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Com rali eleitoral de março, Ibovespa fecha primeiro semestre com alta de 3,22%

Ano começa como forte pessimismo dos investidores, mas euforia na corrida eleitoral ajuda índice a dar a volta por cima

SÃO PAULO - O Ibovespa parece enfim ensaiar, a tímidos passos, sua volta por cima em 2014. Ao final do primeiro semestre do ano, o índice comemora modestos ganhos de 3,22%, a 53.168 pontos ante perdas de superiores a 15% no ano anterior. Nem mesmo o cenário de pessimismo nos dois primeiros meses em meio à desconfiança geral com os emergentes e a situação de deterioração econômica nacional conseguiram barrar o ímpeto do índice no acumulado dos meses seguintes. Contribuindo para o maior apetite a riscos, o movimento conhecido como “rali eleitoral” começou a se fazer visto na medida em que a presidente Dilma Rousseff deu sinais de perda de vigor nas urnas.

Em junho, não foi diferente: apesar de o otimismo ser bem mais contido no mês que marcou o início da Copa e a consequente queda de volume na bolsa, o benchmark da Bovespa acumulou ganhos de 3,76%. Essa alta poderia ter sido ainda maior se não fossem as últimas duas semanas do mês, quando o pessimismo do Banco Central com o mercado de crédito nacional e a situação geral da economia do país, além da estabilidade mostrada na última pesquisa eleitoral, motivaram os investidores a substituírem o homebroker pelo sofá de casa ou os bares para assistir aos jogos emocionantes de um dos mundiais mais emocionantes da história do futebol mundial.

Vale lembrar que o período marcou também a confirmação dos principais nomes para a corrida eleitoral à presidência em outubro, além dos pacotões do ministro Guido Mantega de incentivo às pequenas e médias empresas na Bovespa, além das exportadoras e setor industrial. Nesta segunda-feira (30), outro dado divulgado importante selou o fim do semestre. Nesta data, o Ibovespa fechou próximo da estabilidade, com alta tímida de 0,02%. O giro financeiro negociado na Bovespa foi de R$ 5,35 bilhões.

Destaques do dia
Conforme mostrou o Banco Central, o setor público consolidado repetiu o feito do governo central e ainda registrou o segundo pior resultado da história em suas contas, com déficit de R$ 11,046 bilhões em maio. O número só foi melhor que o de dezembro de 2008 – ano da maior crise financeira mundial dos últimos tempos -, quando o saldo foi negativo em mais de R$ 20 bilhões.

Em meses de maio, nunca havia sido registrado um resultado negativo. O superávit mais baixo, de R$ 487,1 milhões, foi visto em maio de 2010. Em abril, o resultado foi positivo em R$ 16,896 bilhões. Em maio do ano passado, houve superávit de R$ 5,681 bilhões.

Ainda nessa sessão, os economistas de instituições financeiras revisaram para baixo pela quinta vez expectativa a expansão do PIB (Produto Interno Bruto) em 2014, que diminuiu para 1,10%, ante 1,16% da semana anterior. Já para 2015, a projeção do PIB foi para 1,50%, ante expectativa de expansão de 1,60% na semana anterior. Em relação à inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 2014, os economistas mantiveram em 6,46% e continuou abaixo do teto da meta, enquanto para o próximo ano a projeção também foi mantida em 6,10%.

Também no cenário nacional, destaque para a Fitch Ratings, que estimou nesta segunda-feira que o Brasil vai crescer 1,5% neste ano, melhorando de forma apenas modesta em 2015 e 2016. Em seu mais recente relatório Cenário Econômico Global, a Fitch projeta que o crescimento global vai acelerar gradualmente em 2014 e 2015, mas ainda há riscos.

Já nos Estados Unidos, os dados do Chicago PMI animaram, ao ficarem em 62,6 pontos em junho, ante expectativa de 60, enquanto os dados de vendas de casas pendentes registraram o maior nível em oito meses, com alta de 6,1%. O mercado segue na expectativa pelos dados de emprego ainda nesta semana. Apesar dos indicadores otimistas, os principais índices acionários do país fecharam sem movimento definido, com Dow Jones e S&P 500 fechando em queda e o Nasdaq subindo.

Já o dólar teve um dia de forte valorização, depois de seguidos movimentos de queda na semana passada. Nesta segunda-feira, a moeda americana fechou em alta de 0,7%, cotada a R$ 2,2108 na venda, ainda em um patamar que agrada as autoridades monetárias brasileiras.

Destaques do pregão
No noticiário corporativo, mais uma vez, o destaque ficou com a Petrobras (PETR3, R$ 16,24, +1,18%; PETR4, R$ 17,29, +0,52%). Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, a presidente da companhia, Graça Foster, negou enfaticamente que haverá um novo aumento de capital até 2030. Os rumores de uma nova capitalização voltaram à tona após o anúncio da cessão onerosa, que custará R$ 15 bilhões à companhia até 2018.

Além disso, o mercado se animou após a reunião com analistas com a presidente da Petrobras. Foster disse que a companhia estima uma economia de custos com descobertas de US$ 18 bilhões entre 2015 e 2021 pela contratação direta do óleo excedente no pré-sal. A petrolífera estatal prevê ainda que seriam necessários investimentos de cerca de US$ 26 bilhões para adquirir áreas, descobrir e delimitar potencial do óleo excedente, segundo apresentação encaminhada à CVM.

Enquanto isso, as ações da Marfrig (MRFG3, R$ 5,96, +1,19%) figuraram como uma das maiores altas do índice, mesmo que não tão expressiva. Na sexta-feira, as ações subiram forte com a elevação de recomendação de suas ações do BTG Pactual para compra. Os papéis do frigorífico apresentaram a segunda maior alta do semestre, com ganhos de 49% no período, perdendo apenas para a educacional Kroton (KROT3, R$ 61,96, -0,47%), que marcou alta de 58,86% entre janeiro e dezembro.

Entre as maiores quedas do Ibovespa, apareceram as ações da Oi (OIBR4, R$ 1,95, -2,99%), que seguiram a desvalorização da semana passada, após as ações de sua maior acionista, Portugal Telecom, caírem mais de 3%. No final da semana passada, a empresa europeia anunciou que havia comprado 900 milhões de euros em dívidas da RioForte, holding do Banco Espírito Santo. "Obviamente, esta queda da PT é devido à reação do mercado à notícia da PT refinanciando a si própria através da dívida de sua principal acionista, o que tem impacto reputacional", disse Albino Oliveira, analista da Fincor em Lisboa.

Ainda entre as maiores quedas, as ações da MMX Mineração (MMXM3, R$ 2,03, -6,88%) voltam a cair forte nesta segunda-feira. Na semana passada, a mineradora afirmou que a busca por um parceiro para ajudar a financiar sua expansão tem sido mais difícil por causa da queda dos preços de minério de ferro. A MMX está buscando um parceiro para a mina no projeto Serra Azul, em Minas Gerais, enquanto lida com o colapso do conglomerado de petróleo, energia, mineração, construção naval e operações portuárias do empresário Eike Batista.

O mercado também ficou de olho nas ações da Vale (VALE3, R$ 29,24, +0,62%; VALE5, R$ 26,35, +0,53%) e de siderúrgicas Usiminas (USIM5, R$ 7,58, 0,00%), CSN (CSNA3, R$ 9,40, +0,43%) e Gerdau (GGBR4, R$ 12,94, -0,54%). Nesta data, o JPMorgan cortou previsão de preço médio do minério de ferro em 2014 de US$ 118 a tonelada para US$ 105 em 2015. De 2015, a cotação passou de US$ 110 a tonelada para US$ 97 a tonelada.

As maiores altas, dentre as ações que compõem o Índice Bovespa, foram:

 Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 EMBR3 EMBRAER ON EJ 20,19 +2,85 +7,80 21,30M
 JBSS3 JBS ON 7,60 +2,29 -12,47 31,61M
 DTEX3 DURATEX ON 9,02 +2,27 -24,55 19,33M
 GFSA3 GAFISA ON 3,37 +2,12 -2,35 10,47M
 MRVE3 MRV ON 7,46 +1,77 -7,55 15,45M

As maiores baixas, dentre os papéis que compõem o Índice Bovespa, foram:

 Cód. Ativo Cot R$ % Dia % Ano Vol1
 MMXM3 MMX MINER ON 2,03 -6,88 -51,67 6,30M
 PDGR3 PDG REALT ON 1,46 -3,31 -19,34 15,63M
 OIBR4 OI PN 1,95 -2,99 -45,68 54,87M
 BBDC3 BRADESCO ON ED 32,24 -2,01 +2,52 41,95M
 LIGT3 LIGHT S/A ON 21,56 -2,00 +7,30 11,51M

As ações mais negociadas, dentre as que compõem o índice Bovespa, foram :

 Código Ativo Cot R$ Var % Vol1 Vol 30d1 Neg 
 PETR4 PETROBRAS PN 17,29 +0,52 359,97M 543,42M 29.055 
 VALE5 VALE PNA 26,35 +0,53 245,21M 320,62M 17.101 
 ITUB4 ITAUUNIBANCO PN 31,97 -0,44 217,17M 321,97M 19.225 
 BBDC4 BRADESCO PN ED 32,05 -1,05 215,70M 261,59M 12.059 
 ABEV3 AMBEV S/A ON 15,76 +1,42 160,30M 159,47M 23.460 
 BBAS3 BRASIL ON 24,85 -1,31 146,84M 155,92M 20.467 
 AEDU3 ANHANGUERA ON 18,40 +1,10 134,82M 74,64M 5.888 
 ITSA4 ITAUSA PN 8,69 -0,11 113,71M 96,15M 28.671 
 CIEL3 CIELO ON 45,50 -1,09 105,10M 115,41M 8.793 
 PETR3 PETROBRAS ON 16,24 +1,18 100,27M 171,83M 10.886 

* - Lote de mil ações
1 - Em reais (K - Mil | M - Milhão | B - Bilhão) 

Como foi o semestre?
Os primeiros meses de 2014 deram a impressão ao investidor de que o ano anterior parecia não ter terminado na Bovespa. A intensificação do pessimismo com os indicadores macroeconômicos, sobretudo os dados inflacionários e de política fiscal, faziam com que o mercado seguisse o mergulho que levou o Ibovespa a fechar 2013 em queda de 15,5%. Com as contas públicas apresentando deterioração, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) se aproximando do teto da meta (alta de 6,5% ao ano) e a Selic se mostrando cada vez menos eficaz no controle dos preços, a aversão a riscos cresceu ainda mais no mercado de capitais brasileiro.

Neste cenário, o analista-chefe da Leme Investimentos João Pedro Brugger lembrou que o primeiro bimestre deste ano refletia também a expectativa de corte do rating soberano brasileiro por uma das grandes agências de classificação de risco – o que de fato ocorreu pouco tempo depois com a Standard & Poor’s – e as incertezas geradas antes de o governo definir suas metas para a política fiscal. “Apesar de não ter conseguido cumprir seu objetivo fiscal no ano passado, o mercado esperava por definições um pouco mais claras do governo”, explica.

Contribuindo para o aumento da onda de pessimismo, a troca de liderança no Federal Reserve fez com que o mercado levasse um tempo para compreender a forma “dovish” de pensar de Janet Yellen, ressalta Brugger. Os indícios de recuperação, por vezes em um ritmo interpretado como mais rápido do que o esperado, alimentaram ainda maior cautela dos investidores, que temiam uma retirada mais veloz do programa de estímulos dos Estados Unidos – o Quantitative Easing 3 (QE3) – e uma elevação na taxa de juros ainda em 2014. “O Banco Central americano e o mercado não estavam em sintonia no começo”, observa Brugger.

Juntamente com isso, os indicadores não muito positivos das principais economias emergentes provocou um receio ainda maior com as economias em desenvolvimento, fator que provocou um forte movimento de fuga no começo do ano e a consequente queda de diversas ações na Bovespa. Na tentativa de segurar os investimentos estrangeiros mantendo a atratividade de seus mercados, muitos países emergentes resolveram aumentar fortemente suas taxas de juros. Foi o caso da Turquia, na tentativa de convencer os investidores de seguirem investindo no país.

Nesse meio tempo, um dos principais termômetros das economias emergentes, a China, seguia alimentando dúvidas dos investidores sobre a capacidade do gigante asiático em atender às expectativas e seguir com taxas de crescimento robustas. Enquanto a maioria dos indicadores apontava para desaceleração, as preocupações do governo com reformas continuava a colocar os investidores na corda bamba sobre o futuro da segunda maior economia do mundo.

Na segunda metade do semestre, o que se viu foi um cenário completamente diverso, mesmo com alguns sinais preocupantes do exterior, como os conflitos na Ucrânia e as tensões no Iraque, que chegaram a trazer algumas turbulências ao mercado, mas nada que, até o momento, alterasse significativamente os rumos da Bovespa. A partir de abril, o início da divulgação de baterias de pesquisas eleitorais apontando a perda de fôlego da presidente Dilma Rousseff na corrida às urnas alimentou o otimismo dos investidores. “A esperança por mudança estimulou o mercado”, analisou o economista-chefe da Leme Investimentos. Nem mesmo o corte de rating já citado mudou o novo humor do mercado entre abril e a primeira metade de junho. “A queda de aprovação e intenção de votos de Dilma fez com que diversos ativos tivessem fortes ganhos. Dólar e juros futuros mostraram correção significativa para baixo, após as altas do começo do ano”, completou.

As últimas semanas de junho, porém mostraram um mercado mais comportado, com menor euforia eleitoral. A manutenção da posição de Dilma nas pesquisas, mesmo que com sua popularidade ainda sendo arranhada, não foi suficiente para animar os investidores de peso por mais apetite a riscos. Contribuem para a estabilidade do cenário a manutenção do baixo conhecimento do eleitorado sobre os candidatos da oposição. Segundo o último Ibope, cerca de 20% a 25% dos brasileiros não conhecem a fundo Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB). Nesta reta final, também vale destacar o “Efeito-Copa” na Bovespa, fator que levou o mercado nacional a uma grande perda de volume financeiro negociado em diversos dias, assim como pregões reduzidos em datas de apresentação da seleção brasileira.

Para o semestre que vem, Brugger espera muitas surpresas, com o acirramento da corrida eleitoral e as incertezas no mercado internacional. “É natural que entremos em momentos de mercado lateral à espera de novas divulgações. Internamente, não vamos ter novas surpresas do lado econômico, o que faz com que o mercado espera mais por fatores eleitorais”, explica.

Para ele, o momento de precificação do Ibovespa está no meio do caminho: com uma vitória da oposição, há espaço para novas altas, da mesma forma que a reeleição de Dilma pode influenciar um movimento de queda. “Não espero a volta aos 45 mil pontos como no começo do ano, porque havia um exagero naquele período. Uma vitória da oposição deve trazer ânimo ao índice, acima de 60 mil pontos, enquanto a vitória da situação deve empurrar o Ibovespa para a casa dos 50 mil”, aposta.

 

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