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Marfrig lucra R$ 1,4 bi em 2018 após 12 balanços no vermelho - graças ao "back to basics"

Empresa inicia 2019 novamente focada em bovinos após venda da Keystone; novidades podem animar investidores  

açougue Rio
(Tânia Rêgo/ABr)

SÃO PAULO – A Marfrig (MRFG3) divulgou nesta quarta-feira (27) os resultados financeiros referentes ao quarto trimestre de 2018 e ao consolidado do ano. É o primeiro balanço desde o terceiro trimestre de 2015 em que a empresa reporta lucro contábil – e isso tem tudo a ver com a estratégia de retorno às origens iniciada nos últimos meses.

De acordo com o relatório, a empresa teve R$ 2,2 bilhões de lucro líquido no trimestre, o que reverteu o prejuízo dos outros 9 meses do ano e resultou em um lucro líquido acumulado de R$ 1,4 bilhão em 2018.

Em agosto de 2018, a Marfrig fechou a venda da Keystone, unidade internacional de alimentos processados, para a Tyson Foods por US$ 2,4 bilhões.

De acordo com Eduardo Miron, CEO global da empresa, foi graças a essa venda que dívida caiu mais de 40% no período, o que fez com que a alavancagem da empresa atingisse 2,39 vezes – ante meta de 2,5 vezes. “Vendemos a empresa com um múltiplo de 10 vezes antes da crise do mercado de aves”, comemora o executivo em entrevista ao InfoMoney. “Agora, somos a empresa com menor alavancagem do setor”.

Back to basics

Mas a mudança é mais estratégica do que numérica. Este negócio, logo após a compra da National Beef Packing Company no primeiro semestre, marcou um passo essencial na transformação do grupo em uma operação totalmente focada na carne bovina. Não à toa, antes da venda da Keystone, a Marfrig tomou o cuidado de separar (e manter para si) a parte de hambúrgueres suínos, que agora está dentro da NBPC.

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Entre dezembro e fevereiro, a empresa fechou duas operações que reforçam o foco. Primeiro, a fábrica de hambúrgueres da BRF por R$ 100 milhões em Várzea Grande, no Mato Grosso. Depois, uma troca de frigoríficos com a Minerva por uma planta no mesmo complexo inicial por mais R$ 40 milhões. O impacto dessas duas operações será sentido apenas no balanço do primeiro trimestre deste ano, quando haverá a liquidação dos valores investidos.

Era o que faltava

Para Fernando Araújo, gestor da FCL Capital, a diluição do negócio principal (carne bovina) e uma alavancagem muito alta eram justamente os fatores que diluíam atratividade da ação da Marfrig na Bolsa. Não à toa, seus fundos de ações investem na concorrente Minerva.

Com a venda da Keystone e o retorno do negócio focado em um tipo de produto, ele vislumbra a possibilidade de a empresa diminuir essa dívida e retomar lucratividade – potencialmente oferecendo dividendos aos acionistas após alguns meses ou anos.

“Hoje, a ação está descontada na comparação com à concorrência porque existe essa desconfiança”, diz Araújo. “Se a empresa começar a ter consistência no lucro e na queda da alavancagem, é um novo cenário. Claro que não vai ser de uma hora para a outra [a eventual alta dos papéis], mas pode acontecer”, opina.

2019 promete

Para o ano que inicia, a perspectiva é positiva para o mercado doméstico, com esperança de retomada da economia – e do consumo de carne. Com 70% das operações nos Estados Unidos, a Marfrig se beneficia de momentos bons tanto nacionalmente quanto internacionalmente. Em ambos os países, o CEO vê probabilidade grande de manutenção de um bom ciclo do gado, o que significaria custos baixos para a empresa.

Mesmo uma eventual queda do dólar tem pouco impacto na empresa, de acordo com ele, já que, enquanto quase 90% das receitas da empresa são em dólar, praticamente 90% da dívida também está indexada à moeda norte-americana.

“Fechamos todas as operações em 2018 e estamos em um ‘fresh start’”, diz Miron. Todas as expectativas podem animar o investidor que busca empresas para o longo prazo [na Bolsa]”, diz o executivo.

E o BNDES?

Com 33,74% de participação na Marfrig, via BNDESPar, o BNDES pretende se desfazer dos papéis, conforme sinalizado pelo secretário de desestatização do governo Bolsonaro, Sallim Mattar. A venda de um volume como esse sempre tem potencial enorme de desvalorizar, mesmo que temporariamente, um papel.

Para Miron, é pouco provável que o BNDES, como investidor, tome uma decisão “irracional” sobre as ações da empresa. “Logicamente não podemos falar por eles, mas temos uma relação positiva de colaboração com o BNDES, eles têm dois assentos no nosso conselho”, diz. “Ele deve obedecer uma racionalidade, levando em conta a queda da alavancagem e as perspectivas para a empresa”, diz o CEO.

 

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