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Medida certa, comunicação falha: a decisão do Copom que abalou o mercado

Investidores estão decepcionados com a falha de comunicação do presidente do BC

Ilan Goldfajn
(Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

SÃO PAULO - Em um mundo de incertezas que é o mercado financeiro, surpresas geralmente não são bem-vindas pelos investidores e a decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) em manter a Selic em 6,50% ao ano não está sendo bem digerida pelo mercado. Não pelo mérito da decisão, que até foi elogiada pela defesa do dólar, mas sim pela falha de comunicação pelo Banco Central.

A decepção dos investidores tem como cerne a entrevista para o GloboNews do presidente do BC, Ilan Goldfajn, uma semana antes da reunião do colegiado. Naquela oportunidade, ele não garantiu, mas deixou muito bem sinalizado que o BC coordenaria sua decisão pela inflação, que segue bem comportada, como pelo ritmo da atividade econômica, que pela retração de 0,13% do IBC-Br no primeiro trimestre denota que ainda há espaço para seguir com o alívio monetário.

Antes da fala do presidente do BC, existiam muitas dúvidas se o Copom seguiria com seu ritmo de cortes em vista da disparada do dólar, que naquela terça-feira (8) da entrevista rondava a faixa de R$ 3,60. Em resposta, Ilan disse que a valorização da moeda era um efeito global e que o BC possuía "amortecedores" para absorver o choque externo. Diante desta afirmativa e o histórico (até então) inabalável do presidente do BC de guiar as expectativas do mercado em sua gestão, os investidores trataram de minimizar essa probabilidade.

No fechamento de ontem, a curva de juros futuros precificava com 66% de chance que o Copom cortaria a Selic para 6,25% ao ano, na sua 13ª redução consecutiva. Contudo, como agora sabemos, a história não foi bem assim e isso acabou irritando os investidores, em especial para quem lida com o mercado de juros, que precisaram correr para ajustarem suas posições. Os juros futuros com vencimento em janeiro de 2019 disparavam 23 pontos-base, cotados aos 6,56%, enquanto com os contratos de 2021 subiam 12 pontos, aos 8,58%.

Casamento em crise

Logo após a decisão do Copom, que decepcionou pela falha na comunicação, o casamento entre mercado e Ilan entrou em crise. Muitos gestores não pouparam o presidente do BC pela "traição" e questionaram a linha de raciocínio, até então ancorada nos eventos domésticos. Para economistas que foram consultados pelo Broadcast, se não fosse a entrevista, o mercado provavelmente apostaria na estabilidade da taxa de juro em 6,50%.

Contudo, a mesma medida que desagradou uma boa parcela do mercado, foi elogiada por muitos economistas. Conforme destaca a equipe de análise do Bradesco BBI, o Banco Central acertou em dar maior atenção ao ambiente de maior risco no cenário externo, a despeito do cenário-base para a inflação brasileira seguir indicando uma situação controlada, e adotar postura mais hawkish (conservadora, na linguagem do mercado). Em entrevista para a Bloomberg, o economista-chefe do Goldman Sachs, Alberto Ramos, afirmou que embora imperfeita, a decisão tomada pelo BC é perfeitamente justificada pela volatilidade do mercado financeiro e a pressão contínua do câmbio.

De qualquer forma, apesar do encerramento do ciclo de queda da taxa de juros, a manutenção dos juros no menor patamar desde 1996, deve ser comemorada pelos investidores, lembra a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, em entrevista ao Estadão. Ainda que parte do relaxamento monetário seja temporário, devendo se reverter quando a inflação estiver convergindo para a meta, há boas chances de a Selic não mais voltar a dois dígitos.

Portanto, a questão não foi a decisão do Copom em si, que até foi elogiada como reportado acima, mas o que de fato o mercado não está "engolindo" foi a comunicação imperfeita do Banco Central, que, de alguma forma, induziu boa parte dos investidores ao erro de interpretação.

 

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