Em embraer

Por que a ação da Embraer despencou 14% se o acordo com a Boeing é uma boa notícia?

Apesar da queda forte desta sessão, analistas veem o acordo de forma positiva

Bombardier CRJ900
(Reuters)

SÃO PAULO - Após negociações que se arrastaram por seis meses, a Embraer (EMBR3) anunciou na manhã desta quinta-feira (5) o acordo com a Boeing. Pelo acordo, as duas empresas estabeleceram as premissas para a combinação de negócios no segmento de aviação comercial, enquanto as áreas de defesa e segurança e de jatos executivos ficaram de fora do acordo. Elas informaram, porém, que vão criar uma outra joint venture para a área de defesa, mas sem especificar os termos dessa parceria. 

Porém, o acordo tão esperado não foi bem recebido pelo mercado, que viu suas ações fecharem em queda de 14,29%, a R$ 23,10 nesta sessão, ou uma perda de R$ 2,85 bilhões de valor de mercado; na mínima do dia, os ativos chegaram a cair 16%.  O volume negociado também foi bastante expressivo, de R$ 531 milhões, ante uma média dos últimos 21 pregões de R$ 89,32 milhões. 

Mas o que levou a uma queda tão brusca dos papéis? Há alguns motivos apontados para isso, que vão desde a avaliação abaixo do esperado para os negócios da empresa, investidores embolsando os lucros recentes em meio à expectativa com o acordo e ainda as muitas dúvidas que o mercado tem sobre a transação. 

A avaliação do segmento é de aviação comercial da Embraer foi menor que a esperada - porém, o valor ainda representa um potencial de valorização em relação ao preço atual dos ativos da companhia, segundo o BTG Pactual. 

O novo negócio de aviação comercial é de US$ 4,75 bilhões e a operação compreenderá a criação de uma joint venture na qual a Embraer terá 20% e a Boeing 80%, que passará a desenvolver os negócios de aviação comercial atualmente desenvolvidos pela fabricante de aviões brasileira. Assim, pelo acordo, a Boeing propõe pagar US$ 3,8 bilhões à Embraer; nesse ponto, os analistas ainda ressaltam ser preciso  verificar quais são as implicações fiscais e como o pagamento irá ocorrer. Segundo o BTG, a maior parte do valor líquido deve ser distribuída como dividendo especial aos acionistas da Embraer. 

"O acordo é de um valor próximo da capitalização de mercado da Embraer ontem, de US$ 4,8 bilhões, implicando uma avaliação abaixo do mercado para os outros segmentos da Embraer, como a Aviação Executiva e Defesa", escreve o analista do Safra, Lucas Marquiori.

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Porém, mesmo com os valores sendo vistos como subavaliados, conforme aponta o analista-chefe da XP Investimentos, Karel Luketic, o negócio foi positivo. Como o ativo já tinha subido quase 15% na última semana em cima de notícias especulando sobre essa transação, o papel acabou fazendo o habitual movimento "sobe no boato, cai no fato". Vale ressaltar que, no ano, os papéis EMBR3 acumulam ganhos de 16%. 

Além disso, havia especulações de que poderia vir uma oferta acima disso. "Mas a leitura é estruturalmente positiva para a Embraer", destaca Luketic. 

Leia mais:
- Embraer e Boeing anunciam acordo para joint venture de US$ 4,75 bilhões 

Um gestor com exposição no papel também aponta que a queda nesta sessão pode ser uma oportunidade de compra, avaliando ainda que havia muitos investidores posicionados apenas para o evento. Ou seja, quando o negócio sai, o investidor também deixa o papel. 

Mas, olhando para para as sinergias esperadas, a perspectiva é por um acordo "ganha-ganha".

"[Com o acordo], a Boeing obtém acesso à experiente equipe de engenharia e capacidade de fabricação da Embraer de equipamentos de alto valor, o que pode aumentar a probabilidade de sucesso da Boeing com uma aeronave 'middle of the market'. Enquanto isso, o crescimento futuro da Embraer em aeronaves maiores foi restringido pela resposta competitiva agressiva da Boeing e da Airbus, limitando assim as oportunidades de crescimento. Uma parceria com a Boeing pode resolver isso", avaliam os analistas do Bank Of America Merrill Lynch.

Vale destacar que, após a Airbus comprar parte da Bombardier em 2017, uma nova consolidação no setor - desta vez pela iniciativa com a Boeing -, passou a ser apenas uma questão de tempo. Com o acordo fechado, a Boeing terá o controle da divisão mais lucrativa. Por outro lado, a Embraer terá maior competitividade em vendas e tecnologias.

Assim, se por um lado, ainda existem preocupações com operações que restaram, como Executivo e Defesa (segmentos com margens menores e menos previsíveis), por outro se vê que essa foi a saída encontrada para que a Embraer não perdesse as condições para seguir no mercado. Essa preocupação, aliás, passou a pautar a recomendação de venda de ações da companhia por alguns bancos desde o ano passado, em meio ao cenário de aumento de competição e rentabilidade. Com a Embraer ganhando a Boeing como sócia, as projeções para a brasileira apresentaram melhora. 

Assim, a Embraer cai no fato após subir no boato - mas as perspectivas são positivas para a companhia. Vale destacar que os papéis da Embraer estão na Carteira InfoMoney e o analista Thiago Salomão esteve ao vivo na IMTV para detalhar as recomendações para o portfólio de julho. Veja mais clicando aqui. 

Mais detalhes do acordo

A joint venture entre Embraer e Boeing, anunciada como um acordo não-vinculante, deve ser fechada até o final de 2019. Essa é a expectativa das companhias, em comunicado em conjunto, frisando que se as aprovações ocorrerem no tempo previsto, a conclusão se dará entre 12 a 18 meses após a execução dos acordos definitivos.

 Após os acordos definitivos, a parceria estará, então, sujeita a aprovações regulatórias e de acionistas, incluindo o governo brasileiro que detém uma ação especial (Golden share). A Boeing terá o controle operacional e de gestão da nova empresa formada com a Embraer no segmento de aviação comercial. 

A parceria deve ser contabilizada nos resultados por ação da Boeing no início de 2020, e a expectativa é de que gere sinergia anual de custos de cerca de US$ 150 milhões (antes de impostos) até o terceiro ano. A transação não terá impacto nas projeções financeiras da Boeing e da Embraer para 2018, "bem como na estratégia de implantação de capital e no compromisso da Boeing de retornar cerca de 100% do fluxo de caixa livre para os acionistas."

A Boeing considera que a nova sociedade se tornará um dos centros de excelência para o desenvolvimento de projetos, fabricação e manutenção de aeronaves comerciais de passageiros, e que ambas estarão aptas a oferecer uma linha "abrangente e complementar" de aeronaves de passageiros de 70 a mais de 450 assentos, além de aviões de carga. O comunicado lembra que são mais de 20 anos de colaboração entre Boeing e Embraer.

 

 

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