IPCA-15 desacelera, mas altas em alimentos e serviços subjacentes exigem atenção

Economistas veem composição do indicador mais desafiadora no início de 2024; índice de difusão passou para 67% em janeiro, mostrando inflação mais disseminada

Roberto de Lira

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Embora a desaceleração da variação do IPCA-15 – de 0,40% em dezembro para 0,31% em janeiro – tenha sido considerada uma notícia positiva, os economistas encontraram sinais de alerta na composição do indicador. A alta no índice de difusão, a manutenção da tendência da inflação de alimentos e um repique nos preços dos serviços subjacentes estão entre as maiores preocupações.

André Cordeiro, economista sênior do Banco Inter, citou o avanço do índice de difusão, de 56% para 67% em um mês, como provada de que a inflação em janeiro foi bem mais disseminada do que em dezembro. Para ele, isso significa uma piora na dinâmica inflacionária vista no resultado de dezembro, com os itens menos voláteis reacelerando.

“Ainda assim, o cenário é de continuidade do processo de desinflação, já levando em conta a sazonalidade do período. Portanto, não antecipamos uma mudança na condução da política monetária. Por outro lado, a piora da dinâmica poderá tornar o Copom mais cauteloso na margem”, comentou.

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Já Alexandre Maluf, economista da XP, destacou a medida de serviços subjacentes como ponto de atenção. Essa leitura subiu 0,68% na variação mensal, acima da estimativa de 0,52%. E a variação trimestral anualizada desses serviços avançou de 4,3% em janeiro de 4,1% em dezembro. 

“As principais surpresas altistas vieram de serviços bancários e aluguel de veículos, mas destacamos que os serviços intensivos em mão-de-obra apresentaram outra variação forte em janeiro”, listou.

Para ele, a composição do IPCA-15 de janeiro reforça a visão da XP de que o núcleo de serviços não convergirá para a meta de inflação em 2024.

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O economista André Perfeito, que considerou o índice de janeiro como um “falso positivo”, tem a mesma análise sobre os serviços. “O IPCA cheio pode até ficar mais baixo, contudo, os serviços tendem a pressionar devido a recuperação do rendimento médio real habitual na esteira do desemprego em queda”, alertou.

Alimentos

Outro ponto, que é a tendência de inflação dos alimentos, foi destacado na análise de Laura Moraes, economista da Neo Investimentos, especialmente a variação de preços dos itens dentro do domicílio, que registrou forte alta de 2,0% no mês.

“Nessa leitura, tivemos altas generalizadas, com piora marcada em in natura refletindo as condições climáticas do El Niño. Além disso, vimos aceleração típica do período em proteínas. Vale o destaque que vemos no atacado que essa desinflação de commodities está se dissipando e provavelmente já passamos o melhor momento da inflação de alimentos”, afirmou.

Sobre a parte benigna do IPCA-15, Claudia Moreno, economista do C6 Bank, citou a queda de 15,24% nas passagens aéreas em janeiro, bem acima da redução de 2% estimada. “Vale reforçar que passagem aérea é um item muito volátil e que vinha de uma sequência de altas em 2023, fechando o ano com um aumento expressivo de 47%”, comparou, ao explicar que esse item puxou pra baixo a inflação mensal de serviços (-0,11%).

No balanço geral, o Goldman Sachs citou em relatório assinado por Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica, que a dinâmica da inflação apoia a continuação de um ciclo de afrouxamento gradual dos juros, embora a dinâmica subjacente da inflação de serviços básicos mereça atenção.

Para ele, no entanto, alguns fatores exigem cautela na calibração de curto prazo da política monetária. Entre eles, foram citados o cenário apertado no mercado de trabalho, a política fiscal e parafiscal expansionista, a falta de credibilidade das metas fiscais de 2024 a 2026 e as expectativas de inflação ainda desancoradas para 2024 e para o médio prazo.

Além disso, ele citou o balanço de risco para a inflação de alimentos inclinado para o lado positivo e fundamentos de inflação de serviços apertados.

Luca Mercadante, economista da Rio Bravo, reforça que o grupo de alimentos requer atenção, dada a possibilidade de efeitos mais severos do El Niño e os preços elevados de alimentos no domicílio. “Mesmo com esses pontos, o BC deve continuar apto a cortar os juros em 50 pontos-base na próxima reunião (que se encerra em 31 de janeiro). É pouco provável, entretanto que vejamos uma aceleração do ritmo de cortes”, afirma o economista.

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