Gargalo logístico aumenta

Os efeitos do bloqueio do Canal de Suez por um navio de 200 mil toneladas para a economia global

A paralisação do tráfego em uma das hidrovias mais importantes do mundo coloca ainda mais pressão sobre transportadoras que já operam com capacidade total

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Ever Given (Foto: Wikimedia Commons)

Desencalhar o navio porta-contêineres que bloqueia o Canal de Suez levará pelo menos até quarta-feira, um período mais longo do que o previsto que agrava os gargalos das cadeias globais de vários produtos, como petróleo, grãos e carros.

O enorme navio porta-contêineres Ever Given encalhou na importante rota comercial na terça-feira, bloqueando a passagem de navios com quase US$ 10 bilhões em mercadorias a serem transportadas pela hidrovia egípcia.

A paralisação prolongada do tráfego em uma das hidrovias mais importantes do mundo coloca ainda mais pressão sobre transportadoras de contêineres que já operam com capacidade total. Isso pode causar atrasos onerosos para empresas europeias que dependem de um fluxo constante de importações da Ásia e para consumidores, que se acostumaram com compras online rápidas durante a pandemia.

A tarefa de desencalhar o navio Ever Given, de 200 mil toneladas, exigirá cerca de uma semana de trabalho e possivelmente mais, disseram pessoas a par do assunto, que não quiseram ser identificadas. A expectativa inicial era de que a operação durasse apenas alguns dias.

“Os atrasos provavelmente aumentarão os custos, colocando ainda mais pressão inflacionária nas cadeias de suprimentos”, disse Chris Rogers, analista-chefe de comércio da Panjiva, da S&P Global Market Intelligence. “Os efeitos em cascata de curto prazo serão uma possibilidade maior de esgotamento de estoques de bens de consumo e o risco de que as cadeias de suprimentos de manufatura just-in-time, já atingidas pelo Brexit e pela escassez de commodities, possam enfrentar gargalos adicionais.”

Mesmo antes de o Ever Given encalhar no Canal de Suez na terça-feira, a rede de comércio global mostrava sinais de tensão devido aos problemas econômicos da pandemia de coronavírus.

O maior fluxo de mercadorias do mundo – entre a China e os EUA – enfrentou quase cinco meses de gargalos nos portos de Los Angeles e Long Beach. Importadores têm esperado várias semanas pela chegada das cargas, com o efeito indireto de que os exportadores não conseguem receber contêineres de aço vazios necessários para enviar carregamentos a outros países.

O temor agora é que a crise no Canal de Suez piore os desafios logísticos da Europa, resultando em viagens canceladas, escassez de contêineres e taxas de frete mais altas.

Os trabalhos realizados desde terça-feira por rebocadores e escavadeiras – equipamentos minúsculos em comparação com o navio de 400 metros – não deram resultados até agora. Enquanto as equipes de resgate trabalham, a fila de espera de navios carregados com bilhões de dólares em petróleo e bens de consumo aumentou para mais de 300 em relação a 186 na quarta-feira, de acordo com dados Bloomberg.

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Caso a carga do navio encalhado precise ser descarregada ou grandes reparos feitos no próprio canal, “então o tempo de inatividade certamente pode durar pelo menos duas semanas”, de acordo com Randy Giveans, vice-presidente sênior da Equity Research for Energy Maritime, da Jefferies LLC. O Ever Given pode estar carregado com quase US$ 1 bilhão em mercadorias, de acordo com a IHS Markit.

Os navios com planos de atravessar o Canal de Suez começam a optar por desvios caros e demorados em torno da África para manter o fluxo das entregas.

Os custos de frete também estão subindo – o preço de enviar um contêiner de 12 metros da China para a Europa quase quadruplicou em relação a um ano atrás -, o que representa mais um peso em meio aos gargalos causados pela pandemia.

Com o bloqueio do canal, cerca de 2 milhões de barris por dia de fluxos de petróleo estão retidos, de acordo com estimativas da Braemar. A paralisação também afeta graneleiros que transportam produtos como trigo e minério de ferro. Fabricantes globais já se preparam tanto para atrasos dos embarques de produtos acabados quanto de matérias-primas cruciais para as linhas de produção.

A Caterpillar, maior produtora de máquinas dos EUA, disse que enfrenta atrasos para os embarques e até considera enviar produtos por via aérea se necessário, enquanto a japonesa Envision AESC, fornecedora de baterias para veículos elétricos, disse que depende do Canal de Suez para algumas importações de eletrodos.

Para as linhas de contêineres que transportam cerca de 80% do comércio global de mercadorias, um gargalo prolongado entre a Europa e a Ásia pode prejudicar os calendários dos navios definidos com meses de antecedência para que os importadores possam planejar as compras, gerenciar estoques e manter as prateleiras das lojas estocadas ou as linhas de produção em funcionamento.

O problema se agrava a cada dia. Navios que chegam com vários dias de atraso não podem ser esvaziados e recarregados a tempo de fazer a viagem de volta programada. Com isso, as transportadoras cancelam viagens e limitam ainda mais a capacidade, o que também eleva as taxas de frete.

Efeitos no café instantâneo

A crise no Canal de Suez pode em breve atingir até o café instantâneo. O navio que bloqueia a passagem em um dos pontos de estrangulamento marítimo mais importantes do mundo não limita apenas os embarques de petróleo e gás natural liquefeito, mas também contêineres de café robusta, o tipo usado no Nescafé. A Europa é a mais afetada porque importa pelo Canal de Suez, mas o impacto será sentido globalmente, já que os atrasos nos embarques agravam a falta de contêineres que atinge os mercados de alimentos.

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“As tradings terão dificuldade em fornecer aos clientes na Europa”, disse Jan Luhmann, fundador da JL Coffee Consulting, que antes se encarregava das compras de café na Jacobs Douwe Egberts, uma das maiores torrefadoras de café do mundo. “Se tivermos sorte, vai demorar alguns dias para resolver isso, mas, ainda assim, muitos danos já foram causados.”

Cerca de 12% do comércio global passa pelo Canal de Suez, e a hidrovia é mais conhecida por seu papel nos mercados de energia do que por commodities agrícolas, como o café. Ainda assim, apenas dois grandes produtores de café robusta – Brasil e Costa do Marfim – não usam essa rota-chave para atender grandes consumidores da Europa.

Torrefadoras no continente europeu já encontravam dificuldade para receber café do Vietnã, o maior produtor mundial de robusta, devido à escassez de contêineres. Justamente quando a disponibilidade de contêineres começava a melhorar, o bloqueio do canal trouxe outra dor de cabeça. Todos os grãos que a Europa importa da África Oriental e da Ásia fluem pelo Suez.

“As torrefadoras podem aguentar atrasos de duas a três semanas? Provavelmente, não”, disse Raphaelle Hemmerlin, chefe de logística da trading Sucafina. “Não acho que disponham do estoque de reserva que normalmente têm.”

Além disso, a interrupção terá um impacto global devido à retenção de contêineres, exacerbando a escassez que já levou os estoques dos Estados Unidos para o menor nível em seis anos. Além de as caixas ficarem presas em navios no canal, quando o tráfego for liberado retornarão a portos como Antuérpia e Rotterdam, disse Hans Hendriksen, que comercializa cacau e café há 40 anos.

“Quanto mais tempo levar para resolver o problema, mais a logística será afetada”, disse Hendriksen, que agora assessora exportadores, bem como tradings de pequeno e médio porte.

Ao contrário de torrefadoras nos Estados Unidos, fabricantes de café da Europa não podem usar facilmente suprimentos de café robusta do Brasil devido ao sabor dos produtos. Como resultado, algumas torrefadoras no continente recentemente recorreram a suprimentos da África Oriental para suprir a escassez de grãos robusta do Vietnã, com compras de países como Uganda ou de grãos arábica de sabor mais suave da região.

Mas esses grãos também são transportados pelo Canal de Suez. Tradings com estoques em armazéns europeus estão cobrando um prêmio alto no mercado físico. No auge da falta de contêineres, tradings cobravam US$ 450 a tonelada acima do preço do café vietnamita armazenado na Europa, o triplo da taxa normal.

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“O estoque na Europa está muito apertado, e o mercado à vista deve pegar fogo”, disse Luhmann, da JL Coffee Consulting. “O estoque no Vietnã é confortável, mas qual é o valor disso se você não pode enviá-lo para a Europa?”

O Brasil até agora se beneficiou dos deslocamentos de preços causados pela escassez de contêineres que atingiu o Vietnã no fim do ano passado. O segundo maior produtor de robusta exportou um recorde de 4,9 milhões de sacas de café em 2020, um aumento de 24% em relação ao ano anterior, de acordo com a Cecafé.

Ainda assim, a maioria desses grãos acabou em estoques certificados de bolsas, e não nas torradoras. Isso porque a substituição do café vietnamita por grãos brasileiros mudaria o sabor do produto final para o consumidor. Os grãos da África Oriental são uma melhor alternativa.

“As torrefadoras mudarão suas receitas?”, pergunta Hemmerlin, da Sucafina. “Não é tão simples.”

(com Bloomberg)

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