Em lupatech

Gestora explica por que Lupatech devia valer R$ 0,02 na Bolsa; ações caem 23%

Em entrevista ao InfoMoney, sócios da Ujay Capital dizem que alta de 100% das ações nos últimos dois pregões não é sustentável

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(Divulgação)

SÃO PAULO – A disparada de 100% das ações da Lupatech na última quarta-feira (23), logo após a companhia aprovar um aumento de capital bilionário, levaria qualquer investidor a classificar a notícia como positiva. Contudo, muita gente no mercado não só tem questionado a sustentabilidade dessa alta como ainda argumenta que a trajetória da ação deveria ser exatamente a oposta. Na verdade, os papéis da fabricante de equipamentos para a indústria de óleo e gás deveriam valer quase nada, dizem Diego Arruda e Antonio Bueno, sócios e gestores da Ujay Capital – asset que possui pouco mais de R$ 80 milhões em ativos sob gestão. Procurada, a Lupatech disse que não iria se pronunciar.

Em entrevista ao InfoMoney, os dois investidores consideram o aumento de capital como uma mera equalização da dívida, e não como a “solução mágica” dos problemas da Lupatech, que encontra-se em recuperação extrajudicial. A gestora diz que aumentou consideravelmente a posição “short” (ou “vendida”, quando você lucra com a queda da ação) que já carregavam desde o começo do ano por enxergar uma enorme distorção entre quanto a ação está valendo e quanto ela deveria valer.

“Trabalhamos internamente com um alvo de R$ 0,02 para LUPA3, cotação essa que dá a empresa o valor de mercado próximo ao que vinha sendo negociado antes da diluição de 97% decorrente do aumento de capital”, disse Antonio Bueno, que é o cogestor do fundo. Eles resumem a tese de investimento da Ujay da seguinte forma: “como essa imensa diluição foi a única forma de sanar uma dívida que seria impagável pelo atual porte da empresa – restando ainda uma dívida liquida de cerca de R$ 400 milhões – e como nenhum centavo deste aumento de capital entrará no caixa da empresa, não vemos uma mudança relevante nas perspectivas em termos de sua geração de resultado operacional e geração de valor para o acionista.”

As ações da Lupatech fecharam esta sexta-feira com queda de 22,81%, a R$ 0,44. Na mínima do dia, elas chegaram a cair 26,38%, quando bateram em R$ 0,42. Mesmo assim, os papéis ainda apresentam ganhos de 81% desde o pregão pré-aprovação do aumento de capital.

Aumento de capital: solução ou mais problemas?
Em recuperação extrajudicial, a Lupatech lançou aos seus credores um plano de reestruturação do seu endividamento em novembro do ano passado. Dentre as condições apresentadas aos debenturistas para que o plano fosse aceito e posteriormente homologado pela justiça brasileira e norte-americana, estava a possibilidade de uma emissão de ações, que seriam trocadas pelas debêntures destes credores. E tal emissão foi aprovada pelo conselho de administração da Lupatech na última terça-feira. Serão emitidas no mínimo 2,7 bilhões de ações LUPA3 e no máximo 5,28 bilhões, ao preço de R$ 0,25 cada – menos da metade do que ela valia no fechamento daquele dia (R$ 0,59). Pela quantidade de ações ofertadas ao preço estipulado, a oferta deverá ficar entre R$ 676 milhões e R$ 1,32 bilhão.

À primeira vista, a notícia parece boa, já que o principal problema da Lupatech está concentrado em seu enorme endividamento. A aceitação por parte dos credores é um bom sinal para indicar que a solução pode estar a caminho. Contudo, alguns “poréns” merecem ser observados: atualmente a Lupatech possui 157,6 milhões de ações na Bolsa; com a oferta concluída, ela terá entre 740% e 3.250% a mais de papéis. Para que o valor de mercado da empresa permaneça o mesmo após essa enxurrada de ações – atualmente ela vale R$ 89,8 milhões –, o preço da ação precisaria cair para próximo de R$ 0,02, explica Arruda e Bueno. Por isso mesmo, esse preço é tido como o “alvo” deles para a operação “short” com LUPA3.

Outro ponto lembrado pelos gestores da Ujay Capital é a possibilidade dos credores da Lupatech venderem as ações da companhia assim que a conversão das debêntures for concluída. A explicação está no que é chamado no mercado de “overhang” e é muito comum após ofertas de ações: com uma enorme quantidade de novos papéis na Bovespa, o lado da “oferta” ficará muito mais forte do que o lado da “demanda”; tendo mais gente disposta a vender a ação do que interessados em comprar, a tendência natural deste papel é de queda.

Arruda e Bueno argumentam ainda que no próprio comunicado enviado pela Lupatech fica explícito que toda essa quantia levantada no aumento de capital irá para os credores. “Ou seja, nem um real sequer entrará no caixa da empresa, que vive os últimos dois anos sem conseguir apresentar Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) positivo”, afirmam os gestores. “Apesar da solução encontrada, isso não terá em contrapartida um projeto que vai revolucionar a empresa. Não há o que comemorar com este aumento de capital, visto que ele é uma mera equalização da dívida”, complementam.

Por fim, a questão da diluição do capital: no dia 23 de julho as ações ficaram ex-subscrição, ou seja, quem comprou a partir desta data não terá sua participação diluída. Mas para aqueles que já tinham LUPA3 desde antes da aprovação do aumento de capital terá que participar da subscrição para permanecer com a mesma participação na empresa. E para aderir à oferta terá que desembolsar 3.350,2% do capital aplicado na companhia. Na prática: quem tiver R$ 1 mil em ações da Lupatech terá que gastar cerca de R$ 33,5 mil para ficar com a mesma porcentagem na base acionária. Os acionistas terão até 22 de agosto para exercício do direito de preferência.

Então, por que a ação subiu 100%?
Com tantos indicativos contrários à empresa, o que explica a reação positiva do mercado após o aumento de capital? Para os gestores da Ujay, o que explica isso é a própria desinformação dos investidores pessoa física – que é a principal base acionária da Lupatech – desencadeou essa euforia: por não terem entendido se o comunicado da companhia trazia boas ou más notícias, eles preferiram esperar como a ação iria reagir no pregão pós-aprovação. E o que vimos logo no primeiro negócio de quarta-feira foi uma reação explosiva, que se intensificou até o final do dia.

Logo no primeiro negócio de quarta-feira, a ação da Lupatech abriu cotada a R$ 0,30, uma valorização de 15% em relação ao pregão anterior; menos duas horas depois, ela já valia R$ 0,48, o que dava uma alta de 85%. Na última quinta-feira, o movimento continuou e as ações subiram 14%, para R$ 0,57 – maior patamar desde outubro do ano passado. Com esse duplo salto, o desempenho da companhia na Bolsa passou de queda de 13% para alta de 90,3% no ano. “Faltou informação para o principal grupo de acionistas da empresa, que são os investidores pessoa física. Era preciso uma informação mais clara para o investidor leigo”, explicam os gestores.

Ações "secaram" no BTC
Arruda e Bueno frisaram ainda a dificuldade em tomar as ações da Lupatech alugadas no mercado, o que inibiu a entrada dos “shorters”. Para operar vendido na Bovespa, o investidor precisa tomar a ação emprestada no mercado, pagando uma taxa ao locatário. Feito isso, ele vende a ação no mercado; caso a operação siga a tendência esperada (que seria a queda), ele compra esta ação na Bolsa e devolve ao locador. Neste tipo de operação, as duas pontas podem sair ganhando: o tomador da ação, que busca o lucro com a queda do preço, e o investidor que disponibiliza o papel, que ganha a taxa do aluguel.

“Embora tecnicamente a ação ainda mostre-se bastante confortável para operar na ponta vendedora, estando longe do limite estabelecido pela BM&FBovespa, o evento da última quarta-feira fez com que os papéis ‘secassem’ no BTC [órgão responsável por disponibilizar as ações a serem alugadas]”, explicam Arruda e Bueno. “Entramos em contato com mais de 10 corretoras e todas disseram que havia baixíssima liquidez de ações da Lupatech disponíveis para tomar emprestado”. A expectativa da dupla é de que isso se normalize no curto prazo, o que trará novamente uma pressão vendedora ao papel.

Segundo informações do site Dados da Bolsa, o aluguel de ações da companhia disparou 47,89% do dia 22 de julho (quando a empresa fez o comunicado ao mercado) até ontem, passando de 2.357.574 para 3.486.670 ações. No mesmo período, a taxa média cobrada para "tomar" o papel alugado triplicou, indo de 2,45% para 7,69% ao ano.

Lupatech responde - só para CVM
O plano de reestruturação da dívida da Lupatech foi aprovado em novembro de 2013 com apoio de 95% dos credores e foi bem encaminhado até o momento. Além disso, fontes afirmam que dois grandes bancos que estão entre os credores já se comprometeram a subscrever a parte das ações que não forem aproveitadas no aumento de capital.

Procurada pelo InfoMoney, a Lupatech disse que não irá comentar o caso e somente irá se pronunciar caso a CVM faça uma consulta oficial à empresa. E essa consulta aconteceu nesta sexta-feira: após consulta do órgão regulador, a Lupatech disse que "não tem conhecimento de qualquer evento ou fato relevante passível de divulgação que possa estar relacionado ou justifique as últimas oscilações registradas no preço de negociação das ações de sua emissão ou com o aumento do número de negócios e quantidade negociada dessas ações".

Ela ressalta, no entanto, a divulgação detalhada de todos os eventos relacionados ao processo de reestruturação do seu endividamento e estrutura de capital, além de dizer que vem prestando os devidos esclarecimentos quanto à mecânica do aumento de capital em curso. "A Lupatech reitera que manterá o mercado informado acerca de fatos concretos relacionados ao assunto".

 

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