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Entenda por que a BM&FBovespa não gosta do horário de verão brasileiro

Com os novos horários, "delay" entre a abertura do pregão da Bovespa e de Wall Street aumenta para 150 minutos; na prática, os investidores estrangeiros chegam mais tarde para a festa

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(Thinkstock)

SÃO PAULO - Criado com o intuito de economizar energia elétrica, o horário de verão tem implicações na Bolsa de Valores que não agradam muito os participantes do mercado. Durante esse período, o "delay" entre a abertura do mercado brasileiro e o norte-americano aumenta em até duas horas e, como o investidor estrangeiro responde por praticamente metade do volume negociado na Bovespa, o reflexo disso acaba sendo de maior volatilidade nas horas iniciais de pregão.

A bolsa brasileira abre às 10h, horário de Brasília. Em "tempos normais", ela mantém uma distância de apenas 30 minutos em relação à abertura do pregão em Wall Street. Com o nosso horário de verão em vigor, as bolsas americanas passam a abrir às 11h30, horário de Brasília. Agora, com o fim do deles, essa abertura começa às 12h30. Ou seja: o que era apenas 30 minutos de espera para o "gringo" chegar na Bovespa passa a ser longos 150 minutos.

Mas por que isso impacta tanto o mercado brasileiro de ações? Ora, com o descompasso maior entre a abertura da Bovespa e da NYSE, mais tempo o investidor precisará esperar para ver o "humor" dos estrangeiros em relação ao mercado brasileiro, já que o horário de abertura das bolsas norte-americanas não a toa coincide com um aumento de giro financeiro na Bovespa. Em outras palavras: é a hora que os estrangeiros entram (ou saem) de vez no mercado brasileiro.

"Muito está relacionado ao pessoal aguardar com mercado abrir lá para tomar posições aqui", disse Carlos Müller, analista-chefe da Geral Investimentos. Para ele, se o investidor estrangeiro toma uma posição muito forte na nossa Bolsa antes da abertura nos EUA, ele corre o risco de ficar no sentido contrário ao do movimento geral das ações. "Às vezes chega algum indicador lá fora e ele já tem posição aqui, daí a Bolsa vira e ele perde dinheiro", explica.

Com isso, essas horas a mais de diferença entre a nossa abertura e a dos EUA aumentam a cautela principalmente dos investidores que estão fora do Brasil. Dessa forma, a aceleração do volume que ocorre depois da abertura lá fora fica uma "atrasada". É o que explica o analista de mercado Flávio Conde. "A direção do mercado americano tem uma influência grande. Essa influência vai começar a partir das 12h30 e não das 11h30 com o horário de verão", comenta.

Volume cai forte
A última semana de negociação com o "novo horário de verão" ilustra bem essa situação. Entre os dias 3 e 7 de novembro, o giro médio diário na Bovespa foi de R$ 6,42 bilhões, tendo alcançado seu pico na terça-feira (R$ 7,13 bilhões). O montante é muito menor do que o volume médio de outubro, que ficou em R$ 10,87 bilhões/dia - lembrando que o mês passado foi recorde histórico na Bolsa, devido às eleições. Contudo, em setembro, a média diária já foi bem acima dos números atuais: R$ 8,37 bilhões por dia, segundo dados da própria BM&FBovespa.

Conde, no entanto, faz uma breve ressalva aos impactos danosos na Bovespa. "Conforme vai passando o tempo, o investidor vai se adaptando e [o volume] cairá menos", lembra o analista. No futuro, com as direções mais claras ele pode voltar a investir com mais força nessa hora que atualmente é de espera para tomar posições mais fortes de compra ou de venda.

Esse "delay" acaba em 22 de fevereiro do ano que vem, quando nossos relógios serão atrasados em uma hora com o fim do horário de verão. 

 

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