Qual será a “cara” do PIB em 2024?

Especialistas preveem contribuição menor do Agronegócio, mas dizem que juros em queda podem ajudar nos investimentos

Roberto de Lira

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É consenso entre os economistas que a economia brasileira deve perder um pouco de velocidade no ano que vem quando o avanço do PIB é comparado com o de 2023. As projeções para este ano estão em torno de 3%, enquanto a mediana das estimativas em 2024 fica ao redor de 1,5%. Isso está muito relacionado à “fotografia” do produto interno pensada para o ano que vem.

Os especialistas veem mais homogeneidade, com o setor agrícola perdendo intensidade e condições mais desafiadoras para o consumo das famílias, mas enxergam alguns ganhos na atividade produtiva e nos investimentos vindos do atual ciclo de redução de juros.

A primeira e mais óbvia constatação é que a Agropecuária não crescerá tanto no ano que vem como aconteceu neste ano. Mas isso seria difícil após o avanço de 22,9% do 1º trimestre e de 20,9% no segundo trimestre na comparação com os mesmos períodos do ano anterior, segundo dados do IBGE.

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Carlos Kawall, fundador da gestora Oriz Partners, reconhece que o setor continuará a exercer um papel muito importante do ponto de vista da geração de renda em sua própria cadeia, mas estima que o Agronegócio terá, certamente, um impacto de um crescimento menor no ano de 2024.

A opinião é parecida com a de Ricardo Aragon, sócio-fundador da Matriz Capital. “Devemos ter um desempenho mais tímido do Agronegócio, principalmente no que concerne às exportações para a China, uma vez que essa economia permanece desacelerando”, sublinha.

É a mesma avaliação de Leonardo Costa, economista da ASA Investments. “De fato, o Agro foi um dos grandes propulsores do crescimento em 2023, mas não devemos contar com a potência desse segmento em 2024”, afirma.

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Mas ele destaca que, por outro lado, a redução de juros deve dar fôlego ao consumo doméstico e aos investimentos, ajudando a sustentar o PIB aquecido, a despeito da desaceleração esperada na comparação anual.

Efeito dos juros

Kawall, que foi secretário do Tesouro Nacional, também avalia que as expectativas são melhores para atividades mais sensíveis à política monetária, especialmente no canal do crédito. “Com a continuidade da queda da Selic, há uma descompressão no crédito e no endividamento. Isso é um vetor que parece ser o que vai dinamizar a economia ao longo de 2024”, afirma.

O desenho é parecido com as estimativas de Thiago Xavier, economista sênior da Tendências Consultoria. “A gente vê os setores mais sensíveis à política monetária tendo ganho na atividade em 2024”, concorda.

Ele dá como exemplo o desempenho da indústria de transformação em 2023, que deve fechar com uma queda na casa de 0,8%, mas com espaço para um crescimento no ano que vem, uma vez que alguns setores respondem mais ciclicamente às variações da Selic.

“Começa de forma mais significativa o efeito dos juros, que pega a parte mais cíclica da indústria. Tem uma parte que está começando a ver um ambiente de menor nível de incertezas e isso afeta a decisão de algum grau de investimento nos setores mais aquecidos”, explica.

No entanto, ele acredita que a atividade de serviços tende a desacelerar, já que boa parte do consumo das famílias crescerá menos, com o mercado de trabalho começando a dar sinais de perda de força.

Mas ele pondera que uma outra parte dos serviços, como a administração pública e os aluguéis, ainda tem espaço para crescer um pouco em 2024. “Tem fatores atuando em direções um pouco contrárias: famílias, restaurantes, bares e hotéis estão crescendo a uma taxa menor. Serviços públicos, na nossa opinião, conseguem crescer a uma taxa que ajuda. Então, os serviços perdem força: saem de uma projeção de 1,9% e vão para 1,5%. Porque tem fatores ajudando a dar algum suporte”, reafirma.

Já para os investimentos, que ainda patinaram em 2023, o economista da Tendência diz que será possível observar os primeiros sinais de aquecimento, ainda que gradual, “uma parte disso pela própria indústria de transformação, que passa a contribuir positivamente”.

Outra atividade que seguirá dando sinais é a extrativa, em especial a do petróleo, segundo Kawall, da Oriz. “A gente continua com uma quadro bastante exuberante no petróleo. O setor de extração e produção tem crescido a taxas mais robustas. Nesse sentido, é um pouco do quadro mais benigno”, cita.

Perda de ímpeto

O diagnóstico de André Nunes de Nunes, economista-chefe do Sicredi é que os drivers para o crescimento da economia em 2024 devem permanecer os mesmos de 2023, apenas com diferenças de intensidade menor, daí as projeções de crescimento próximo de 1,5%.

“O setor de commodities, a indústria extrativa e a agropecuária, devem apresentar crescimento, mas num ritmo menor do que em 2023. O mesmo acontece para o consumo: projetamos um avanço, mas com menor ímpeto”, estima.

Ele destaca que o mercado de trabalho que deve permanecer aquecido, com projeção de um aumento apenas marginal na taxa de desemprego, o que ajudará no processo de desalavancagem das famílias. “Dessa forma, a taxa de juros mais baixa deve produzir maiores impactos no segundo semestre, contribuindo principalmente para aqueles setores mais dependentes do crédito, como veículos, linha branca e construção.”

Já Marco Antonio Caruso, economista chefe do PicPay, diz ver três fatores agindo em 2024 para desacelerar a economia. A primeira parte é mais cíclica, ligada aos juros. Ele lembra que, mesmo com os cortes da Selic, a política monetária ainda estará no campo contracionista na maior parte do ano.

O segundo fator é  não-cíclico, com a safra menor e expectativas de preços de commodities em patamares mais baixos, o que  também dá segurada na atividade. “E tem um terceiro vento contrário, que vem do lado externo, com essa mudança de regime macro global de menos juros e menos PIB.”