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Mais quedas? Mercado está vendo um novo cenário que não é tão bom quanto todos pensavam, diz analista

Queda de 3% da Bolsa nesta terça vai muito além de fatores pontuais como política e commodities, mas deve levar a uma reavaliação do cenário econômico

Trader - operador - Bolsa
(Bloomberg)

SÃO PAULO - Mesmo sem uma "notícia bomba", o Ibovespa registrou seu pior pregão em quase quatro meses nesta terça-feira (21) enquanto o mercado olha para os perigos na política e riscos da reforma da Previdência ser alterada ou demorar mais para ser aprovada. Para piorar, minério de ferro e petróleo caíram forte no exterior e puxaram os papéis da Petrobras e Vale, levando o índice a afundar 3% hoje.

Mas para quem acredita que esta pode ter sido apenas mais uma queda pontual do mercado, é melhor ficar atento, já que a situação pode ser bem pior do que parece. Para Pablo Spyer, diretor da mesa de operações da Mirae Asset, há espaço para o mercado cair ainda mais. "Não seria uma surpresa vermos novas quedas. Os investidores estão começando a avaliar o cenário e estão percebendo algo que eu digo faz tempo: o Brasil terá PIB negativo este ano", afirma.

Segundo Spyer, "o consumo vai continuar baixo, os gastos do governo estão congelados e, principalmente agora com os efeitos da Operação Carne Fraca, a balança comercial, que era apontada como a salvadora da economia, também vai cair. Além disso, a capacidade instalada segue bastante ociosa e vai levar uns 2 anos para utilizarmos essa ociosidade. Ou seja, nos próximos 2 anos devemos ter poucos investimentos".

"O PIB é a soma de todos estes fatores. Se o consumo não cresce, investimento não cresce, gastos não aumentam e a balança não cresce, como o PIB vai crescer?", continua o analista. "Ou seja, nada sustenta a ideia do PIB crescer este ano", explica o diretor da Mirae.

Ele destaca ainda o cenário externo, onde aumenta a tensão sobre as eleições na França a cerca de um mês do pleito. "O mercado pode estar subestimando um pouco o perigo disso. Para se ter uma ideia, uma ruptura do euro iniciada pela vitória de Marine Le Pen poderá ter impacto de US$ 1 trilhão no sistema financeiro europeu", explica Spyer. "Será algo semelhante ao caso Lehman Brothers".

"O mercado está começando a ver um novo cenário que não é tão bom quanto todos pensavam, tanto no Brasil quanto no exterior. Eu imagino que mais quedas vão vir, com algumas correções para cima, é claro, mas temos espaço para ir mais abaixo", afirma.

Mas nem todos estão tão pessimistas. Para o analista da XP Investimentos, Marco Saravalle, o cenário ainda não mudou e é positivo. "Se a Bolsa cair mais, podemos ver uma boa oportunidade de compra", afirma. Para ele, o movimento de hoje está ligado à queda das commodities e a uma tensão sobre possíveis alterações no projeto do governo de reforma da Previdência.

"Claramente elas [reformas] serão aprovadas, mas aumentam as chances de alterações nos projetos iniciais e de atrasos na votação, o que deixa o investidor mais apreensivo. Não podemos chamar de pessimismo porque é consenso de que será aprovada", diz o analista.

 

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