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Por que a crise na Itália está assustando o mercado e como isso pode afetar o mundo todo

Analistas já temem uma nova crise do euro e rumo político da Itália pode mudar até os planos do Fed em subir os juros

Bandeira da Itália
(Bloomberg)

SÃO PAULO - Enquanto no Brasil todo mundo acompanha atento a greve dos caminhoneiros, no exterior um outros assunto está abalando os mercados, a Itália. O desenrolar do debate político por lá, com chance de novas eleições e dissolução do parlamento levou as bolsas europeias a desabarem, o que puxou também Wall Street para o negativo.

A incerteza política na Itália já leva ao debate de uma nova crise do euro, que poderia ter reflexos em toda a economia global e até mesmo forçar o Federal Reserve a desacelerar seus planos de aumento de juros este ano. Analistas dizem que a chance do país deixar a zona do euro ainda é baixa, mas o caos interno e uma nova eleição poderiam criar um cenário difícil para os mercados e até mesmo prejudicar o crescimento econômico europeu.

A crise aumentou durante o fim de semana, após o presidente Sergio Mattarella bloquear a formação de um governo que ficaria contra a manutenção do euro. O movimento 5 estrelas, o maior partido da Itália, e o partido da extrema-direita Liga escolheram Paolo Savona como seu ministro da economia.

Os dois partidos, ambos críticos da moeda única europeia, haviam ganhado mais da metade dos votos nas eleições parlamentares de março. Mattarella vetou a escolha e pediu a Carlo Cottarelli, um ex-funcionário do FMI, um governo temporário, mas ambas as partes se opõem a ele e agora uma nova eleição deve acontecer no final de julho.

Em entrevista para a CNBC, Chris Rupkey, economista do MUFG Union Bank, afirma que os últimos três anos foram de preocupação com uma ameaça ao crescimento econômico mundial. "Isso prejudica a confiança nas perspectivas econômicas para os EUA. Há sempre efeitos colaterais [...] Dado o que sabemos agora, eu não ficaria confortável me apressando na previsão de um aumento de juros em setembro", diz.

Mas Rupkey lembra também que o mercado nesta terça reagiu ainda ao acumulado das notícias no fim de semana, já que ontem foi feriado nos EUA, o que pode indicar que os próximos dias não serão tão turbulentos. "Não é uma crise de dívida soberana europeia completa ainda. Por um lado, o rendimento italiano de 10 anos está em pouco mais de 3%. Em 2012, era de 8%. Não é a mesma situação ainda", afirma.

Para alguns traders, a crise política italiana é um déjà vu da crise da dívida grega que acabou há três anos. "O caos na Europa está derrubando as taxas de juros dos EUA, o que está levando o dinheiro para os EUA, fazendo as pessoas pensarem que, [com os juros em queda] juntamente com o dólar em alta, fará o Fed pensar duas vezes sobre sua política de alta de juros", afirma Marc Chandler, chefe de estratégia de câmbio da Brown Brothers Harriman, para a CNBC.

O Federal Reserve, impulsionado por uma economia americana mais forte, está a caminho de elevar as taxas de juros pela segunda vez este ano em sua reunião de 13 de junho. O Fed prevê três aumentos para este ano, mas o mercado já começa a precificar uma alta adicional em setembro.

Vale destacar que uma mudança de postura do Fed deve ter reflexo no mundo todo, inclusive no Brasil. O principal mercado afetado por isso é o câmbio, após a disparada recente do dólar por fatores externos, os investidores podem começar a rever suas posições se a situação mudar.

Chandler acredita que o próximo governo de coalizão deverá ter uma lista de propostas para desafiar as regras existentes da União Europeia. "É por isso que, apesar do que ele dizem, de 'não estamos querendo sair imediatamente da UE', o que aumenta é o estresse no sistema, as demandas que eles estão colocando", explica.

Ainda não está claro como o Banco Central Europeu irá responder à esta turbulência provocada pela Itália, e alguns estrategistas dizem que o presidente da autoridade, Mario Draghi, certamente manterá o estímulo necessário. O BCE deve anunciar em setembro que vai colocar de lado suas compras de ativos, mas se os problemas da Itália chegarem à economia como um todo, isso pode ficar em dúvida.

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