Tese de corte de juros nos EUA em março perde força após payroll acima do esperado

Além do dado de janeiro ter sido mais alto do que as projeções, houve revisão para cima dos meses anteriores; economistas afirmam que isso corrobora discurso do Fed e tende a jogar a estimativa para maio ou junho

Roberto de Lira

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A confirmação de que o mercado de trabalho dos Estados Unidos continua aquecido neste início de ano reduziu bastante a crença que ainda persistia em parte do mercado de que o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) poderia começar um ciclo de cortes nos juros em sua reunião de março.

O payroll, o relatório da folha de pagamentos que mostra a criação de vagas fora do setor agrícola, apontou para 353 mil novos empregos em janeiro, dado muito acima da medias das projeções, que apontava para 180 mil vagas. Além disso, os dados de novembro e dezembro foram revisados para cima, acrescentando 126 mil novas vagas às estatísticas.

O Morgan Stanley comenta em relatório que a ampla aceleração, que mostrou maior força em serviços profissionais e empresariais, varejo e saúde, elevou a média trimestral de 227 mil para 289 mil na comparação de dezembro com janeiro.

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Além disso, os salários também mostraram uma reaceleração, impulsionada pelo emprego nos serviços, e a participação na força de trabalho manteve-se praticamente inalterada. “Em suma, um mercado de trabalho forte que dá poucos sinais de abrandamento. Os dados de hoje reafirmam a nossa opinião de que a Fed ficará em espera até junho, altura em que se espera que comecem os cortes”, diz o banco de investimentos em seu relatório.

O banco comenta ainda que o relatório sobre o emprego é mais uma prova de que o mercado de trabalho continua apertado e, por isso, o foco continua na inflação. E que todas medidas acompanhadas pelo Morgan Stanley devem mostrar o núcleo da inflação bem acima de 2% no primeiro trimestre de 2024.

Claudia Rodrigues, economista do C6 Bank, concorda que o mercado de trabalho aquecido, a inflação subjacente persistente e a comunicação recente do presidente do Fed, Jerome Powell (que citou a necessidade de reunir mais evidências de que a inflação estaria convergindo para a meta para começar a flexibilizar a política monetária), corroboram com sua a visão de que o ciclo de corte de juros nos EUA deve começar apenas no terceiro trimestre deste ano.

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“No entanto, reconhecemos que existem chances de um corte no segundo trimestre caso o núcleo da inflação, medido pelo PCE, surpreenda nas próximas divulgações e venha abaixo do esperado”, pondera.

O raciocínio é semelhante ao de Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimento. “Foi um payroll bem forte, com uma revisão também forte dos dados de dezembro e que tira muita força do argumento de que existe uma chance de cortes de juros em março”, comenta.

Ele cita os dados da plataforma da CME que acompanha as projeções de juros, que recuaram para uma probabilidade de apenas 21% de cortes em março após a divulgação do payroll.

Além do dado principal muito forte, o economista destaca que, na abertura do indicador, é possível ver que a geração de empregos foi forte na faixa etária dos 16 aos 19 anos, algo que só aconteceu recentemente quando havia escassez de mão de obra.

Sobre o crescimento de salários, de 4,5%, ele lembra que esse patamar se distancia dos 3% que Powell disse que gostaria de ver para entender que não está havendo pressões na inflação. “Na minha visão, tira totalmente a chance de queda de juros em março. E com uma pulga na orelha se eles não podem demorar até junho.”