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"As pessoas não entenderam o risco da TR", diz presidente da Caixa sobre financiamento

Em entrevista, Pedro Guimarães defende proposta de financiamento amplamente criticada pelos seus riscos

Um dos projetos mais ambiciosos da Caixa Econômica Federal para expandir o crédito imobiliário sofreu um bombardeio de críticas de diversas frentes, ao ser lançado esta semana. O banco federal anunciou que quem pega dinheiro emprestado para comprar a casa própria pode agora escolher entre dois indicadores para corrigir seu empréstimo: a já praticada Taxa Referencial (TR) e o índice de inflação IPCA.

Com a queda na inflação, num primeiro momento a nova alternativa seria mais atraente. Porém, disseram especialistas, num empréstimo de 20 anos, o aumento na dívida representaria um risco considerável. Para Pedro Guimarães, presidente da Caixa, a situação é outra: a TR representa um grande risco para o sistema de crédito brasileiro. Isso porque, enquanto os bancos emprestam usando o dinheiro da poupança, cujos recursos podem ser sacados a qualquer momento, os empréstimos imobiliários têm prazo de até 30 anos. Esse descasamento, diz, é um risco que "ninguém quer falar". A seguir, alguns trechos da entrevista exclusiva dada para o Estadão/Broadcast.

Usar o IPCA para corrigir o crédito imobiliário não é mais arriscado que a TR?

As pessoas ainda não entenderam qual o risco da TR. Emprestamos no Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) com recurso da poupança, que tem liquidez diária, e fazemos empréstimo imobiliário de 20, 25 anos, com duração de 12 a 15 anos. O risco é do sistema e ninguém quer falar. Há um risco gigante de o governo mudar a remuneração da poupança.

Se o IPCA é para incluir mais gente no sistema, não era mais fácil reduzir os juros da modalidade atual?

Ter o IPCA é importante para desenvolver o mercado de securitização (sistema que transforma dívidas em títulos negociáveis no mercado de capitais) no médio prazo. Nosso objetivo é reduzir risco e fomentar o mercado de capitais porque as fintechs e as plataformas de investimento não vão conseguir ter o nosso volume. A Caixa pode vender seus créditos no mercado e eles vendem para os clientes deles. Cria-se então um mercado secundário fundamental porque senão fica um domínio de três, quatro, cinco bancos. Esse mercado é a única maneira de desenvolver o crédito imobiliário no País.

Já não existe securitização?

Está engatinhando. Ninguém compra Letras de Crédito Imobiliário (LCI) de 10, 15 anos. A LCI com liquidez tem prazo de 1 a 2 anos no máximo. Também não se usa TR. É por isso que não há nem 10% de securitização da carteira. É muito pouco. Nos Estados Unidos, é 100%.

Mas o IPCA não aumenta o risco do subprime, que deu origem à crise imobiliária nos EUA?

Faltam 30 anos de securitização no Brasil para termos qualquer risco assim.

E o risco de a inflação subir no longo prazo e aumentar a dívida do mutuário?

É um erro assumirmos que a inflação vai subir e a TR ficar constante. Isso não existe. Tanto que em 1995, 1996 e 1997 a TR foi maior que o IPCA.

Mas, nos últimos anos, a TR ficou abaixo da média do IPCA...

Ficou, mas, por isso, nossas taxas são TR mais 8,5% a 9,75% ao ano e IPCA mais 2,95% a 4,95%. Ou seja, temos mais de 5,5 pontos porcentuais de diferença (para dar segurança ao mutuário). A inflação, na média, dificilmente vai ficar a 5,75%, se o Brasil der certo.

E se o Brasil não der certo?

Você acha que esse será o único problema? Imagina o tamanho da inadimplência em todas as carteiras? Aí entra o ganho de receita inflacionária porque todo o ativo vai render mais que o passivo como era na década de 90. Agora, claramente, não estamos imaginando inflação de 10%, 15% consistente. Tanto que nos últimos 20 anos, tivemos um ano ou dois de inflação de 10%.

Então, tem risco?

Tem risco. Por isso, que estamos fazendo com calma. Mas assumir que a TR não tem risco não existe.

O público da Caixa tem educação financeira para entender a diferença entre TR e IPCA?

As pessoas não entenderam muito porque o risco é uma inflação maior nos primeiros 5, 6 anos. Em dez anos, a pessoa já pagou a maior parte do principal. E reduzimos o prazo de financiamento na TR de 35 anos para 30 anos, que passa a valer apenas para a tabela SAC (prestações mais altas no início e menores no final) e 20 anos na Price (prestações iguais).

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Outra coisa fundamental, com TR, permitimos que até 30% da renda seja utilizada. No IPCA, é só 20%. Significa que tem mais espaço para um eventual soluço. Além disso, os clientes pagarão muito menos nos primeiros cinco, seis anos e vão poder gerar poupança com o que economizaram.

A baixa renda vai conseguir fazer isso?

O financiamento imobiliário com IPCA é sim para pessoas de menor renda. Se você olhar a simulação de R$ 150 mil, R$ 200 mil, entramos no Minha Casa Minha Vida. É uma discussão importante a ser feita porque temos taxas no IPCA menores que as do Minha Casa Minha Vida.

O risco da Caixa aumenta com o IPCA?

Vamos fazer 1% de impacto no nosso risco. Se eu perder 100% (dos empréstimos com IPCA) não é nada, mas fizemos matematicamente calculado. A Caixa é, de fato, o banco da matemática. Estamos testando novos produtos. Com o IPCA, poderemos reduzir nossa carteira via securitização e teremos recursos independentes em relação à poupança, que passará a não ser mais tão relevante para o crédito. Isso é fundamental. No médio prazo, os bancos não podem depender da poupança.

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As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

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