busca recuperar os danos para os investidores da Vale segundo as leis federais de valores mobiliários”.

Podem entrar na ação coletiva todos que investiram na companhia brasileira entre 13 de abril de 2018 a 28 de janeiro deste ano. O escritório de Nova York disponibilizou um site, um número com ligação gratuita e um e-mail com endereço de dois advogados para que os interessados busquem informações sobre como entrar na ação coletiva.

Os advogados acusam a Vale de não ter avaliado o potencial de risco de uma das barragens da mina de ferro do Córrego do Feijão em Brumadinho (MG), que acabou causando a morte de dezenas de pessoas e o desaparecimento de centenas.

O escritório Bronstein, Gewirtz & Grossman, também de Nova York, também pretende abrir uma ação coletiva para ver se a Vale e seus diretores violaram leis federais de valores mobiliários.

Mais rebaixamentos? 

Após a Fitch rebaixar o rating da Vale de BBB+ para BBB-, colocando ainda a nota da companhia em observação negativa, indicando um possível novo corte, outra agência de classificação de risco pode seguir o mesmo caminho. 

A Moody's colocou o rating de emissor Baa3 e os demais da Vale em revisão para eventual rebaixamento. A agência diz em nota que o impacto econômico do desastre é "pequeno", já que a mina Feijão representa menos de 2% da produção atual total de 390 milhões de toneladas de minério de ferro da Vale. Contudo, o impacto social é "muito mais grave" diante do número de mortos superior ao do rompimento da barragem de Mariana (MG) em 2015.

A Moody's diz que ainda não é possível estimar a extensão do prejuízo, mas que "o acidente terá um impacto profundo sobre a Vale em todos os aspectos".

(Com Agência Brasil e Agência Estado)

 

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