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Especialistas estudam potencial defensivo do setor de educação na crise

Hipótese predominante põe segmento como mais não-cíclico; empresas enfrentam prova para passar na crise financeira global

SÃO PAULO - Na crise financeira global, as carteiras recomendadas surgem recheadas de opções consideradas defensivas. Ou seja, ações pertencentes a segmentos blindados contra o cenário de desaceleração econômica, como o de alimentação. Novato na BM&F Bovespa, o setor de educação se enquadra nesta classe?

A dúvida não é um privilégio dos investidores, mas também dos especialistas. Consultados pela InfoMoney, analistas e profissionais do ramo revelaram falta de consenso sobre a posição cíclica ou não-cíclica dos grupos consolidadores da indústria brasileira de ensino superior privado.

No balanço geral acabou prevalecendo a hipótese de ser um setor mais defensivo. "A educação é defensiva nos EUA. No Brasil não é completamente, porque o grande crescimento do mercado de graduação vem da classe C da população, então pode ser que um recuo na renda disponível prejudique", interpreta Daniel Gewehr, analista do setor de educação do Santander.

Seria um meio termo. Há a demanda reprimida - um elevado potencial de jovens almejando o ingresso no ensino superior - de um lado e a questão econômica de outro. Será? Durante entrevista, o diretor-presidente do Grupo IUNI Educacional, Rodrigo Galindo, contou um evento que fortalece a percepção de blindagem do ramo educacional.

Efeito econômico
Fundado em 1988, o IUNI realizou seu processo de profissionalização entre 2003 e 2007 e virou consolidador em Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em 2004, houve o grande problema do agronegócio no estado de Mato Grosso, onde reside a principal unidade da companhia. O impacto desta crise na região talvez ultrapassa os danos das crises atuais, tanto de commodities como a financeira.

Desempenho em 2008
Empresa Código Preço (4/11) Variação
Anhanguera Educacional (AEDU11) R$ 15,65 -58,81%
Estácio Participações (ESTC3) R$ 14,70 -2,09%
Kroton Educacional (KROT11) R$ 8,91 -68,17%
SEB (SEBB11) R$ 7,00 -72,00%

"Analisando todos os números seja de demanda de entrantes, candidatos ao vestibular, evasão, receita líquida, não conseguimos identificar uma curva acentuada redutora dos nossos resultados em 2004 que faça uma ligação direta com a crise do agronegócio", apontou o executivo, que viveu a experiência.

Se ficou claro que o impacto não é direto entre a economia do estado e a atividade do IUNI há quatro anos, nos dias de hoje os analistas ainda não encontraram sinais evidenciando danos da turbulência financeira na educação. "Ainda não se sentiu desaceleração, não houve mudança no perfil de evasão nem do PDD (provisão para devedores duvidosos)", lembra Gewehr.

De qualquer forma, quantitativamente ainda é obscuro qualquer certeza. O volume de inscrições para vestibulares poderá indicar algum sinal. Para o analista do Santander, entre as empresas listadas, a Anhanguera Educacional estaria bem posicionada porque oferece o menor custo relativo do setor. A mensalidade média de suas instituições é de R$ 400.

Crédito
Outro canal de transmissão da crise financeira no Brasil é o aperto de liquidez. No entanto, segundo o diretor-presidente do IUNI, há pouca utilização de crédito universitário para os alunos do ensino superior privado. A maior seletividade dos bancos também não representa um inimigo para as estratégias pautadas em aquisições.

"Nosso projeto inicial do primeiro semestre de 2009 de R$ 58,5 milhões está disponibilizado com acesso a crédito por algumas instituições bancárias. O capital realmente ficou mais caro, mas ainda existe crédito disponível para bons projetos", analisa Rodrigo Galindo.

Na leitura de Daniel Gewehr, a maior restrição para financiamentos tende, inclusive, a favorecer as empresas capitalizadas, porque é esperada redução nos preços dos ativos disponíveis. "As companhias listadas na bolsa têm dinheiro em caixa da época do IPO (Oferta Pública Inicial de Ações) e os targets delas (instituições de ensino de menor porte) podem estar com problemas financeiros".

Para explicar a expressiva desvalorização das ações das empresas na BM&F Bovespa, um dos argumentos preferidos é a falta de liquidez, que tem penalizado os papéis de small caps. Para outros especialistas, somente depois da superação da crise será possível observar com nitidez quais ativos vão resgatar seu valor. E quais não vão.

 

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