Para analistas, Copom indicou que pode manter Selic em 13,75% por um período mais longo que o esperado

Deterioração das expectativas de inflação por incerteza fiscal e o risco de elevação do custo da desinflação foram as mensagens

Roberto de Lira

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A recente deterioração das expectativas de inflação, o risco de elevação do custo da desinflação e o reforço das preocupações com o cenário fiscal na mudança do governo foram os destaques do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) para justificar sua decisão de política monetária nesta quarta-feira (1), na avaliação de analistas. Desta vez, o BC incluiu até um cenário alternativo em seus comentários, de manutenção da Selic em 13,75% para mais tempo.

Andrea Damico, sócia e economista-chefe da Armor Capital, destacou que o Copom fez uma ligeira modificação no trecho que que cita a possibilidade de manter a taxa, trocando o “período suficientemente prolongado” por “período mais prolongado” como estratégia para assegurar a convergência da inflação à meta. “É uma mensagem de juro parado por bastante tempo, mais do que está no (Boletim) Focus”, afirmou em live do InfoMoney.

Ou seja, uma taxa de 12,5% ao final de 2023, não é o plano de voo da Copom poque ele vai precisar de mais juros para entregar a inflação na meta, disse Andrea.

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Também na live, Anna Reis, sócia e economista-chefe da Gap Asset, comentou outro trecho importante do comunicado, que trouxe uma projeção de inflação para 2024 de 3,4%, caso se mantenham as condições atuais. A projeção anterior era de 3%.

Segundo o BC, para chegar a uma taxa de 2,8% ao final de 2024, é traçado um cenário alternativo com a Selic nos atuais 13,75% “ao longo de todo o horizonte relevante”. “A mensagem é que a trajetória do Focus é inadequada: ‘Economistas, posterguem suas projeções de corte, estou vendo os cortes um pouco mais tarde’”, disse Ana Reis.

Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset, concorda que a mensagem foi bem clara que a incerteza fiscal, principal elemento da deterioração das expectativas, vai fazer com que o BC seja mais cauteloso, mantendo taxa em 13,75% por um período mais prolongado do que se vislumbrava anteriormente. “Mostra que o custo de desinflação aumentou. Deteriorando expectativas, precisa de uma política monetária mais apertada por mais tempo, o que aumenta o efeito sobre o produto para ter o mesmo efeito sobre a inflação”, explicou.

André Francisco Nunes de Nunes, economista chefe do Sicredi, lembrou que o BC já vem trabalhando com uma janela móvel” para a convergência da inflação, trocando os anos calendário por uma horizonte de seis trimestre à frente. “A gente tira disso que o BC vê essa inflação desancorada, mas não parece nesse momento retomar um ciclo de alta. Ele trabalha com esse cenário de manter por um período mais longo no atual patamar. Isso certamente vai fazer com que o mercado tenha de rever as expectativas de redução de taxa para o segundo semestre”, comentou.

A XP Investimentos observou que o Copom incluiu no comunicado menções sobre o cenário atual, particularmente incerto do lado fiscal e com expectativas de inflação se afastando da meta de inflação em horizontes mais longos, requer mais atenção ao avaliar os riscos. “O Comitê avalia que esse cenário eleva o custo da desinflação necessária para atingir as metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional”.

“A nosso ver, o pronunciamento do Copom reforça nosso cenário básico em que a Selic ficará estável em 13,75% até o início de 2024, que era a projeção do XP desde dezembro.”

Gastos públicos

Idean Alves, sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil, acredita que o Copom explicitou o desconforto com as pressões por mais gastos públicos. “A autonomia do Banco Central questionada, o fim do incentivo do PIS/Cofins sobre os combustíveis, o aumento da energia elétrica, e o novo reajuste do salário-mínimo, somados aos benefícios sociais, junto a necessária elevação da carga tributária para o aumento dos gastos públicos, devem, sem dúvida, respingar em cascata para as empresas, as quais terão que repassar via “preço” para os consumidores”, destacou

Todos esse contexto, segundo Alves, traz mais dificuldade para o BC conduzir a política monetária necessária para o cumprimento das metas. Isso vai “obrigar” a manutenção dos juros elevados por mais tempo.

Luca Mercadante, economista da Rio Bravo, também deu destaque à proposição do cenário alternativo, em que a autoridade monetária mantém a taxa de juros estável ao longo do horizonte relevante. “Mantendo a Selic no patamar atual, de final de ciclo, o BC atinge uma inflação de 2,8% em 2024, ligeiramente abaixo da meta. Em seguida, o BC alega que avalia o cenário em que a Selic se mantém em 13,75% por mais tempo do que o antecipado”, analisou.

Para Mauricio Oreng, superintendente de pesquisa macroeconômica do Santander, por esta alternativa simulação, o BC talvez pretenda mostrar que, em seus modelos, uma trajetória sem cortes na Selic até 2024 deixa o IPCA muito mais próximo de seus objetivos, em comparação com a atual trajetória de consenso para a taxa Selic.

Mercadante também citou o comentário no comunicado sobre as dificuldades do cenário fiscal e sobre a deterioração das expectativas de inflação, especialmente no longo prazo. “Na nossa interpretação, entendemos que o comunicado assumiu tom bastante duro, dando menos espaço para cortes da taxa de juros ao longo do ano”, previu.

Antonio van Moorsel, estrategista-chefe da Acqua Vero, destoou das demais análises porque disse que esperava um comunicado ainda mais “hawkish”. “A autarquia reiterou argumentos recorrentes no passado recente para justificar a decisão colegiada, como a incerteza acerca da trajetória fiscal, a adoção de políticas fiscais que estimulem a demanda agregada e a desancoragem das expectativas inflacionárias”, afirmou.

“A austeridade da mensagem frustrou a expectativa, haja visto a incerteza fiscal e as discussões em curso, e será, provavelmente, interpretada como ‘dovish’ pelos mercados no pregão de amanhã”.

O Goldman Sachs concorda que a deterioração das projeções de inflação para 2023 e 2024, e o fato de o Copom estar muito focado nas perspectivas altamente incertas da política fiscal e nas expectativas ascendentes de inflação no médio prazo, implica que o banco central provavelmente resistirá fortemente ao afrouxamento prematuro da política monetária.

“Em nossa avaliação, o cenário mais provável é que o Copom seja estável e paciente e mantenha a taxa básica de juros na atual postura monetária significativamente restritiva por algum tempo. Dessa forma, esperamos que o Copom espere pelo menos até o terceiro trimestre de 2023 para começar a reduzir gradualmente as taxas, possivelmente mais tarde. No curto prazo (entre 4 e 6 meses) o risco de a Selic ter que subir ainda mais é muito baixo.”

Vinicius Romano, analista de renda fixa da Suno Research, no entanto, afirmou que o BC deixou claro que seu principal objetivo é consolidar não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas no horizonte relevante.

Na prática, ao avaliar a alocação entre os ativos de renda fixa (pós, pré e IPCA+), Romando disse entender que o patamar atual da Selic segue proporcionando um bom retorno com um baixo risco para os títulos pós-fixados, já que estes não sofrem com volatilidade e são proporcionalmente impactados pela movimentação da taxa básica de juros.

“No caso dos títulos indexados à inflação (IPCA+), entendemos que as recentes aberturas nas taxas trazem um carrego interessante no médio e longo prazo, já que papéis sem risco de crédito (Tesouro Direto) oferecem um juro real acima de 6% ao ano”, comentou.

No caso dos prefixados, nosso entendimento é de que existem boas opções com ‘duration’ mais curta, mas a classe é menos beneficiada com a piora nas expectativas de inflação de longo prazo e com a sinalização do BC de que os cortes nos juros não estão tão próximos.”

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