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Odebrecht e temor com Fed esfriam rali do impeachment, mas Bolsa tenta se recuperar

Mercado aponta para mais um dia de queda do índice em meio a piora dos fundamentos econômicos no Brasil e cenário político indefinido

bolsa painel
(Shutterstock)

SÃO PAULO - O Ibovespa opera em queda nesta quinta-feira (24), mas tenta zerar perdas e se recuperar após o forte tombo que levou no meio do rali do impeachment em meio à maior indefinição do cenário político. Hoje, a queda acompanha as bolsas internacionais, que recuam pressionadas por mais uma forte baixa do petróleo, além do aumento das expectativas de que o Federal Reserve eleve os juros dos Estados Unidos em abril. Por aqui, o mercado continua preocupado com a lista ampliada de políticos na folha de pagamento da Odebrecht, que pode passar de 300. Como se não bastasse, a redução da meta fiscal anunciada ontem pelo Ministério da Fazenda traz mais temores com relação à capacidade de solvência do governo no longo prazo. 

Às 16h01 (horário de Brasília), o benchmark da bolsa brasileira caía 0,17%, a 49.607 pontos. Já o dólar comercial registra alta de 0,71% a R$ 3,7028 na venda, enquanto o dólar futuro para abril avança 0,11% a R$ 3,696. Com relação ao câmbio, o Banco Central não acolheu nenhuma proposta no leilão de swap reverso que ofertou 3.000 contratos, o que foi responsável por fazer a divisa norte-americana reduzir ganhos. No mercado de juros futuros, o DI para janeiro de 2017 tem alta de 7 pontos-base a 13,81%, ao passo que o DI para janeiro de 2021 registra ganhos de 21 pontos-base a 14,01%.

Diante da queda de hoje, muitos se perguntam se a lista da Odebretch e o temor com o Fed enterraram o rali do impeachment ou apenas esfriaram a alta. Para João Pedro Brugger, economista da Leme Investimentos, em um primeiro momento, pode haver preocupação com governabilidade e enfraquecimento dos políticos envolvidos, mas no longo prazo, tudo isso vale a pena em nome de um fortalecimento institucional do Brasil. "Se for para passar por um momento de mudança profunda, que se investigue tudo e a gente colha os frutos no futuro, mesmo que isso enfraqueça a oposição agora", afirma.

Além disso, surgem análises de que a planilha da Odebrecht em si pode não provocar a mudança no comportamento dos parlamentares que se especula, no sentido de arrefecimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ao contrário, uma possível delação de Marcelo Odebrecht e executivos da empreiteira traz maior poder destrutivo sobre a reputação da classe política.

Uma outra leitura possível sobre os efeitos do episódio recente da divulgação da lista de deputados, senadores, prefeitos e governadores beneficiários de doações da companhia (legais ou não, registradas ou caixa dois) apontaria para maior pressão sobre a possível mudança de governo, não uma desaceleração do processo. Ameaçados pelos documentos divulgados, parlamentares citados podem ver no impeachment a possibilidade de as investigações reduzirem o ímpeto. A ascensão de um novo presidente com maior força política tende a trazer maior segurança e estabilidade, em um cenário de nova composição de forças, de acordo com a mesma concepção.

Nova meta fiscal prevê déficit
O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, anunciou na tarde da última quarta uma nova proposta para o que ele chamou de "readequação da meta fiscal" para o ano de 2016. No início de sua apresentação, o ministro ressaltou o desempenho das receitas do governo e da economia brasileira nos últimos anos, além das recentes propostas apresentadas, principalmente ontem pelo ministério do Planejamento. A primeira proposta é de reduzir a meta fiscal deste ano em R$ 21,2 bilhões, ou seja, passaria de R$ 24 bilhões para R$ 2,8 bilhões. Porém, o ministro afirmou que a proposta permite que sejam abatidos dessa meta até R$ 99,45 bilhões, ou seja, o governo teria permissão para que suas contas tenham um rombo de até R$ 96,65 bilhões em 2016. Segundo aponta o jornal Valor Econômico, o governo aumenta déficit para poder investir em reviravolta da política fiscal. 

Em tentativa de estimular a economia, o governo deve retirar as travas prudenciais ao crédito para pessoas físicas e jurídicas. Estimulando a concessão de financiamentos para veículos, pequenas empresas e varejo, além de incentivar a comercialização de créditos tributários. Segundo o jornal O Globo, a equipe econômica estuda reduzir a exigência de capital das instituições financeiras, para todas as operações com prazo acima de 48 meses. Além disso, os técnicos estudam flexibilizar os compulsórios, recursos captados pelos bancos com a poupança e retidos no BC, para ajudar a construção civil.

Ações em destaque
Dentro do setor mais pesado no Ibovespa, o financeiro, bancos grandes caem, prejudicados pelo cenário político, que diminui a probabilidade de uma troca de governo que significasse uma mudança na condução da política econômica rumo à ortodoxia. Itaú Unibanco (ITUB4, R$ 30,92, -1,28%), Bradesco (BBDC3, R$ 29,67, -1,82%; BBDC4, R$ 26,27, -1,79%) e Banco do Brasil (BBAS3, R$ 18,97, -3,41%) recuam. Juntas, as quatro ações respondem por pouco mais de 20% da participação na carteira teórica do nosso benchmark.

As maiores baixas dentre as ações que compõem o Ibovespa são:

Cód. Ativo Cot R$ % Dia
 CYRE3 CYRELA REALTON 9,81 -5,22
 BRKM5 BRASKEM PNA 23,31 -4,66
 RUMO3 RUMO LOG ON 3,34 -3,47
 ENBR3 ENERGIAS BR ON 12,86 -3,45
 BBAS3 BRASIL ON 18,97 -3,41

 

 

As ações da Petrobras (PETR3, R$ 10,02, +1,01%; PETR4, R$ 7,89, +1,41%) viram para alta apesar do cenário político e da queda do petróleo. O barril do WTI (West Texas Intermediate) recua 0,53% a US$ 39,58, enquanto o barril do Brent tem leve alta de 0,02% a US$ 41,09. 

As maiores altas dentre as ações que compõem o Ibovespa são:

Cód.AtivoCot R$% Dia
 VALE5 VALE PNA 11,17 +6,38
 BRAP4 BRADESPAR PN 5,88 +6,33
 VALE3 VALE ON 14,94 +5,81
 GGBR4 GERDAU PN 6,05 +3,77
 USIM5 USIMINAS PNA ES 1,82 +3,41

 

Entre as altas encontra-se praticamente isolada a Suzano (SUZB5, R$ 14,07, +0,14%). Por ser uma exportadora de papel e celulose e ter suas receitas denominadas em dólar, a companhia é beneficiada por eventuais desvalorizações do real. 

Por outro lado, a Vale (VALE3, R$ 14,94, +5,81%; VALE5, R$ 11,18, +6,48%) vira para forte alta, na contramão do desempenho do minério de ferro. A commodity spot (à vista), negociada no porto de Qingdao com 62% de pureza, fechou em queda de 2,59%, a US$ 56,37 a tonelada seca.

Michel Temer pode aumentar racha
A maior divisão dentro do PMDB, maior partido aliado ao governo da presidente Dilma, aumenta chances de ela conseguir os votos necessários para derrubar o impeachment, segundo afirmou congressista do partido à Bloomberg. Isso porque a decisão do vice-presidente Michel Temer em antecipar a reunião sobre a saída do PMDB da base para 29 de março desagradou a senadores e ministros do partido, conforme disse o congressista, que pediu anonimato porque essas discussões não são públicas. Para ele, o PMDB deve sair mais dividido da reunião, que se fosse adiada para 12 de abril, como estabelecido inicialmente, poderia aglutinar mais o partido no caminho de romper com governo. Enquanto isso, destaca a Folha, Dilma mobiliza ministros para conter debandada do PMDB.

Jornais ampliam lista
Os jornais de hoje trazem planilha da Odebrecht ampliada, com políticos podendo passar de 300. A Folha elevou o número para ao menos 316 políticos em lista, de 24 partidos. Entre os nomes, estão AlckminHaddad, Cunha, Renan, Paes, Picciani, Sarney, Sérgio Cabral e Cid Gomes, entre outros. Já O Estado de S. Paulo fala em mais de 279 políticos em “superplanilha” e cita nomes de Mercadante, Wagner, Aldo Rebelo, Aécio, Serra, GleisiLindbergh e Jucá.

PNAD Contínua
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego atingiu 9,5% no trimestre móvel encerrado em janeiro, na PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio). A população desocupada (9,6 milhões de pessoas) cresceu 6,0% (mais 545 mil pessoas) em relação ao trimestre de agosto a outubro de 2015 e subiu 42,3% (mais 2,9 milhões de pessoas) no confronto com igual trimestre de 2015. Já a população ocupada (91,7 milhões de pessoas) apresentou redução de 0,7% quando comparada com o trimestre de agosto a outubro de 2015 (656 mil pessoas a menos). 

Manifestação contra o impeachment
Depois do coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos, dizer que "não haverá um dia de paz no Brasil" se a presidente Dilma Rousseff sofrer um impeachment, um ato do movimento liderado por ele e de seu grupo, a Frente do Povo Sem Medo, estão marcados para hoje às 17h (horário de Brasília). Os organizadores desta manifestação esperam levar 50 mil pessoas ao Largo da Batata, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, conhecida por ser o centro financeiro de São Paulo. A ideia é que os manifestantes caminhem até a sede da Rede Globo na região da Berrini.

Ontem à noite, estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie fizeram na Rua Maria Antonia, no centro da capital paulsita, um ato contra o impeachment da presidente. O ato foi intitulado “Mackenzistas contra o Golpe: A História Não se Repetirá!”. Os estudantes impediram o tráfego de carros na rua e, sob chuva, discursaram sobre um caminhão de som. Também na quarta, Lula discursou para sindicalistas em São Paulo e afirmou que pretende ajudar Dilma em seu governo mesmo sem ser ministro, que é preciso defender a democracia no país e evitar o que ele chamou de golpe contra o atual governo.

Cenário externo
O dia é negativo para as principais bolsas mundiais antes do feriado, o que pode impactar a Bovespa hoje. O dólar volta a subir contra a maioria das principais moedas e divisas de emergentes, sendo que ontem, a alta foi atribuída a comentários de dirigentes do Federal Reserve sinalizando alta dos juros nos EUA.

Hoje, o presidente do Fed de Saint Louis, James Bullard, que já havia acenado na sessão anterior para alta de juros, volta a falar às 9h15. Bullard se juntou ao coro de autoridades que apontam o risco de ao menos dois aumentos de juros este ano, com o primeiro talvez já em abril. Nos EUA, os índices Dow Jones e S&P 500 recuam respectivamente 0,20% e 0,27%. 

Além do noticiário americano, as ações chinesas caíram mais de 1% também pressionadas pelos papéis de matérias-primas, após a mídia estatal noticiar que 35 corretoras domésticas retomaram suas atividades de vendas a descoberto após um longo hiato. Muitas instituições financeiras da China haviam voluntariamente suspendido suas atividades de empréstimo de margem e de vendas a descoberto de ações durante as pesadas quedas do mercado chineses em meados de 2015, em resposta à forte pressão de Pequim. O movimento pode ter um impacto psicológico em um mercado que está enfrentando o aumento da pressão de vendas depois de uma recuperação robusta.

O japonês Nikkei fechou em queda de 0,64%, enquanto o Hang Seng teve baixa de 1,31% e Xangai caiu 1,62%. Na Europa, o DAX caiu 1,71%, o FTSE teve baixa de 1,49% e o CAC 40 recuou 2,13%. 

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