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Bomba na Coreia, petróleo e China fazem Ibovespa atingir nova mínima desde 2009

Mercado tem dia de pessimismo em vista do maior risco geopolítico e de mais decepção com a economia chinesa; ata do Fomc tem pouco efeito sobre movimento das ações

Ações
(Shutterstock)

SÃO PAULO - O Ibovespa conheceu, nesta quarta-feira (6), sua quinta queda em seis pregões, acompanhando o cenário de tensão geopolítica por conta do anúncio de um teste "bem-sucedido" de bomba atômica feito pela Coreia do Norte, dados decepcionantes na China e depreciação do yuan. Uma hora antes do fim do pregão, o Federal Reserve divulgou a ata da última reunião do Fomc (Federal Open Market Committee), que poucos efeitos trouxe para o desempenho das ações. O benchmark da bolsa brasileira terminou o dia com perdas de 1,52%, a 41.773 pontos, puxado sobretudo pela forte queda das ações da Petrobras (PETR3; PETR4), Vale (VALE3; VALE5) e siderúrgicas. Foi o menor fechamento do índice desde 31 de março de 2009, quando atingiu os 40.925 pontos. O volume financeiro negociado na Bolsa foi de R$ 5,5 bilhões. Já o dólar comercial fechou em alta de 0,70% a R$ 4,0192 na compra e a R$ 4,0214 na venda.

Segundo o economista-chefe do home broker da Modalmais, Álvaro Bandeira, os três principais fios condutores desta queda do Ibovespa no dia foram a preocupação com a economia chinesa, o aumento do risco geopolítico e a forte derrocada do petróleo hoje, com o Brent caindo 5,67%, a US$ 34,80. No caso caso da commodity, a queda se dá por conta da declaração de representante do Irã na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), que disse que o excesso de oferta atual é de 2 milhões de barris por dia e que seu país prepara ampliar a oferta em mais 500 mil bpd. "Afeta commodities e também afeta o cenário interno porque derruba Petrobras", explica Bandeira.

Para ele, os mercados lá fora ficam tensos e trazem para cá esse clima, que se conjuga à indefinição política por aqui, com os investidores de olho no governo diante do risco de uma "guinada à esquerda" da política econômica após a reunião de Lula e Dilma, que ocorreu na véspera. "Ainda existe a expectativa do que o Banco Central vai fazer com a taxa Selic e se terá autonomia para gerir a taxa de juros", complementou. O movimento de queda dos DIs, na opinião do economista, reflete a possibilidade de ingerência dos interesses da cúpula do PT na próxima decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) que ocorrerá no dia 20 de janeiro. Aumentando esta tensão está o vazamento de um relatório reservado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em que analistas do banco criticam a política monetária implementada pelo BC sob a gestão de Alexandre Tombini. 

Bomba coreana e fraqueza na China
Lá fora, o dia foi de alta para as bolsas chinesas, com Xangai subindo 2,27%, mas é de queda para a maior parte dos outros mercados. As ações de blue chips chinesas terminaram com fortes ganhos nesta quarta após a mídia estatal dizer que a proibição de venda de ações pelos principais acionistas, aplicada para ajudar a deter uma forte queda do mercado no ano passado, continuará até que o governo publique novas regras.

Ainda na China, ontem às 23h45 foi divulgado pela Markit/Caixin, o PMI de Serviços da economia chinesa em dezembro. O índice foi de 50,2 pontos, o menor valor em uma década. Em novembro, o indicador mostrou 51,2 pontos. Vale lembrar que números acima de 50 mostram um avanço da atividade econômica do setor e abaixo de 50 mostram retração da atividade. Vista como uma medida para lutar contra esta desaceleração econômica, o yuan atingiu uma nova mínima após o banco central do país fixar inesperadamente a taxa de ponto médio a 6,5314 yuans por dólar. 

Os outros mercados, por sua vez, repercutem o cenário de aversão ao risco após a Coreia do Norte anunciar que fez teste nuclear, o 1º com bomba de hidrogênio, com sucesso, assim como os dados da China e após o gigante asiático permitir que o yuan se desvalorizasse mais, alimentando preocupações sobre sua economia. O alemão DAX caiu 0,93% e o francês CAC 40 caiu 1,27%. Hoje, as ações de países emergentes operam em níveis da crise de 2008. 

O Conselho de Segurança das Nações Unidas convocou uma reunião de emergência para hoje, depois de a Coreia do Norte ter anunciado a realização, bem-sucedida, de teste com bomba de hidrogênio. A reunião, a portas fechadas, entre os 15 países-membros foi convocada pelos Estados Unidos e o Japão, informou a porta-voz da missão norte-americana na ONU, Hagar Chemali. Nessa quarta-feira, o governo norte-coreano informou ter feito, com sucesso, o seu primeiro teste de hidrogênio, dando um passo significativo no desenvolvimento do programa nuclear. “O primeiro teste com bomba de hidrogênio da República foi realizado com sucesso às 10h [hora local] do dia 6 de janeiro de 2016, baseado na determinação estratégica do Partido dos Trabalhadores”, anunciou a televisão estatal. Vários centros de atividade sísmica detectaram hoje um abalo no país, levantando-se, de imediato, a possibilidade de ter sido causado por um teste nuclear.

Ata do Fomc
Apesar da decisão unânime de elevar os juros, alguns membros do Federal Reserve ficaram relutantes em subir as taxas neste momento, mostrou a ata de última reunião do Fomc de 2015, em que o Banco Central americano subiu os juros pela primeira vez desde 2006. Pesou no cenário as leituras de inflação ainda baixa no país e da expectativa de que a inflação pode suavizar ainda mais. 

"Quase todos os participantes estão agora razoavelmente confiantes de que inflação irá recuar para 2% no médio prazo", mostra a ata da reunião dos dias 15 e 16 de dezembro. Por outro lado, "alguns membros disseram que a sua decisão de aumentar o intervalo alvo foi por um triz, sobretudo tendo em conta a incerteza sobre a dinâmica da inflação".

Cenário doméstico
Um dos principais entusiastas da saída do ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, Lula, o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, e o presidente do PT, Rui Falcão, discutiram com a presidente Dilma a questão da "guinada à esquerda" que o partido defende para a política econômica. O PT é contra a proposta do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, de reformar a previdência e instituir a idade mínima para aposentadoria. 

É importante ressaltar a análise que cientistas políticos vêm fazendo de que Jaques Wagner após ter criticado, em entrevistas recentes, as medidas econômicas adotadas pelo governo nos últimos anos, precisará apresentar logo uma agenda positiva, não só para atrair um pouco a confiança dos investidores como também para dar sinais alentadores para trabalhadores, aliados petistas, sindicalistas de que o pior já passou. Duas das propostas em estudo são a reforma da Previdência e a reforma trabalhista. A da Previdência privilegiaria o aumento da idade mínima para a aposentadoria e a correção de algumas distorções que o governo detecta ainda na concessão de determinados benefícios.

Quanto à reforma trabalhista, informa “O Globo”, a intenção é facilitar as negociações diretas entre patrões e empregados, fazendo com que o acordado possa prevalecer sobre a legislação trabalhista, considerada antiga e engessada. Com isso e com o uso mais generalizado do Programa de Proteção ao Emprego (PPE), criado no ano passado, o governo acredita que dará para passar a fase mais aguda da crise sem grandes listas de demissões nas empresas.

Ainda no cenário político, diante da repercussão negativa e de críticas de delegados da Polícia Federal, o Ministério da Justiça admitiu na segunda à noite a possibilidade de recompor o orçamento para a categoria este ano. Estava previsto um corte de R$ 133 milhões na PF, o que, segundo os delegados, colocaria em risco o andamento de operações como a Lava Jato, de modo que o corte simbolizaria uma retaliação contra a iniciativa do órgão de investigar deputados e senadores envolvidos no escândalo de corrupção no seio da Petrobras.

Além disso, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) arquivou ontem o pedido de impeachment contra o vice-presidente da República, Michel Temer. O documento argumentava que Temer, assim como a presidente Dilma Rousseff, violou a Lei de Responsabilidade Fiscal, já que ele também assinou os quatro decretos de autorização de abertura de crédito suplementar em 2015. Vale ressaltar também a fala de Temer ontem de que o Brasil precisa de "muita harmonia" e que o Ano-Novo é o momento certo para que haja uma relação mais harmoniosa nas bancadas do PMDB e entre ele e a presidente Dilma Rousseff. Temer conversou rapidamente com os jornalistas ao sair do seu gabinete na Vice-Presidência. Na terça-feira, ele despachou pela primeira vez no ano em Brasília.

Destaques da Bolsa
As ações ligadas a commodities caíram forte neste pregão em meio à apreensão do mercado com China e Coreia do Norte. Lá fora, os preços do petróleo Brent apresentaram queda superior a 5% e puxaram as ações da Petrobras (PETR3, R$ 8,06, -4,62%; PETR4, R$ 6,40, -4,19%).

Já os papéis da Vale (VALE3, R$ 11,60, -7,35%; VALE5, R$ 9,15, -7,58%) seguiram a apreensão das demais mineradoras globais e afundaram hoje, em mais um dia de queda com dados piores na China. Acompanharam o movimento as ações da Bradespar (BRAP4, R$ 4,42, -6,95%), holding que detém participação na mineradora.

Também afetando o desempenho dos papéis da empresa, o minério de ferro spot (à vista), negociado no porto de Qingdao com 62% de pureza, fechou em queda de 0,46%, a US$ 42,91 a tonelada.

As siderúrgicas, que vivem temor de que a tão esperada medida de ajuda do governo não venha, voltaram a desabar pelo terceiro pregão, com Usiminas (USIM5, R$ 1,22, -8,96%), Gerdau (GGBR4, R$ 3,98, -8,08%) e CSN (CSNA3, R$ 3,38, -7,90%) despencando mais de 7%.

As maiores baixas, dentre as ações que compõem o Índice Bovespa, foram:

 Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 GOAU4 GERDAU MET PN 1,28 -12,93 -22,89 24,98M
 JBSS3 JBS ON 10,40 -9,17 -15,79 162,11M
 USIM5 USIMINAS PNA 1,22 -8,96 -21,29 26,05M
 RUMO3 RUMO LOG ON ES 5,22 -8,26 -16,35 5,16M
 GGBR4 GERDAU PN 3,98 -8,08 -14,41 41,81M


As maiores altas, dentre os papéis que compõem o Índice Bovespa, foram:

 Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 ESTC3 ESTACIO PART ON 13,52 +8,51 -3,08 34,07M
 BRKM5 BRASKEM PNA 27,75 +7,02 +0,47 91,65M
 ECOR3 ECORODOVIAS ON 4,80 +2,13 -5,70 45,76M
 KROT3 KROTON ON 9,37 +1,85 -1,68 381,20M
 HGTX3 CIA HERING ON 14,02 +1,74 -7,82 6,63M


As ações mais negociadas, dentre as que compõem o índice Bovespa, foram :

 Código Ativo Cot R$ Var % Vol1 Vol 30d1 Neg 
 ITUB4 ITAUUNIBANCO PN ED 25,24 -0,39 515,55M 384,67M 43.075 
 PETR4 PETROBRAS PN 6,40 -4,19 434,67M 247,08M 37.012 
 KROT3 KROTON ON 9,37 +1,85 381,20M 76,89M 29.835 
 BBDC4 BRADESCO PN EJ 18,78 -1,42 273,78M 210,78M 29.770 
 VALE5 VALE PNA 9,15 -7,58 226,36M 162,76M 34.179 
 ITSA4 ITAUSA PN 6,77 +0,89 182,96M 105,96M 42.967 
 JBSS3 JBS ON 10,40 -9,17 162,11M 68,05M 37.209 
 CIEL3 CIELO ON 34,27 +1,54 158,86M 119,23M 16.492 
 ABEV3 AMBEV S/A ON EJ 17,31 -0,97 134,04M 156,68M 15.622 
 VIVT4 TELEF BRASIL PN EJ 34,90 -2,02 131,77M 52,14M 9.705 

* - Lote de mil ações
1 - Em reais (K - Mil | M - Milhão | B - Bilhão)
 

Indicadores econômicos
O Brasil registrou entrada líquida de US$ 9,414 bilhões em 2015, o primeiro superávit em três anos, com fortes entradas pela conta comercial mais do que compensando o terceiro déficit financeiro consecutivo.

Segundo dados do Banco Central, o Brasil registrou entrada líquida de US$ 25,486 bilhões pela conta comercial, melhor desempenho desde 2011.

O bom resultado vem em um ano marcado pela forte alta do dólar em relação ao real, que torna produtos brasileiros mais baratos para compradores estrangeiros. A moeda norte-americana subiu 48,5% em 2015, a maior apreciação em 13 anos.

 

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