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Exterior ajuda e Bolsa fecha em alta de 2% em dia de dados fracos; dólar sobe a R$ 3,76

Tomando força do desempenho exterior e sem votação de pautas bomba no Congresso, Ibovespa consegue quebrar sequência de quedas fortes

Ações em alta
(ShutterStock)

SÃO PAULO - O Ibovespa fechou em alta nesta quarta-feira (2) puxado pelo mercado exterior, em um dia de forte correção após três quedas consecutivas. Os índices Dow Jones e S&P 500 subiram 1,82% a 16.351 pontos e 1,84% a 1.949 pontos, respectivamente. Depois do Livro Bege do Federal Reserve, a Bolsa estendeu ganhos, em meio a interpretações de que a menção da China interferindo no lucro de algumas empresas pudesse significar mais cautela antes de um aumento dos juros pelo Fed. Fica ainda no radar hoje a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), para a qual a maioria dos economistas espera uma manutenção da taxa de juros no atual patamar de 14,25% ao ano. 

O benchmark da Bolsa brasileira subiu 2,17%, a 46.463 pontos. Já o dólar comercial teve alta de 1,94% a R$ 3,7598 e o dólar futuro para outubro tem alta de 1,54% a R$ 3,791. No mercado de juros futuros, o DI para janeiro de 2017 sobe 33 pontos-base a 14,81%, enquanto o DI para janeiro de 2021 tem alta de 24 pbs também a 14,70%. Além deles, o DI para janeiro de 2016 opera em 14,40%, precificando um novo aumento da Selic na reunião do Copom de outubro. 

Apesar da alta do Ibovespa, a maioria das notícias da sessão foram negativas. Um exemplo é a alta do seguro contra calote dos títulos brasileiros, que foi ao maior nível desde 2009, mostrando aumento do risco de corte de rating. Foi noticiado que os CDSs (Credit Default Swaps) de 5 anos do Brasil subiram para 366,64 pontos-base, o maior nível desde março de 2009. O CDS é um ativo que funciona como um seguro contra calote de um determinado título de dívida. É como se fosse uma forma de operar vendido na renda fixa, sendo que seu preço aumenta conforme aumentam as chances de default do título ao qual ele se espelha. 

O pregão também foi marcado por uma série de indicadores macroeconômicos, tais quais o relatório de emprego do setor privado dos Estados Unidos (ADP Employment), os estoques de petróleo, a produção industrial e o fluxo cambial por aqui e o Livro Bege do Federal Reserve. 

De todos o setor mais afetado pela crise econômica atual, a indústria teve mais um mês de retração em julho. Divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a produção industrial do mês de julho teve uma queda de 1,5%, contra 0,3% de recuo em junho e estimativas do mercado de 0,1% de queda. 

Com isso, a indústria encontra-se 14,1% abaixo do nível recorde alcançado em junho de 2013. Na série sem ajuste sazonal, no confronto com igual mês do ano anterior, a indústria apontou queda de 8,9% em julho de 2015, ante expectativa de 6,3% de retração, 17ª taxa negativa consecutiva e mais acentuada do que as observadas em março (-3,3%), abril (-7,7%), maio (-8,8%) e junho (-2,8%). Assim, o setor industrial acumulou redução de 6,6% nos sete meses de 2015. A taxa anualizada, indicador acumulado nos últimos 12 meses, com o recuo de 5,3% em julho de 2015, assinalou perda mais intensa do que a verificada em junho último (-4,9%) e manteve a trajetória descendente iniciada em março de 2014 (2,1%).

Já o fluxo cambial soma US$ 9,806 bilhões no acumulado do ano até o dia 28 de agosto, de acordo com dados divulgados nesta quarta pelo Banco Central. O resultado revela um aumento em relação à soma acumulada até o fechamento de julho, de US$ 7,165 bilhões. No mesmo período de 2014, o fluxo cambial estava positivo em US$ 106 milhões.

Nos EUA, o ADP mostrou a criação de 190 mil novas vagas em agosto, contra 201 mil esperadas e 177 mil criadas no mês de julho. 

Já o Livro Bege mostrou que o mercado de trabalho dos Estados Unidos está forte o suficiente para motivar pequenos ganhos salariais em algumas profissões nas últimas semanas, mas algumas companhias já sentiam o impacto da desaceleração econômica na China. De maneira geral, a atividade econômica dos EUA continuou a expandir ao longo da maioria das regiões e dos setores entre julho e meados de agosto, informou o Fed em seu relatório, que reúne relatos sobre a atividade empresarial coletados com contatos em todo o país.

O déficit
Ainda no radar por aqui está o aumento dos riscos de perda do grau de investimento pelo Brasil depois do governo entregar Orçamento de 2016 prevendo um déficit de R$ 30,5 bilhões. A notícia também aumentou os temores de saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que teve um discurso mais agressivo ontem de espera por alta do dólar e não respondeu sobre se continuaria no cargo.

A equipe do Itaú Unibanco revisou suas projeções após o anúncio do Orçamento do governo para 2016 e decidiu reduzir sua expectativa de superávit primário de 0,2% para déficit de 1% do PIB em 2016. "Os gastos mais elevados irão produzir um resultado primário abaixo da meta de -0,34%, porque a receita tende a frustrar as expectativas contidas no Orçamento", disse o economista Luka Barbosa em relatório.

Além do Itaú, a agência de classificação de risco, Fitch Ratings, disse que a revisão do Orçamento colocou o resultado primário bem abaixo do cenário base. A previsão de déficit primário em 2016, conforme detalhado no Orçamento, evidencia as dificuldades que o Brasil está enfrentando com sua consolidação fiscal, disse o diretor sênior da agência, Shelly Shetty, em comentário feito por email à Bloomberg. 

A Fitch ressaltou que a dinâmica de crescimento fiscal e dívida determinará o rating do Brasil. O diretor da agência comentou que as revisões para baixo colocam a tendência dos superávits primários bem abaixo do cenário base usado pela Fitch em abril e enfatizam os riscos crescentes para a trajetória de dívida e de finanças públicas. 

Por outro lado, segundo o Valor Econômico, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, disse que a parte mais crítica da crise já passou. Ele e o líder do governo na Câmara mantiveram, pelo menos por enquanto, os vetos de Dilma a algumas medidas como o projeto que cria uma alternativa ao fator previdenciário – mecanismo usado para calcular a aposentadoria – e o que prevê o reajuste das remunerações do Poder Judiciário em até 78,56% foi encerrada sem nada votar. A sessão do Congresso que votaria estes temas foi encerrada sem nada votar por falta de quórum.

Os líderes Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Rubens Bueno (PPS-PR), respectivamente senador e deputado, acusaram parlamentares de partidos da base do governo de não registrarem presença por temerem a derrubada de vetos que representariam aumento de gastos para o Executivo federal. Já o petista Carlos Zarattini (SP) tentou justificar a ausência de parlamentares da base na sessão. “Não temos ainda uma garantia que o veto será mantido. É importante manter o veto porque existe negociação com o Judiciário para chegar a uma solução que melhore o salário dos funcionários”, disse.

Destaques de ações
As ações da Petrobras (PETR3, R$ 10,20, +2,51%; PETR4, R$ 8,82, +2,68%) passaram boa parte do pregão em queda, mas viraram para alta acompanhando a virada do petróleo. O recuo que veio após a divulgação dos estoques de petróleo nos EUA, que subiram 4,67 milhões na semana anterior contra queda de 5,45 milhões no último dado, acabou se revertendo com bastante força. Hoje o barril do Brent teve alta de 1,68% a US$ 52,03.

Outra notícia que deve ser acompanhada com atenção pelo mercado nos próximos dias dentro do noticiário da estatal é o comunicado da Federação Única dos Petroleiros (FUP), de que entrará em greve por tempo indeterminado a partir da próxima sexta-feira. A greve está planejada para afetar todas as unidades administrativas e operacionais da Petrobras, assim como nas instalações da Transpetro, subsidiária de logística da estatal.

Os papéis da Vale (VALE3, R$ 18,11, +5,91%; VALE5, R$ 14,58, +5,81%) também fecharam em alta. O minério de ferro com entrega imediata no porto de Qingdao subiu 0,19% a US$ 56,70 a tonelada. Junto com a Vale subiram também as ações de siderúrgicas como CSN (CSNA3, R$ 3,71, +5,10%) e Usiminas (USIM5, R$ 3,26, +5,16%), Gerdau (GGBR4, R$ 6,02, +10,05%) e Metalúrgica Gerdau (GOAU4, R$ 3,50, +12,90%). 

As ações da Smiles (SMLE3, R$ 43,99, +0,71%) viraram para alta depois de caírem 20% em 30 dias. Segundo Gesley Henrique, analista da Gradual Investimentos, o dólar mais alto prejudica a empresa porque torna mais desfavoráveis para a administradora de programas de fidelidade os termos de troca com os seus parceiros financeiros como os bancos, que passam a pedir descontos para comprar as suas milhas. 

Ainda do lado positivo, no Ibovespa subiram forte as ações da Kroton (KROT3, R$ 8,63, +0,58%) e da Estácio (ESTC3, R$ 12,49, 0,00%). O Ministério do Planejamento vai destinar R$ 18,8 bilhões para o Fies (financiamento estudantil do governo), em 2016 - crescimento de 9,2% na comparação com essa ano. Em 2015, a verba ficou em R$ 16,6 bilhões. Analistas do Santander comentaram que o orçamento do ano que vem pode aliviar preocupações do mercado sobre novos cortes em novos contratos do Fies e trazer impacto positivo para as empresas do setor.

Em queda fecharam alguns papéis do setor elétrico, tais quais Cesp (CESP6, R$ 15,11, -1,56%), CPFL (CPFE3, R$ 15,15, -1,50%) e Eletrobras ON (ELET3, R$ 4,81, -1,03%).

Ásia cai, Europa se recupera
As bolsas asiáticas caíram pelo terceiro dia consecutivo nesta quarta-feira após relatórios fracos sobre atividade industrial na China, Estados Unidos e Europa alimentarem preocupações sobre a desaceleração do crescimento global. Embora sinais de uma desaceleração de mercados emergentes estejam evidentes há um tempo na forma dos preços de commodities em queda e crescimento fraco do comércio, investidores estavam de modo geral otimistas com esperanças de que as demandas forte dos EUA e da China manteriam o motor de crescimento mundial em movimento.

No entanto, os dados fracos de PMIs divulgados nesta semana acabaram com estas perspectivas. "Essa é a crise dos mercados emergentes de 2015", disse o vice-presidente de investimentos de ações globais da Fidelity Worldwide Management.

"Apesar dos mercados emergentes estarem muito melhores do que estavam há alguns anos, pode haver mais dores aguardando eles no futuro", disse ele. Em Tóquio, Nikkei caiu 0,39% e Xangai teve baixa de 0,37%. Cabe lembrar ainda que, em documento, o BC da China determinou compulsório para todos os derivativos cambiais.

Em destaque ainda, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, afirmou que a recente volatilidade nos mercados financeiros globais mostra como os riscos podem se espalhar rapidamente de uma economia para outra. "O que tem sido demonstrado nas últimas semanas é quanto a Ásia está no centro da economia global, e quanto problemas em um mercado na Ásia pode de fato se espalhar para o resto do mundo", disse Lagarde em conferência na capital da Indonésia.

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