Inflação mais alta em maio reforça projeções de que Copom vai manter Selic

Além do indicador principal ter vindo acima da mediana das projeções, a piora em alguns núcleos e a manutenção das incertezas no cenário externo contribuem para fim dos cortes de juros, dizem economistas

Roberto de Lira

Sede do BC, em Brasília (Foto: Adriano Machado/REUTERS)
Sede do BC, em Brasília (Foto: Adriano Machado/REUTERS)

Publicidade

A aceleração do IPCA em maio e a análise da composição do indicador no mês reforçam a tendência de que o Comitê de Política Monetária (Copom) interrompa na semana que vem o ciclo de queda de juros, segundo opinam economistas. Além do indicador principal ter vindo acima da mediana das projeções, a piora em alguns núcleos e a manutenção das incertezas no cenário externo contribuem para essa projeção.

“Tivemos surpresas altistas principalmente em alimentação e também em energia elétrica. Eu destacaria que foi uma leitura um pouco mais desafiadora na margem”, comenta Alexandre Maluf, economista da XP.

Na análise do núcleos de inflação, Maluf destaca que a média móvel de 3 meses anualizada saiu de 3,1% para 3,2% e maio, distanciando-se, ainda que levemente, da meta perseguida pelo BC. Ele cita ainda a parte de serviços subjacentes, que na mesma métrica avançou de 4,9% para 5,1%. “A gente tinha visto uma melhora nesse indicador e voltou a piorar em maio”, compara.

Continua depois da publicidade


Baixe uma lista de 11 ações de Small Caps que, na opinião dos especialistas, possuem potencial de crescimento para os próximos meses e anos

Além disso, os serviços intensivos em mão de obra seguem rodando em torno de 6%, com um leve alívio na margem. “Enfim, o IPCA trouxe uma mensagem marginalmente pior na sua composição”, diz.

“Para BC, é uma leitura que reforça nosso cenário de que o BC deve interromper o ciclo já na próxima reunião, pela incertezas que se acumulam. O IPCA com uma composição mais desafiadora acaba por reforçar essa visão”, explica Malu, prevê uma decisão de Selic estável em 10,5% na próxima reunião do comitê.

Continua depois da publicidade

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, comenta que o resultado de maio foi puxado, principalmente, pelos preços dos alimentos, impactados pelos efeitos da chuva no Rio Grande do Sul, grande produtor de grãos, como arroz, soja e milho.

Mas ela lembra que não foram só os alimentos que pesaram no IPCA de maio. “A inflação de serviços e de bens industriais também vieram pior do que o esperado. A inflação de serviços subjacentes, aquela que é acompanhada mais de perto pelo Banco Central, acumula uma alta de 4,8% em 12 meses e segue sem sinais de desaceleração”, explica.

Claudia destaca que esse segmento é pressionado pelo mercado de trabalho aquecido. “Com o desemprego baixo para os padrões brasileiros, os empresários reajustam salários acima dos ganhos de produtividade, pressionando a inflação de serviços, um setor intensivo em mão de obra. Essa dinâmica já vem ocorrendo há vários meses e deve continuar à frente”, analisa.

Continua depois da publicidade

A economista afirma que a resiliência da inflação de serviços corrobora a visão de que não há mais espaço para o Banco Central cortar juros neste ano. “Com a piora contínua das expectativas de inflação medidas pelo Boletim Focus e depreciação recente do câmbio, acreditamos que o Copom interromperá o ciclo de cortes de juros na reunião da próxima semana”, afirma.

O C6 Bank projeta uma alta de 4,7% para o IPCA de 2024 e taxa Selic estável em 10,5% até o final do ano.

André Valério, economista sênior do Inter, é ouro especialista a destacar a aceleração nos núcleos, que saiu de 0,26% em abril para 0,39% em maio. “Em 12 meses, a média dos núcleos acelerou na margem, saindo de 3,53% para 3,55%. Além disso, a inflação de serviços também acelerou, saindo de 0,05% em abril para 0,4% em maio”, cita.

Continua depois da publicidade

Valério diz que, de modo geral, foi um resultado quantitativamente e qualitativamente ruim para o IPCA, que reforçará a postura de cautela do BC. “De positivo, o resultado trouxe apenas a estabilidade na variação dos núcleos em 12 meses e do indicador de difusão. Sendo assim, esperamos que o Copom mantenha a taxa de juros nos atuais 10,5% pelas próximas reuniões e uma inflação oscilando ao redor de 4%, que é nossa estimativa para 2024.”

Carla Argenta, economista chefe da CM Capital, pondera que os dados recentes de inflação, apesar de majoritariamente positivos, são permeados por movimentos que merecem ser observados com atenção e não permitem o afrouxamento adicional da política monetária neste momento.

“Diante dos movimentos recentes em curso e de uma demanda aquecida sobre o amplo conjunto de bens e serviços, a manutenção da taxa de juros em terreno significativamente contracionista é absolutamente necessária. Nesse contexto, espaços para cortes adicionais na Selic são cada vez menores”, comenta.

Continua depois da publicidade

Na opinião de Andrea Damico, economista chefe da Armor Capital, os dados ruins em maio apontam que a próxima reunião do Copom terá como decisão a estabilidade na Selic. “Essa inflação corrente voltou a mostrar uma cara pior (…) trouxe uma nuvem mais cinzenta”, afirma. Para ela, isso somado à piora no cenário externo terá como consequência a interrupção do ciclo de queda nos juros.