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Ibovespa "ignora" derrocada da Petrobras e sobe 0,6% com Vale e bancos; dólar supera R$ 3,76

Índice chegou a cair 1,60% com a "bomba" da demissão do presidente da Petrobras, mas se recuperou durante a tarde

bolsa investidor trader
(Shutterstock)

SÃO PAULO - Apesar da reação negativa do mercado à demissão do presidente da Petrobras (PETR4), Pedro Parente (veja mais aqui), o Ibovespa conseguiu fechar esta sexta-feira (1) com alta expressiva, considerando que o índice chegou a cair 1,60% com o mau humor após a demissão pegar os investidores de surpresa. A bolsa foi puxada pelos papéis da Vale, siderúrgicas e bancos.

O benchmark da bolsa brasileira fechou com alta de 0,63%, aos 77.239 pontos, com o volume financeiro chegando a R$ 14,853 bilhões. Mesmo com esta recuperação, o índice encerrou a semana com perdas de 2,10%. No câmbio a notícia pesou, com o dólar fechando em forte alta de 0,80%, cotado a R$ 3,7667 na venda. A "bomba" sobre a estatal também fez com que o contrato de proteção contra eventual calote do País, o CDS (Credit Default Swap), disparasse, superando os 237 pontos.

No mercado, as ações da BRF (BRFS3) chegaram a disparar mais de 13% com reflexo da notícia. Diante das recentes dificuldades que a companhia de alimentos tem enfrentado, aumentaram os rumores nas últimas semanas de que Parente poderia assumir o cargo de CEO da empresa, fato que ganha ainda mais força com a notícia de hoje (clique aqui e confira o desempenho das ações).

Em entrevista para a Bloomberg, o analista Christopher Garman, da Eurasia, afirmou que a notícia "pode ser um sinal de que a Petrobras ficará mais restrita devido à política". "No entanto, não é um sinal de que o governo está se movendo em uma direção mais populista [...] Eu não vejo isso como um sinal de que o governo está sinalizando ao mercado o fim da autonomia operacional", disse. Clique aqui e confira outras análises sobre a saída de Parente. 

Nos últimos dias, a paralisação nacional dos caminhoneiros ampliou a pressão política sobre Parente. O principal alvo era a política de preços da companhia sobre os combustíveis, com reajustes diários, conforme as flutuações do mercado internacional. Com a recente alta do petróleo e do dólar, os preços dispararam no Brasil e motivaram uma mobilização que durou onze dias e provocou problemas de abastecimento país afora.

Em uma série de vídeos, o agora ex-presidente Pedro Parente e executivos da empresa defenderam a estratégia de refino, formação de preço, endividamento e justificam os reajustes diários. No fato relevante divulgado nesta sexta, a Petrobras informa que a nomeação de um CEO interino será examinada pelo Conselho de Administração ao longo do dia, e que a composição dos demais membros da diretoria executiva da companhia não sofrerá qualquer alteração.

Em carta divulgada pela própria estatal, Parente afirma que sua permanência na companhia não era mais "positiva". O executivo elogiou o presidente Michel Temer e ainda se colocou a disposição para ajudar na transição do comando da estatal. Veja a carta na íntegra clicando aqui.

O mercado nesta sexta-feira
No exterior, o dia foi de recuperação após a tensão na véspera com uma nova medida protecionista de Donald Trump nos Estados Unidos e uma menor tensão em função da crise política italiana. Os índices norte-americanos registraram ganhos entre 1% e 1,5%, enquanto na Europa, a bolsa italiana teve forte alta de 1,5%, enquanto a Espanha subiu 1,7%.

Na maior economia do mundo, destaque para o relatório de emprego divulgado nesta manhã, mostrando uma geração de 223 mil novos empregos, resultado acima das expectativas dos analistas, que eram de 190 mil cargos criados em maio. Em geral, o relatório mostrou uma economia com bastante vigor. A maioria das indústrias acrescentou empregos e o salário dos trabalhadores aumentou em um ritmo um pouco mais acelerado. A taxa de desemprego caiu novamente, a 3,8%, para o nível mais baixo desde abril de 2000.

Enquanto isso, na Itália o clima é de alívio, com a possibilidade de uma gestão menos eurocética do que era temido pelos investidores. Ontem, os líderes das duas forças políticas majoritárias no parlamento -- a conservadora nacionalista Liga e o antissistêmico Movimento 5 Estrelas -- anunciaram um novo acordo para a formação de governo, quase três meses após as eleições, liderado novamente pelo premiê Giuseppe Conte, que apresentou sua lista de ministros ao presidente Sergio Mattarella pela segunda vez em uma semana.

Ainda no velho continente, chama atenção a moção de censura contra o governo de Mariano Rajoy, do Partido Popular, e a aprovação do nome do líder socialista Pedro Sánchez como novo chefe de governo da Espanha. Abalado por casos de corrupção do seu partido, Rajoy, que está há 11 anos no poder, reconheceu mesmo antes da votação que seria derrotado.

Noticiário do dia
A greve dos caminhoneiros é dada como encerrada, com os caminhoneiros autônomos concentrados nas proximidades do Porto de Santos decidirem descruzar os braços. Mas os impactos econômicos começam a preocupar os investidores. Além do esperado arrefecimento em um nível de atividade já baixo, o evento trouxe uma dor de cabeça no campo fiscal, com as concessões do governo à categoria. Para compensar a redução de R$ 0,46 por litro de diesel, o governo detalhou ontem, em publicação no Diário Oficial da União, as medidas a serem tomadas, com custos que somarão R$ 13,5 bilhões aos cofres públicos.

Para garantir o orçamento necessário à subvenção e não descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, o governo publicou instrumentos como medida provisória e decreto para compensação tributária, além da reoneração da folha de pagamentos de 39 setores da economia, conforme texto aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado (com vetos) pelo presidente Michel Temer.

Na prática, os recursos para compensar a redução do PIS/Cofins e da Cide sobre o diesel virão, além da reoneração da folha de pagamento de 28 setores da economia dentro de 90 dias (conforme aprovado pelo Congresso Nacional), de uma redução e eliminação de incentivos fiscais para exportadores e as indústrias química e de refrigerantes.

Parte da compensação tributária para bancar a concessão aos caminhoneiros virá da redução do Reintegra. Um decreto de Temer reduziu de 2% para 0,1% a devolução feita aos exportadores, o que deverá garantir um ganho de arrecadação de R$ 2,27 bilhões até o final do ano. O governo também alterou de 20% para 4% a alíquota do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) incidente em preparações compostas, não alcoólicas, para elaboração de bebidas, como água mineral, água gaseificada e refrigerantes. Tal redução deverá garantir R$ 740 milhões até o final do ano. Outra medida adotada foi a revogação do Reiq (Regime Especial da Indústria Química), benefício de crédito presumido na exportação, que rende mais R$ 170 milhões aos cofres públicos. Ao todo, essas medidas economizam R$ 4 bilhões aos cofres públicos e serão usados na redução de R$ 0,16, referentes à redução de impostos sobre o diesel (PIS/Cofins/Cide).

Os outros R$ 9,5 bilhões serão compensados com cortes orçamentários. Deste montante, R$ 5,7 bilhões virão de uma reserva que não tinha destinação certa por estarem acima do teto de gastos. Segundo o Ministério do Planejamento, o cancelamento de despesas foi de R$ 3,382 bilhões, sendo a maior mordida sobre uma reserva que o governo fazia para capitalização de empresas estatais. Os cortes também atingirão o Programa de Reforma Agrária, com R$ 30,779 milhões, e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, com outros R$ 21,750 milhões. Áreas como Saúde e Educação não fora poupadas. No primeiro ministério, a previsão é de R$ 55,1 milhões de cortes.

 

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