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PIB desaponta expectativas, mas avanço da indústria e da poupança animam economistas para o futuro

Dados fortalecem as expectativas de avanço do consumo principalmente em 2021, mas continuidade do crescimento depende de reformas

(Getty Images)

SÃO PAULO – O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no terceiro trimestre de 2020 cresceu 7,7%, o maior avanço da série histórica iniciada em 1996, mas frustrou a maioria das projeções de mercado. A mediana das expectativas dos economistas compilada pela Refinitiv apontava para avanço de 9%, enquanto a mediana do consenso Bloomberg estava em 8,7%. E, no entanto, o resultado não foi mal recebido.

De acordo com a equipe de análise do Credit Suisse, as revisões realizadas para o PIB de 2019 e para o segundo trimestre de 2020 mais que compensaram o número abaixo do esperado.

Houve um reajuste de 0,27 ponto percentual no dado do ano passado, que agora representa uma expansão de 1,41% (ante 1,1% originalmente) sobre 2018. Já o segundo trimestre saiu de uma contração de 11,4% para uma de 10,9%.

A análise é ecoada pelos economistas do Bank of America, que projetam contração de 4,1% no PIB em 2020 já considerando uma desaceleração da recuperação no quarto trimestre, uma vez que o mercado de trabalho continua enfraquecido e os programas de auxílio emergencial foram reduzidos.

Em relatório assinado pelo economista Alberto Ramos, o Goldman Sachs ressalta que com as revisões o nível do PIB brasileiro no segundo trimestre de 2020 estava 1,36% maior do que originalmente havia sido reportado.

Ramos acredita que o gradual relaxamento das medidas de isolamento social foi o grande responsável pelo incremento na atividade econômica junto com a contribuição expressiva das exportações líquidas (exportações menos importações), o impulso via incentivos fiscais, os programas sociais e o relaxamento monetário e de crédito.

Para Ricardo Jacomassi, economista-chefe da TCP Partners, há pontos bastante positivos no resultado da economia brasileira no terceiro trimestre de 2020 que compensam essa frustração de grande parte do mercado com o número cheio.

“A recuperação de 11% no investimento foi muito boa, assim como a taxa de poupança de 17,3%. A análise de todos os dados nos permite acreditar em um crescimento de mais de 3% no PIB em 2021 desde que o governo retome a agenda de reformas”, avalia.

Os economistas do Credit Suisse esperam que o aumento na poupança de 15,7% do PIB no segundo trimestre para 17,3% no terceiro reforça um cenário mais favorável para o consumo no ano que vem, com a possibilidade do auxílio emergencial acabar e uma recuperação gradual do mercado de trabalho.

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Neste ano, Jacomassi se diz mais pessimista que a média do mercado e enxerga uma queda de 5% no PIB em relação ao ano anterior. No Relatório Focus do Banco Central desta semana a previsão mediana para o PIB de 2020 era de uma retração de 4,5%.

Pela ótica da oferta, a indústria teve o melhor desempenho entre os setores, crescendo 14,8%, enquanto serviços avançaram 6,3% e o agronegócio recuou 0,5%.

Jacomassi lembra que o terceiro trimestre costuma ser mais fraco para o agronegócio por conta do início do ano safra, mas que a retração foi inesperada e pode demonstrar um impacto do coronavírus no setor mais do que o projetado.

Já o Credit Suisse ressalta a importância do crescimento de 23,7% na indústria de transformação, de 15,9% no comércio e de 12,5% nos transportes no terceiro trimestre em relação com o trimestre anterior. “A indústria está mostrando uma recuperação mais robusta que os serviços, já que os últimos ainda estão muito afetados pelo distanciamento social no País.”

De acordo com os analistas da Levante Ideias de Investimento, à primeira vista o resultado do PIB foi ruim, mas é possível encontrar notícias positivas. “Cresceram os setores de gestão de resíduos, que avançou 8,5%, e de construção, que cresceu 5,6%. Ou seja, o barulho e a poeira dos tapumes que se espalham pelas ruas já apareceram nas contas nacionais”, explicam.

A equipe de análise do Bradesco BBI, por sua vez, destacou que na ótica da demanda o consumo das famílias foi o motor do crescimento da economia. “O consumo das famílias avançou 7,6% (depois de uma queda de 11,3%) e o gasto do governo se expandiu em 3,5% (após se contrair em 7,7% no 2º tri)”, ressaltam.

O setor externo, por outro lado, acabou se saindo bem mais porque o dólar mais elevado prejudicou as importações e conteve parte da fraqueza nas exportações do que por qualquer outro motivo. As exportações líquidas responderam por 0,97 ponto percentual no PIB do terceiro trimestre.

“No terceiro trimestre de 2020 a economia teve uma rápida recuperação da crise do coronavírus, que pesou nos dados do segundo trimestre. Embora a maioria das retomadas ainda seja parcial, os números até agora reforçam a continuidade de dados majoritariamente positivos para a atividade econômica no curto prazo.”

Futuro depende de reformas

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O Bradesco revisou sua projeção para o PIB em 2020 de um recuo de 4,9% para uma queda de 4,5% com crescimento de 1,5% esperado para o quarto trimestre.

Já o Itaú BBA espera que o PIB do quarto trimestre cresça 2,9% e mantém projeção de queda de 4,1% na economia brasileira em 2020. “Para o próximo ano, projetamos crescimento de 4,0% do PIB. O setor de serviços (ainda em níveis substancialmente baixos) provavelmente ganhará força no próximo ano, especialmente quando a epidemia desacelerar mais claramente e o Brasil começar a vacinação.”

Romero Oliveira, especialista em renda variável da Valor Investimentos, recomenda cautela apesar dos vários sinais positivos. Ele lembra que a economia voltou a níveis de 2017 e o principal causador da melhora no trimestre foi o auxílio emergencial, que ajudou especialmente o varejo.

Para Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, não havia dúvida de que teríamos um trimestre de recuperação por causa da base fraca de comparação deixada pelo segundo trimestre. “O PIB é uma fotografia do passado e agora ficamos na dúvida sobre a manutenção de uma velocidade razoável para a recuperação econômica.”

Camila concorda com Jacomassi e afirma que seria importante uma sinalização do governo de que irá tomar medidas para estabilizar o crescimento da dívida em relação para não desancorar inflação e juros, algo que causaria uma desorganização no cenário doméstico.

“Isso é importante para a economia brasileira continue a crescer no primeiro semestre de 2021 sem dependermos de medidas assistencialistas diante da falta de espaço que temos para fazer política fiscal no próximo ano”, conclui a economista.

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