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André Jakurski e 8 motivos para deixar sua carteira de investimentos mais conservadora

Em rara aparição pública, fundador da JGP Gestão de Recursos fez uma apresentação na Sohn Conference nesta quarta-feira (6) e destacou por que recomenda reduzir a exposição em equities e ser mais conservador

André Jakurski
(Divulgação)

SÃO PAULO - Se no começo do dia o aclamado Luis Stuhlberger, da Verde Asset, apontou um cenário otimista para investimentos no Brasil, um outro gestor tão renomado quanto trouxe uma visão mais cautelosa ao falar sobre economia internacional. Trata-se de André Jakurski, fundador da JGP Gestão de Recursos, que teve uma raríssima aparição pública nesta quarta-feira (6) durante o Sohn Conference, realizado no auditório do escritório do Pinheiro Neto Advogados, em São Paulo.

Embora seja um homem de poucas palavras e que nunca concede entrevistas abertas à imprensa, Jakurski mostrou-se bem a vontade durante cerca de 20 minutos de apresentação.  A cada slide apresentado, um gráfico que trazia um indício de que estamos passando por um momento de forte euforia - o que significa que  temos que reduzir nossas posições de risco em carteira.

"Se você adotar o mesmo critério de alocação ao longo de todo um ciclo econômico, uma hora você vai fazer uma alocação errada. Você precisa adequar seus critérios às fases do mercado, e hoje estamos numa fase de euforia. Por isso, é hora de ser menos alocados", disse o fundador da JGP, que tem R$ 20 bilhões de ativos sob gestão.

Dentre os vários fatores que ele citou na apresentação para justificar essa cautela, destacamos 7 deles:

1. Expansão da economia - mas até quando? Todas as economias do mundo estão em expansão, sendo que os EUA atingirão o ciclo mais longo de crescimento em 150 anos caso mantenham o ritmo positivo até agosto de 2018. Com o desemprego baixíssimo - na faixa de 4,0% -, uma hora a pressão salarial vai bater na inflação, o que pode puxar os juros norte-americanos para cima.

2. Fed sobe juros "pedindo desculpas" Os ativos não-financeiros (que na maioria são imóveis) estão bem longe do pico de 2007 e que o Federal Reserve, de forma contraditória, vem subindo os juros de  "maneira dovish" - "eles sobem já pedindo desculpas por subir", explicou Jakurski -, o que leva os preços a seguirem em alta.

3. O silêncio que precede o esporro: O estresse praticamente não existe no mercado: o S&P500 teve o menor nível de volatilidade em 50 anos, enquanto o VIX (chamado "índice do medo", que mede a volatilidade dos contratos de opções das ações do S&P500) bateu a mínima histórica na última semana. Até mesmo renda fixa dos EUA está em níveis historicamente baixos de volatilidade. 

4. Sem spread entre Treasuries de 2 anos x Treasuries de 10 anos: "este é um dos gráficos mais interessantes para acompanhar", diz Jakurski, mostrando que a diferença entre o rendimento dos títulos norte-americanos com vencimento de 2 anos é de apenas 50 pontos-base dos de 10 anos. "Este é o spread mais baixo entre os rendimentos desde 2008 (...) Como o Fed subirá os juros e as taxas não estão reagindo, esse spread pode cair. Esse é um bom indicativo para uma virada de ciclo para recessão", diz o gestor.

5. Sem spread também em relação aos "junks" europeus: O yield dos "junk bonds" (títulos podres, na tradução livre) europeus está praticamente igual ao yield dos títulos do tesouro norte-americano.

6. Múltiplos muitíssimo acima da média: o "S&P price to sales ratio", que compara o preço das ações do S&P com os níveis de venda das empresas, está praticamente no high histórico - "se você fizer o cálculo da média ao invés da mediana, esse múltiplo está muito do high", diz Jakurski. Outro múltiplo apresentado é o S&P Case Shiller, criado pelo ganhador do Prêmio Nobel de 2013, Robert Shiller, e que mostra um S&P500 em um nível tão alto que a última vez que ele esteve acima disso foi em 2000 antes do estouro da "bolha.com". Ainda sobre o ano 2000, Jakurski fez uma distinção ao valor de mercado das empresas naquela época e nos dias de hoje: em 2000, apenas as "new economies" estavam esticadas, enquanto empresas da "old economy", como General Eletric, estavam bastante depreciadas; hoje, tudo está esticado, diz.

7. Crescimento de agora das empresas não é sustentável no longo prazo: Ao olhar para a tendência do S&P 500 nos últimos 100 anos, o crescimento dos múltiplos e das margens ficam bem próximos de 0%. Contudo, não é isso que está acontecendo agora: tanto os múltiplos quanto as margens subiram fortemente mais de 3% entre 2010 e 2017. "Isso não é replicável no longo prazo. O que eu posso inferir é que as margens e os múltiplos não vão subir mais. Ou se estabilizarão ou cairão", avalia. 

8. De bitcoin ao Leonardo da Vinci: um dos assuntos mais comentados nos últimos tempos, o bitcoin também foi um exemplo citado pelo Jakurski.

O gestor trouxe um gráfico com a valorização da moeda digital feito na semana passada, mas teve que pedir desculpas pois a bitcoin já subiu tanto de lá pra cá que os dados estavam bastante defasados. Outro reflexo de euforia citado por Jakurski vem de fora do mercado financeiro: o quadro de Leonardo da Vinci vendido por US$ 450 milhões.

Conclusão: "Espero não ter sido muito pessimista", disse Jakurski ao final da apresentação, arrancando risos dos quase 200 espectadores presentes. "Mas na fase que estamos, temos que ter menor exposição ao risco". Ele pondera, no entanto, que não é interessante ficar com zero de exposição a risco no portfólio. "É só lembrar que na bolha da Nasdaq, a bolsa havia subido 100% antes dela estourar, então quem ficou de fora ficou triste (..). Então, se você tinha 60% em equity, está na hora de pensar em ter 35%, 40%". "Assim, o que eu digo é que é uma boa hora para diminuir 'equities' e duration da renda fixa", finaliza o gestor.

A Sohn Conference é um evento que reuniu megainvestidores e gestores do mundo todo para falarem sobre suas teses de investimentos. Todo o valor dos ingressos (que custava R$ 5 mil cada) irá para a conta bancária da TUCCA, a entidade fundada pelo oncologista Sidnei Epelman que há mais de 20 anos viabiliza o tratamento do câncer para crianças e jovens carentes. O InfoMoney acompanhou o evento a convite da organização. Confira mais sobre o evento clicando aqui. 

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