Covid-19

Preocupação sobre AstraZeneca complica campanha global de vacinação

Avaliações de reguladores do Reino Unido e da União Europeia identificaram possíveis vínculos entre efeitos colaterais atípicos e a vacina

Frasco e seringa em frente ao logo da AstraZeneca em foto de ilustração 11/01/2021 REUTERS/Dado Ruvic
Frasco e seringa em frente ao logo da AstraZeneca em foto de ilustração (REUTERS/Dado Ruvic)

A crescente preocupação de que a vacina da AstraZeneca causa raros coágulos sanguíneos pode dificultar as campanhas de imunização ao redor do mundo.

Avaliações de reguladores do Reino Unido e da União Europeia identificaram possíveis vínculos entre efeitos colaterais atípicos e a vacina, o que representa outro golpe para o imunizante mais barato e fácil de aplicar com o qual muitos países estão contando para acabar com a pandemia.

As preocupações com a segurança podem abalar a confiança na vacina, embora reguladores reiterem que os benefícios superam os riscos. Muitas regiões voltam sua atenção para vacinas da Johnson & Johnson e de desenvolvedores na China, Rússia e outros países, mas ainda estão em posição difícil, pois a demanda por doses ultrapassa em muito a oferta.

“Melhor a Astra do que nada”, disse Michael Kinch, especialista em desenvolvimento de medicamentos e vice-reitor associado da Universidade de Washington, em St. Louis. “Em um país subvacinado, acho que você não tem escolha a não ser tomá-lo.”

O escrutínio da vacina, desenvolvida pela Astra e Universidade de Oxford, tem sido particularmente intenso na Europa, onde o ceticismo sobre o imunizante já era grande em países como França e Polônia. Na quarta-feira, o Reino Unido recomendou que pessoas com menos de 30 anos devem ter alternativas, e países da UE também impuseram restrições de idade.

Muito em jogo

Governos e reguladores fora da Europa também acompanham o assunto de perto e, em alguns casos, entraram em ação. Há muito em jogo, pois a vacina da Astra responde por quase 25% do total de contratos de fornecimento assinados para 2021, de acordo com a Airfinity, uma empresa de pesquisa de Londres.

A Covax, iniciativa criada para nivelar o acesso global com apoio de grupos como a Organização Mundial da Saúde, é altamente dependente do imunizante da Astra. As vacinas da Pfizer e da Moderna são mais caras e mais difíceis de armazenar. A Covax também depende muito do Serum Institute of India para o fornecimento, mas o governo indiano disse no mês passado que reduzirá as exportações para se concentrar em suas necessidades domésticas.

O maior dilema para países de baixa renda é que não estão recebendo a quantidade de vacinas de que precisam, disse Birger Forsberg, professor associado de saúde internacional do Karolinska Institutet, em Estocolmo. “Quando isso vai mudar?”, perguntou.

Mesmo antes dos resultados das últimas análises na Europa, a Coreia do Sul havia suspendido temporariamente a vacinação com doses da Astra para pessoas com menos de 60 anos. Agora, o governo das Filipinas decidiu adotar restrições de idade semelhantes.

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Reguladores acreditam que a vacina é segura e eficaz e optaram por deixar que os países tomem suas próprias decisões, de acordo com Anthony Harnden, vice-presidente do Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização do Reino Unido. Para muitos, não existem muitas alternativas.

Países da África, como Namíbia, Costa do Marfim e Senegal, disseram que seguirão com os planos de administrar as doses assim que chegarem, apontando comentários de reguladores e da OMS em apoio à vacina. Camarões chegou a suspender anteriormente a vacinação com doses da Astra.

“Para a Namíbia, isso não muda nada”, disse o ministro da Saúde, Kalumbi Shangula. “Não foi demonstrado de forma conclusiva em ambientes clínicos. Ainda planejamos administrar a vacina quando a recebermos.”

Provável vínculo

A Astra disse que está estudando os casos individuais para entender a “epidemiologia e os possíveis mecanismos que poderiam explicar esses eventos extremamente raros”. Também trabalha com reguladores sobre a solicitação de novos rótulos para as vacinas.

Autoridades de saúde do Reino Unido descreveram a síndrome de coagulação como semelhante a um efeito colateral raro do tratamento com heparina, um anticoagulante, no qual o organismo forma anticorpos contra as plaquetas. Como ou por que a vacina pode estar envolvida em tal processo ainda está sob investigação.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês) disse que coágulos sanguíneos atípicos com baixas plaquetas devem ser listados como efeitos colaterais muito raros, embora a reguladora não tenha publicado nenhuma orientação sobre idade.

A análise da EMA foi baseada em uma revisão de 86 ocorrências relatadas até 22 de março, incluindo 18 mortes. Cerca de 25 milhões de pessoas haviam tomado a vacina da Astra no Reino Unido e na Europa até aquele período. Até 4 de abril, havia 222 casos relatados desse tipo de coagulação em cerca de 34 milhões de pessoas, disse a agência.

Primeira dose

Até agora, a maioria dos casos ocorreu em mulheres com menos de 60 anos no prazo de duas semanas a partir da vacinação. Os eventos geralmente ocorreram após a primeira dose.

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Muitos países têm populações significativamente mais jovens do que a Europa, o que pode significar um risco maior de coagulação, mesmo que continue muito raro. Por enquanto, não está claro como os dados serão interpretados globalmente, especialmente em países em desenvolvimento que contavam com o uso em massa do imunizante.

“Acredito que os dados epidemiológicos mostram que a infecção natural é muito pior do que a gravidade dos efeitos colaterais da vacina”, disse Kinch, da Universidade de Washington.

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