Expert 2017

A otimista, o pessimista e o irônico: Zeina, Lisboa e Armínio em um debate sobre o Brasil

Os três economistas se reuniram na Expert 2017 para um debate espetacular sobre o País; confira os melhores momentos deste evento

SÃO PAULO – Os 4.500 espectadores presentes na última quinta-feira (22) na plenária principal da Expert 2017, evento promovido pela XP Investimentos, tiveram a honra de presenciar um debate extremamente enriquecedor sobre a situação econômica do Brasil – desde como chegamos à crise atual até os caminhos para tentarmos sair desse lamaçal. Nesta resenha, três participantes de peso: Armínio Fraga (ex-presidente do Banco Central), Marcos Lisboa (presidente do Insper) e Zeina Latif (economista-chefe da XP). A intermediação deste debate foi feita pelo jornalista William Waack, da Rede Globo. 

Apesar dos laços afetivos, o casal Zeina e Lisboa apresentaram visões bem distintas para o mesmo Brasil: ela, mais otimista com as chances de uma melhora na economia podendo ajudar a “melhorar o nível” do debate político ano que vem; ele, mais pessimista com o estágio “modo de sobrevivência” de Michel Temer, o que deve agravar a já tão preocupante situação fiscal brasileira. Já Armínio mostrou-se ironicamente pessimista: após destilar várias críticas, disse que normalmente costuma ser otimista, mas que durante este debate ele não conseguiu passar essa impressão.

Um tempero do que foi dito

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“Os estrangeiros estão mais animados do que nós. Parece que estão vendo que estamos condenados a dar certo” – Armínio Fraga

“Tenho dado um peso excessivo para o curto prazo porque acho que a forma que o Brasil chegar ano que vem pode mudar o rumo eleitoral” – Zeina Latif

“Esse foi sempre um governo de dois pra lá, dois pra cá” – Marcos Lisboa

“O medo que tenho é ficarmos condenados à mediocridade” – Zeina Latif

“Os impostos vão subir de qualquer jeito” – Armínio Fraga

Abaixo você confere a ordem cronológica do debate envolvendo Zeina, Lisboa e Armínio:

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Dando início ao debate, Zeina disse que conseguimos recentemente sair de um quadro que levaria o Brasil para o colapso, embora pondere que falar de crescimento agora seria muito precipitado. Na sequência, Lisboa lamentou a transformação da gestão Temer, que nasceu fazendo mais do que o esperado mas que agora parou. “Hoje a agenda de Temer está mais com a do governo anterior, buscando conceder favorecimentos em troca de garantir sua sobrevivência. Enquanto isso, a agenda importante não andou”, diz o economista e presidente do Insper. Ele complementou ainda dizendo que esse foi sempre um governo de “dois pra lá, dois pra cá”, e emendou: “é preocupante que no maior desemprego da nossa história a elite dos servidores fiscais tenha tido reajuste”. Quando a palavra foi passada para Armínio, ele reforçou que “nosso problema econômico é enorme e o governo está em trajetória insustentável” e criticou a decisão do STF a favor da chapa Dilma-Temer 

Voltando a palavra à Zeina, ela deu mais uma demonstração de otimismo ao dizer que a economia pode influenciar na política, e não o contrário como temos visto normalmente. “Tenho dado peso excessivo no curto prazo por acreditar que a forma como o Brasil estará economicamente ano que vem pode influenciar o rumo da eleição”. Novamente com uma visão mais oposta, Lisboa alerta para a grave situação fiscal do Brasil, que quanto mais demorar para resolver, pior ficará a situação – e com isso mais imprevisível fica o cenário para  as eleições de 2018. Já Armínio argumentou que hoje temos um governo que apresentou propostas para 5 a 10 anos quando não conseguimos enxergar 12 meses a frente. “O que temos hoje? Um Brasil velho, com todos os políticos querendo sobreviver e uma agenda de reformas complicada”, disse.

O ex-chefe do BC ainda brincou com a postura dos estrangeiros sobre o Brasil, que tem sido mais otimista que a nossa. “Acho que eles acreditam que nós estamos condenados a dar certo. Eu espero que eles estejam certos”, disse Armínio.

Com o poder da palavra à economista da XP, ela apontou um “ponto positivo” da crise brasileira: ela tem feito o brasileiro abandonar algumas crenças. “São movimentos lentos, mas vejo uma evolução no debate econômico”, diz Zeina. Embora não considere que o fracasso é o mais provável a acontecer no Brasil, ela revela: “o medo que tenho é ficarmos à mediocridade”.

Discordando mais uma vez com a esposa Zeina, Lisboa deixou bem claro por que prefere olhar para o longo prazo quando falamos de crise: “eu estou nem aí se os juros vão cair 75 ou 100 pontos-base na próxima reunião. A questão principal é que precisamos de um ajuste”. Exemplificando em números, o presidente do Insper disse que o Brasil precisa de R$ 350 bilhões por ano nos próximos dois anos para fechar as contas. “Se pararmos de gastar tudo que o governo gasta, tudo mesmo, economizaremos 120bi, ou seja, precisamos de 3 vezes esse valor”, conclui.

Armínio, por sua vez, alerta que as grandes mudanças que ele queria no Brasil ver são as políticas, o que é muito difícil na opinião dele. “Um Macron [presidente da França eleito este ano, com visões ] por aqui eu vejo como improvável, por isso eu acho que nossa recuperação demora um pouco mais. E como nossas contas continuam piorando, o calo começa a apertar”, disse ele. Para complementar, Armínio não apenas disse que “impostos vão subir de qualquer jeito” como também disse que alguns impostos precisam subir – ou subsídios que precisam deixar de existir.

Para Zeina, a ideia de um governo forte que decida onde serão alocados os recursos vem perdendo espaço. “Aquela defesa do Estado grande que víamos antes não tem mais apelo. Vejo CEOs de grandes empresas fazendo mea culpa por terem defendido agendas do passado e que hoje estão mal com isso. Existe um sentimento crescente entre os empresários de que é preciso ter uma outra agenda. Mas a questão central agora é: quem vai tocar essa agenda?”, questionou.

Lisboa emendou na sequência: “O setor privado é tão culpado por essa crise quanto o governo. O BNDES gastou bilhões de dólares, para que mesmo? O governo atendeu aos pedidos do privado, foi um verdadeiro Plano Marshall nas empresas brasileiras. Quanto mais a sociedade encarar isso de maneira passiva, pior. Vivemos isso nos anos 80 e não aprendemos nada?”

Armínio fez uma analogia a um paciente na UTI para explicar a gravidade com que vê a atual situação da economia brasileira: “[o país] terá que fazer um transplante, não vejo hoje como evitar isso”.

Lisboa reforçou que vê a reforma da Previdência apenas como solução para “a metade do problema e, se sair enfraquecida, a outra metade virá dois terços. Da outra metade não estamos nem tratando”. Para ele,  a parte fiscal está mais do que atrasada. “Eu colocaria direto o problema na mesa e veria com a sociedade como fazer. Essa agenda é muito urgente e vai enfrentar corporações. Agora tem uma segunda agenda que é longa e lenta e que precisa ter um norte claro, princípios claros.

A economista-chefe da XP Investimentos finalizou o debate frisando que o País vai ter que encontrar, em algum momento, um senso de urgência, principalmente se a reforma da Previdência não andar.