Queda de 4,1% no ano passado

PIB tem surpresa positiva em 2020 mesmo com forte queda – mas desafios para 2021 serão grandes

Dificuldade em implementar a vacinação em massa e menor impulso do auxílio emergencial devem ser contornados para País crescer além do carrego estatístico

(Getty Images)

SÃO PAULO – O crescimento de 3,2% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no quarto trimestre de 2020 na comparação com o trimestre anterior foi considerado positivo pelos economistas, reduzindo a queda acumulada do ano para 4,1%.

No entanto, a visão predominante é de que os desafios para 2021 são maiores do que os atuais, principalmente por conta das incertezas a respeito da vacinação em massa da população e dos temores acerca da responsabilidade fiscal do governo.

Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Research, lembra que o Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a prever uma retração de 9,1% para a economia brasileira em 2020 no auge da crise. “O que fez a diferença foi o auxílio emergencial e as políticas que o Banco Central tomou para impulsionar o crédito”, defende.

Agora, em 2021, Marília entende que é importante monitorar se o governo vai insistir em medidas expansionistas sem contrapartidas para equalizar o quadro fiscal, pois isso tornaria a atividade econômica mais fraca, e não mais forte como no ano passado.

“É preciso tomar muito cuidado com estímulo fiscal a partir de agora. Dinheiro nas mãos das pessoas é importante, mas se o governo não mostrar rigidez e responsabilidade nos gastos a quebra de confiança pode trazer impactos muito negativos em termos de investimento das empresas”, argumenta.

Para a XP Investimentos, embora positivos, os números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (3) dizem pouco sobre 2021. “Diferentemente do segundo semestre do ano passado, a renda total do consumidor está diminuindo agora, e a dinâmica da Covid-19 piorou substancialmente. Além disso, a volatilidade do mercado financeiro aumentou, com efeitos negativos nas condições financeiras”, escrevem os economistas Caio Megale e Lisandra Barbero.

A visão exposta por Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs, em relatório, é parecida. Ele diz que a recuperação em “V” da economia brasileira no segundo semestre de 2020 ofuscou parcialmente a contração de mais de 9% na atividade no segundo trimestre e foi impulsionada pelo relaxamento de medidas de distanciamento social e por medidas de estímulo fiscal, notadamente o auxílio emergencial.

Ramos destaca na abertura dos dados do PIB, a expansão de 5,8% na demanda doméstica final graças ao avanço no consumo das famílias e do crescimento de 20% nos investimentos na comparação trimestral.

A expectativa do economista e de sua equipe é de que a recuperação continue em 2021 a partir do segundo semestre, principalmente no setor de serviços. Porém, esse cenário depende do sucesso dos programas de vacinação contra o coronavírus para se concretizar.

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“Com a recente deterioração do cenário da Covid-19, a inflação em alta (especialmente em alimentos), queda nos indicadores de confiança, um mercado de trabalho fraco e a redução no crescimento da renda esperada como consequência do fim do auxílio emergencial, o ritmo da retomada nos próximos meses deve se enfraquecer”, avalia o economista do Goldman.

Segundo João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos, o Brasil vive hoje uma situação bem distinta da que existia no final do ano passado. “O recrudescimento da pandemia deve levar a novas medidas de distanciamento social. Ao mesmo tempo, o auxílio emergencial foi retirado, então não temos mais impulso fiscal no início deste ano”, avalia.

Vacinação e política monetária

Para Leal, a inflação dos alimentos é um fator muito importante a ser monitorado quando olhamos para o desempenho da economia daqui para frente. “Vivemos um período de alta principalmente no setor de alimentos, o que afeta as pessoas de renda mais baixa, e prejudica o consumo de outros bens.”

Nesse sentido, ele entende que a atuação do BC será muito importante. A Rio Bravo prevê que a Selic será elevada em 0,25 ponto percentual em março e depois mais uma de 0,5 ponto percentual em junho, levando a taxa básica de juros a 2,75% ao ano.

Embora não acredite que a política monetária seja o determinante para o Brasil crescer ou não em 2021, o economista ressalta que será um impulso a menos para o consumo.

Para Marília Fontes, esse aumento na inflação está muito ligado à depreciação do real, que já bate na casa dos R$ 5,75 de acordo com a cotação das 14h52 (horário de Brasília) desta quarta. “A desvalorização cambial de 2020 impactou muito os preços, de modo que o [Índice Geral de Preços – Mercado] IGP-M subiu 30% enquanto o [Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo] IPCA avançou 4,5%.”

A analista da Nord acredita que se não fosse o fator câmbio pressionando a inflação o BC poderia subir juros só no segundo semestre, mas terá que agir mais cedo para que o aumento geral de preços não saia do controle.

O essencial, os economistas concordam, é que uma proporção relevante da população brasileira seja vacinada este ano. Conforme Camila Abdelmalack, economista da Veedha Investimentos, o resultado do PIB brasileiro no quarto trimestre mostrou o quanto foi importante o processo de reabertura da economia que, diante dessa segunda onda da pandemia, só deve voltar a acontecer quando as pessoas estiverem imunizadas.

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“Esse aumento do contágio pelo coronavírus deve resultar em um primeiro trimestre ruim, marcado por novas medidas restritivas, o que penalizará o setor de serviços”, comenta.

Camila entende que as projeções dos economistas para o crescimento da economia em 2021 devem ser revisadas para baixo se o cronograma de vacinação não for acelerado. “Uma nova rodada de auxílio não vai ser a solução para todos os problemas da economia, já que o grupo contemplado é menor e o montante a ser distribuído também”, alerta.

O auxílio emergencial, lembra João Leal, era de R$ 600 mensais em 2020 e, se for aprovada a proposta do governo para este ano, o montante será reduzido para R$ 250 mensais, o que se reflete em um impulso muito menor para a economia.

Além disso, a projeção é de que esta nova rodada atinja pouco mais de 40 milhões de pessoas, ante mais de 60 milhões que foram beneficiados no ano passado.

Levando isso em consideração, a Rio Bravo espera que o PIB brasileiro sofra uma retração de 0,5% no primeiro trimestre de 2021, fique estável no segundo trimestre e encerre o ano com um crescimento de 3,2% muito influenciado pelo carregamento estatístico, ou uma espécie de impulso sempre deixado de herança do último trimestre de um ano para o ano seguinte. “O carrego de simplesmente manter a atividade econômica do quarto trimestre está em 3,5%, então na prática esperamos uma desaceleração na atividade.”

A XP também espera ligeira queda no PIB no primeiro trimestre, de 0,1%, e projeta um crescimento de 3,4% no ano graças ao carrego estatístico.

Mais otimistas, os economistas do Morgan Stanley, Thiago Machado e Fernando Sedano, esperam que a combinação de população jovem com logística forte para vacinação no Brasil impulsionem a recuperação, especialmente no terceiro trimestre de 2021.

“Projetamos que a economia brasileira crescerá 4,3% este ano”, concluem os economistas do banco americano.

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