No ano do dragão, projeções econômicas para a China passam longe da abundância

Horóscopo chinês supõe época de progresso, mas as estimativas para crescimento do PIB em 2024 estão em torno de 4%, menos que no ano passado

Roberto de Lira

Feriado prolongado na China: 2024 será o Ano do Dragão

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Pelo calendário do horóscopo chinês, em fevereiro acaba o ano do coelho de água começa o ano do dragão de madeira. Quem segue a superstição, acredita que se encerra um período de cautela e reflexão e entra em vigor um ano de crescimento, progresso e abundância. Mas as projeções econômicas para a China são menos otimistas do que supõe o calendário lunar.

Economistas de todo o mundo acreditam que a segunda economia global ainda vai padecer dos mesmos males atuais. E que o crescimento de 2024 e adiante será inferior ao de 2023.

O próprio presidente Xi Jinping admitiu em seu discurso na véspera de Ano Novo que o momento é desafiador. Entre os “ventos contrários” citados pelo líder estavam a condição das empresas e as dificuldades que as pessoas têm enfrentado para conseguir emprego e satisfazer necessidades básicas.

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Até que a China até que não se saiu de todo mal no ano que acabou. Com boa parte da economia sofrendo em 2022 com as pesadas restrições de circulação de pessoas motivadas por uma estratégia de eliminar os riscos de alastramento da pandemia de covid-19, a reabertura em 2023 trouxe esperanças da volta dos bons tempos. O PIB, que avançou apenas 3,0% no ano retrasado, girou em torno de um projetado crescimento de 5% no ano passado. 

Mas, antes mesmo de o coronavírus mudar a vida das pessoas em todo o mundo, a China já mostrava que estava entrando num “novo normal”, com declínio gradual de suas taxas de crescimento e de rendimento per capita desde 2010.

Estudo recente do FMI lembrou que, além da natural consolidação da renda média no país e das esperadas reduções do ganho demográfico, o crescimento anterior foi caracterizado por investimentos excessivo e pela acumulação de dívida.

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Alicia García Herrero, pesquisadora sênior do think tank europeu Bruegel, destacou em artigo que desaceleração estrutural chinesa é clara. “Olhando retrospectivamente, pode-se perceber que o crescimento do PIB da China caiu basicamente para metade em apenas 10 anos, passando de um crescimento superior a 10% em 2012 para atingir a meta de 5% em 2023, escreveu.

Em suas projeções, o FMI prevê que essa realidade não vai se alterar nos próximos anos. A estimativa par 2024 é de uma alta de 4,2% no PIB, com a economia abrandando até atingir 3,4% de taxa de crescimento em 2028. Isso por fatores como a redução do bônus demográfico, com a diminuição da população em idade ativa, e um declínio do crescimento da produtividade, incluindo aí uma redução no dinamismo de necessária reformas.

Garcia Herrero diz que é esperada uma desaceleração estrutural para qualquer economia que atinja os US$ 10 mil dólares per capita, mas que a economia chinesa começou a abrandar muito antes de atingir este valor de referência.

Para ela, essa perda de velocidade está menos relacionada a aspectos relacionada à pandemia – uma vez que a desaceleração se acelerou antes da crise sanitária, entre 2012 a 2019 – e mais ligada aos desequilíbrios estruturais do país.

No artigo, ela lembra que, ironicamente, foram esses mesmos desequilíbrios que contribuíram para o milagre econômico da China, conduzindo ao problema mais sensível do país: poupanças excessivamente elevadas e consumo teimosamente baixo. De fato, a média de poupança chinesa ainda oscila em torno de 45% do PIB, o que significa que uma enorme quantidade de fundos está senso investida todos os anos de uma forma não necessariamente eficaz.

Dívidas nas províncias

Há exemplos para ilustrar esses desafios. A região montanhosa de Guizhou se tornou famosa por abrigar algumas das pontes mais altas do mundo. Assim, os enormes investimentos em infraestrutura necessários retiraram a província do mapa da pobreza, as a um custo elevado:  Guizhou tem hoje uma dívida pública de cerca de 137% do seu PIB. Essa história é comum em diversas outras províncias chinesas.

Não é um problema pequeno. Para a Oxford Economics, os esforços para resolver questões de dívida dos governos locais colocará um ônus crescente sobre as ferramentas financiadas centralmente para políticas anticíclicas, enquanto a pressão de cima para baixo para concretizar o crescimento em 2024 será provavelmente menos aguda.

Para o UBS, esse “novo normal” chinês veio para ficar, tanto por conta da diminuição da força de trabalho como pelos limites estruturais ao crescimento, mas existe uma intenção de uma opção pela qualidade no futuro.

O banco de investimentos comentou em relatório que, a longo prazo, os gastos dos consumidores, a liderança na transição de carbono e atualizações na cadeia de abastecimento devem fornecer motores de crescimento duráveis e de qualidade.

O Goldman Sachs, por sua vez, espera algum benefício em 2024 vindo de estímulos fiscais e monetários adicionais, mas reconhece que o país ainda enfrenta os ventos contrários da longa desalavancagem do mercado imobiliário e dos problemas demográficos. “Uma recuperação sustentada depende provavelmente de uma mudança maior na direção política”, comentou o banco em sua análise sobre o ano que começa.

Sobre esses estímulos, a Azimuth Brasil Wealth Management comenta que a esperada distensão monetária global pode permitir que a China finalmente possa utilizar a política monetária para ajudar sua economia.

“Até agora, por causa da elevação das taxas de juros globais, a China encontrava-se na prática impossibilitada de baixar os juros, mesmo tendo inflação muito baixa, pelo risco de depreciação significativa da sua moeda. Isto é, a China pode se beneficiar do novo ambiente global de juros menores para impulsionar a recuperação da sua economia. Porém, não podemos esquecer que ainda há um enorme problema de excesso de endividamento no setor imobiliário, que deve continuar restringindo o crescimento”, diz relatório da Azimuth.

Para a gestora de investimentos, porém, não é razoável esperar por grandes esforços de consolidação fiscal, até porque a redução das taxas de juros diminui a necessidade ou a urgência de tais ajustes. “Julgamos que o tema fiscal voltará a aparecer com mais evidência nos estágios finais do ciclo de afrouxamento monetário”, prevê.