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Ibovespa cai 2,91% em ano marcado por Copa e "rali eleitoral"

De uma máxima quando os investidores acreditavam em uma vitória de Marina Silva nas eleições presidenciais a uma

SÃO PAULO - O ano de 2014 prometia desde o começo com a primeira Copa do Mundo no Brasil desde 1950 e eleições presidenciais depois das grandes manifestações de 2013. A Bolsa, que é sensível a grandes eventos repercutiu mostrando uma forte volatilidade no ano, flutuando de uma mínima de 44.965 pontos em 14 de março a 61.895 pontos em 2 de setembro. Nesta terça-feira (30), o último pregão do ano, o índice caiu 1,16%, a 50.007 pontos contaminado pelo mau humor nos mercados mundiais. 

Retrospectiva
No primeiro pregão do ano, uma quinta-feira, 2 de janeiro, o Ibovespa caiu 2,26% refletindo uma desaceleração na indústria chinesa. Os investidores que já estavam pessimistas com as possibilidades para a economia no cenário doméstico de redução do ritmo do consumo e a inflação começando a avançar, também passaram a se preocupar com o cenário externo.

A desaceleração no crescimento das principais economias do mundo atingiu seu ápice quando a inflação ao produtor recuou 0,1% nos Estados Unidos na sexta-feira 14 de março, frente a uma expectativa de alta de 0,2% dos economistas. No fim de semana, a Crimeia realizaria um referendo em que 95,5% dos habitantes votaram pela anexação da província pela Rússia, levando a um conflito que teria um saldo de mais de 4700 mortos na Ucrânia.

Em meio à fraqueza externa e a conflitos geopolíticos, o Ibovespa fechou em queda de 1,05%, a 44.965 pontos, o menor patamar desde 22 de abril de 2009. 

No entanto, tudo começou a mudar em 17 de março, quando rumores de que a presidente Dilma Rousseff (PT) estaria perdendo forças e que uma nova pesquisa mostraria um avanço na rejeição ao seu governo fizeram com que o Ibovespa subisse 0,34%, a 45.117 pontos. Era o início do chamado "rali eleitoral". Descontentes com a condução da economia na gestão Dilma, considerada por muitos como excessivamente intervencionista, investidores se animavam com a possibilidade de derrota da petista no pleito presidencial de outubro.

Enquanto estourava isso, o Brasil se preparava para sediar o mundial de futebol, que se iniciou em um dia dos namorados, 12 de junho, com uma vitória do Brasil sobre a Croácia por 3 a 1. A Bolsa não teve pregão por conta do evento, mas investidores, economistas, cientistas políticos e sociólogos começavam a especular o impacto político de uma vitória ou derrota da seleção na Copa.

Em 9 de julho, os ADRs (American Depositary Receipts) da Petrobras subiram 4,63%, a US$ 15,14, logo depois da derrota por 7 a 1 que o Brasil sofreu contra a Alemanha. Já o Ibovespa subiu 1,79%, a 54.592 pontos no dia 10 de julho (o dia 9 foi feriado).

Depois disso, o índice foi subindo e descendo de acordo com as pesquisas eleitorais, chegando ao máximo de 61.895 pontos, alta de 1,23% no dia 2 de setembro, quando a candidata do PSB à Presidência da República, Marina Silva apareceu em empate técnico com a presidente Dilma Rousseff (PT) nas intenções de voto do primeiro turno.

Uma das maiores altas do ano, o índice subiu 4,72%, a 57.115 pontos um dia após as eleições com o desempenho melhor que o esperado do candidato Aécio Neves (PSDB). A tendência de alta foi mantida até que a presidente voltou a aparecer na frente das pesquisas. Com a sua vitória, em 26 de outubro, o Ibovespa fechou em queda de 2,77%, puxada pela Petrobras, que despencou 12%. Na mínima do dia, o índice chegou a cair 6,2%.

Com o fim das eleições, o índice voltou a apresentar volatilidade na expectativa da nova equipe econômica do governo. A maior alta do ano foi quando Joaquim Levy, do Bradesco, foi anunciado como novo ministro da Fazenda. No dia, o Ibovespa subiu 5,02%, a 56.084. 

De lá para cá, o índice caiu forte com redução no preço das commodities e perspectivas negativas para a economia em 2015, principalmente quando o Federal Reserve elevar a taxa de juros básicos da economia norte-americana quase perdeu os 50 mil pontos no último pregão do ano. 

Hoje, último pregão de 2014
Enquanto o Ibovespa caiu 1,16% nesta terça, o dólar comercial caiu 1,78%, a R$ 2,6587. No caso da moeda norte-americana, esperam-se definições sobre o programa de swap cambial do Banco Central que vigorará a partir de 2015, segundo relatório da Guide Investimentos. O último dia de negociação do câmbio no mês também é mercado pela tradicional disputa da Ptax em que comprados e vendidos em dólar tentam fazer valer as suas posições. 

Os índices nos EUA abriram em queda e não se empolgaram com a melhora na confiança do consumidor, que foi de 92,6 ante 91 no mês anterior, enquanto economistas esperavam uma leitura de 93 para dezembro. Uma melhora na maior economia do mundo preocupa o mercado brasileiro porque pode indicar uma elevação mais cedo nos juros básicos dos EUA pelo Federal Reserve. 

Aqui, a Bolsa repercute medidas anunciadas pelo ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, de aumento nos períodos de carência para diversos benefícios sociais, podendo trazer uma economia de R$ 18 bilhões nas contas públicas. Fora isso, segundo a Folha de S. Paulo, a próxima medida a ser anunciada pelo governo para cumprir a promessa da nova equipe econômica de fazer um superávit de 1,2% do PIB será a volta do tributo sobre combustíveis conhecido como Cide. 

Destaques
As ações da Petrobras (PETR3, R$ 9,59, -2,84%; PETR4, R$ 10,02, -2,53%) oscilam entre leves perdas e ganhos em um dia de noticiário movimentado para a companhia. A estatal informou em comunicado irá divulgar seu balanço referente ao terceiro trimestre de 2014 em janeiro. Além disso, a petroleira rompeu contrato com 23 fornecedoras que foram citadas nas investigações da Operação Lava Jato da Polícia Federal. 

Entre os destaques do dia ficaram as ações da Rossi (RSID3, R$ 3,39, -17,52%), que foram de uma alta de mais de 10% a uma queda de 15%. Na primeira metade do mês, os papéis já tinham registrado 46% de queda. Nesta sessão, a alta chegou a mais de 10%. Conforme destaca o analista técnico da Guide Investimentos, Lauro Vilares, este é um movimento de correção depois das fortes quedas dos papéis após o grupamento dos papéis na proporção de cinco para um. 

Operadores da mesa de BTC da XP Investimentos comentaram na última segunda que essa arrancada recente foi por conta de um "short squeeze" nos papéis, já que, de acordo com eles, a demanda de aluguel para as ações subiu bastante nos últimos dias, enquanto os "doadores" sumiram do mercado. 

O movimento é conhecido por quem opera na ponta vendedora do mercado já que para ganhar na queda de um papel o investidor precisa primeiramente alugar a ação no BTC (Banco de Títulos CBLC) da Bovespa para depois vendê-lo no mercado. Desta forma, quando a procura por empréstimo aumenta enquanto reduz o número de "doadores", ou seja, quem disponibiliza esse aluguel, ocorre o "short squeeze". Sem ter como alugar o papel, os investidores precisam se desfazer de suas posições, resultando em uma forte disparada da ação.

As duas companhias de educação, Kroton (KROT3, R$ 15,50, -6,51%) e Estácio (ESTC3, R$ 23,82, -7,13%) ficaram entre as maiores perdas deste último pregão de 2014 após a notícia de que a nota do Enem pode dificultar o acesso de novos alunos ao Fies, programa de financiamento estudantil. O Semesp, sindicato das instituições privadas de ensino superior, acredita que essas novas regras do MEC (Ministério da Educação) vão provocar impacto relevante para as instituições de ensino superior. As regras começam a valer em abril.

Em entrevista ao Valor Econômico, Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, afirma que cerca de 70% dos alunos que têm o Fies, financiamento estudantil do governo, estudaram em escolas públicas e por isso podem enfrentar dificuldades para atingir a pontuação mínima exigida e não zerar na redação do exame do Enem.

As maiores baixas, dentre as ações que compõem o Índice Bovespa, foram:

 Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano
 RSID3 ROSSI RESID ON 3,39 -17,52 -66,76
 ESTC3 ESTACIO PART ON 23,82 -7,13 +17,68
 KROT3 KROTON ON 15,50 -6,51 +63,76
 CSNA3 SID NACIONAL ON 5,58 -4,62 -61,20
 SBSP3 SABESP ON 17,01 -4,01 -33,27



As maiores altas, dentre os papéis que compõem o Índice Bovespa, foram:

 Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano
 EVEN3 EVEN ON 5,44 +2,64 -30,41
 CIEL3 CIELO ON 41,67 +2,36 +31,52
 GFSA3 GAFISA ON 2,20 +2,33 -36,25
 QUAL3 QUALICORP ON 27,80 +2,13 +23,56
 GOLL4 GOL PN N2 15,18 +1,27 +44,85



As ações mais negociadas, dentre as que compõem o índice Bovespa, foram :

 Código Ativo Cot R$ Var % Vol1
 KROT3 KROTON ON 15,50 -6,51 340,44M
 BVMF3 BMFBOVESPA ON 9,85 -0,81 315,17M
 ITUB4 ITAUUNIBANCO PN 34,60 -0,57 299,18M
 PETR4 PETROBRAS PN 10,02 -2,53 272,12M
 VALE5 VALE PNA 19,23 -0,47 243,40M
 BRFS3 BRF SA ON 63,44 -0,61 227,21M
 ESTC3 ESTACIO PART ON 23,82 -7,13 220,25M
 BBDC4 BRADESCO PN EJ 35,06 -0,68 164,36M
 CIEL3 CIELO ON 41,67 +2,36 155,99M
 ABEV3 AMBEV S/A ON 16,35 -0,12 153,32M

* - Lote de mil ações
1 - Em reais (K - Mil | M - Milhão | B - Bilhão)
 

Confiança nos EUA, PMI na China
As bolsas mundiais têm queda nesta terça-feira (30) com dados da confiança do consumidor nos Estados Unidos e espera pelo Índice Gerente de Compras (PMI na sigla em inglês) industrial da China. Também afeta o desempenho dos mercados hoje as incertezas com relação a eleições na Grécia. 

O primeiro-ministro grego Antonis Samaras se encontrará com o presidente Karolos Papoulias para pedir eleições em 25 de janeiro, enquanto o partido de esquerda Syriza lidera as pesquisas de intenções de voto, trazendo preocupações de que o país europeu irá deixar de lado as medidas de austeridade necessárias para receber resgates da chamada troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional).

O índice de Confiança do Consumidor dos Estados Unidos veio em 92,6 em dezembro, ante 91 em novembro, enquanto economistas consultados pela Reuteres esperavam uma expansão maior até 93. Já o PMI industrial chinês deve consolidar dados de desaceleração, pressionando os preços das commodities, uma vez que o gigante asiático é o maior comprador destes produtos. 

O índice Xangai fechou estável com leve queda de 0,06%, a 3.166 pontos, enquanto o petróleo WTI (West Texas Intermediate) continua despencando para níveis próximos aos de maio de 2009, ficando cotado a US$ 53,16 o barril. 

(Com agências)

 

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