IPCA-15 mostrou aceleração dos preços administrados e núcleos pressionados, dizem analistas

Para o Itaú, processo de desinflação será errático e gradual; projeção do banco para o IPCA ao final de 2022 é de 5,8%

Roberto de Lira

Publicidade

A análise mais detalhada do IPCA-15 de novembro, que mostrou alta de 0,53% ante outubro, aponta para uma aceleração dos preços administrados e uma estabilidade dos preços livres na “prévia” da inflação oficial, apontam especialistas.

Embora os preços de combustíveis, em especial a gasolina, e de alimentos, tenham puxado a inflação no mês, os dados divulgados hoje pelo IBGE vieram um pouco abaixo do esperado.

A CM Capital destacou no período o movimento dos preços dos combustíveis automotivos, que voltaram a apresentar inflação após alguns meses de recuo. “Mesmo sem reajuste dos preços dos combustíveis por parte da Petrobras, o preço da gasolina e do etanol passou por reajustes altistas nas últimas semanas, conforme apurado pela ANP e pelos demais indicadores inflacionários”, diz em relatório.

Masterclass

As Ações mais Promissoras da Bolsa

Baixe uma lista de 10 ações de Small Caps que, na opinião dos especialistas, possuem potencial de valorização para os próximos meses e anos, e assista a uma aula gratuita

E-mail inválido!

Ao informar os dados, você concorda com a nossa Política de Privacidade.

Também foi citado que a média dos núcleos do indicador manteve-se praticamente estável frente o resultado anterior (0,56%, na comparação mensal de outubro, ante 0,55% em novembro). Todos os núcleos acompanhados pela CM Capital mostraram inflação elevada e concentrada em patamar estreito. “Esse movimento reforça a característica ruim do indicador, que independentemente da característica do núcleo sugere pressão no curto e médio prazo”, afirma o relatório.

A XP diz em relatório assinado pelo economista Rodolfo Margato que a composição do indicador ficou entre neutra e ligeiramente positiva.

“Projetamos elevação de 5,8% para o IPCA de 2022 e de 5,2% para o IPCA de 2023. Nossa estimativa para o próximo ano leva em consideração a reoneração de PIS/Cofins sobre combustíveis, com impacto altista ao redor de 0,50 p.p. sobre o IPCA geral. No entanto, os crescentes riscos fiscais e seus impactos potenciais sobre a dinâmica da taxa de câmbio e as expectativas de inflação de médio prazo precisam ser monitorados com bastante cautela, pois podem alterar as perspectivas para o IPCA”, alerta Margato.

Continua depois da publicidade

Já o Goldman Sachs afirma, em relatório assinado pelo economista chefe Alberto Ramos, que o indicador veio acima do esperado em bens industriais semiduráveis, vestuário, higiene pessoal e comunicações. Esse comportamento foi compensado por dados abaixo do esperado em alimentos consumidos dentro e fora de casa e em despesas pessoais.

“Na comparação com outubro, a aceleração da inflação em novembro refletiu o impacto das altas nas passagens aéreas, combustíveis, eletricidade, alimentos e bens industriais”, destaca.

Ramos também cita o comportamento dos combustíveis no mês, com a contribuição negativa dos últimos meses sendo revertida em novembro (aumento de 2,04%), impulsionado pela gasolina e etanol.

Para o Goldman Sachs, no geral, a dinâmica da inflação subjacente ainda é desafiadora, dadas as pressões ainda disseminadas sobre a inflação básica e de serviços em um cenário de aperto no mercado de trabalho, a expectativa de deterioração do mix de políticas macro e micro e uma grande expansão fiscal em 2023.

“Além disso, a inflação pode se mostrar inercial devido à intensificação dos mecanismos retroativos de fixação de preços e salários, com reajuste de contratos salariais incorporando ajustes de custo de vida”, prevê o banco de investimentos.

O BTG Pactual avalia que que o IPCA-15 de novembro foi puxado por itens voláteis, mas alerta que a média dos núcleos avançou de 0,47% na comparação mensal entre setembro e outubro, para 0,53% entre outubro e novembro. E também que difusão da alta nos serviços, segmento que o BCB segue vigilante, passou de 61,5% para 64,6%.

“Apesar da melhora marginal na dinâmica inflacionária recente, observamos uma deterioração das perspectivas para os preços para 2023, impulsionada pela possível reversão parcial das desonerações tributárias de 2022 e propostas de expansão fiscal”, diz o banco.

No entanto, uma possível melhora nos gargalos produtivos e as perspectivas melhores para a próxima safra podem resultar em uma trajetória de inflação mais baixa para bens industriais e alimentos in natura.

O Itaú também alerta em relatório que núcleo subjacente para serviços e industriais continuou a desacelerar em relação aos picos recentes, mas os componentes subjacentes industriais e de serviços ficaram acima das expectativas do banco. “O processo de desinflação será errático e gradual. Nossa projeção para o IPCA ao final de 2022 é de 5,8%”, prevê.

Para Luca Mercadante, economista da Rio Bravo, o resultado de novembro mostrou alguma melhora nos serviços subjacente e nos núcleos, mas como as medidas ainda se mantém pressionadas, não são suficientes para garantir um processo consolidado de desinflação. “Assim, seguimos antevendo que o Banco Central deve manter a taxa de juros em patamar terminal nas próximas reuniões, e só começará a discutir quedas quando esse processo ficar claro”, afirma.