Especialistas veem na ata do Copom preocupação do BC em ancorar expectativas

Destaque dado no documento às projeções para 2024 e também para o "hiato do produto" no 3° trimestre sustentam avaliação

Roberto de Lira

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A ata da reunião do Copom divulga nesta terça-feira (27), referente à reunião do comitê da semana passada (que interrompeu o ciclo de alta  dos juros, mantendo a Selic a 13,75%), teve como destaque não só o tom mais pesado (“hawkish”, no termo em inglês), mas também a preocupação de ancorar expectativas futuras, evitando estimativas antecipadas em relação ao início da redução do aperto.

Para os analistas, as projeções contidas no relatório apontam para isso. Para Caio Megale, economista chefe da XP, o BC destacou as condições para o Copom entregar a trajetória de política monetária esperada pelos analistas.

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“Uma condição é a evolução da atividade econômica e do ‘hiato do produto’ (medida de ociosidade). A ata trouxe um cenário alternativo em que o hiato estaria no nível zero no 3º trimestre de 2022, o que consideramos provável. Neste cenário, a projeção de inflação para 2024 encontra-se exatamente na meta. Ou seja, haveria espaço limitado para uma trajetória de taxa Selic abaixo da considerada no cenário base”, destacou Megale.

O hiato do produto é a diferença entre o PIB efetivamente observado num período ante a estimativa do produto interno bruto potencial. Quando o PIB fica acima de seu potencial, o hiato do produto é positivo, o que aponta para tendência de alta na inflação e de redução do desemprego. Já se o hiato do produto é negativo, há capacidade não utilizada e as pressões inflacionárias caem.

O economista chefe da XP também destaca que o BC observou a dinâmica da inflação de serviços em sua reunião. “O Copom listou os fatores que levariam à desinflação de serviços e destacou que avaliará se a manutenção da taxa de juros por um período suficientemente prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação à trajetória de metas”, afirmou.

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A terceira condição avaliada pelo comitê de política monetária que a XP destacou foram as expectativas de inflação para 2024, que vêm subindo de acordo com a pesquisa Focus. “Ainda não está claro se o movimento está relacionado a choques globais ou pressões domésticas. De qualquer forma, o Copom afirmou que ancorar expectativas de longo prazo é fundamental para que o trabalho seja considerado concluído”, afirmou Megale.

Para a XP, a desinflação global esperada para 2023 ajudará o Copom a trazer a inflação para a trajetória de metas até 2024, abrindo espaço para algum afrouxamento monetário. “Mas não antes de meados do ano que vem”, lembrou Megale.

Quando cai?

Para o Bradesco, a ata do Copom reforçou o tom do comunicado da semana passada, sinalizando que juros devem seguir elevados por um período longo. “O BC manteve o tom de cautela, com alguns elementos adicionais.

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“Em primeiro lugar, o BC adicionou um exercício alternativo, supondo um hiato zerado no terceiro trimestre de 2022, que eleva a projeção de inflação de 2023 de 4,6% para 4,9% e de 2024 de 2,8% para 3,0%”, destacou o banco em relatório.

O Bradesco também observou que Copom citou a piora das expectativas de inflação em 2024, ainda que acompanhada por um movimento semelhante em outros países emergentes.

“Em nossa avaliação, ao dar ênfase a essas medidas, o Copom mostra que estará menos sensível aos patamares mais baixos que devem ser observados em meados do próximo ano em algumas métricas do IPCA. Mantemos nosso cenário de que o ciclo de alta de juros está encerrado e os cortes devem ocorrer apenas a partir de meados do próximo ano”, previu o Bradesco.

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Para a Genial Investimentos, os recados enviados pela ata mostram que o BC não deve sinalizar que vai reduzir a Selic enquanto as expectativas de inflação não recuarem para patamares próximos de 3,5% ou 3%.

Ou seja, a autoridade monetária não pretende passar uma mensagem que seja entendida pelo mercado de que uma queda na taxa é iminente e isso mexer na curva de juros de cinco anos. Isso poderia incentiva a demanda, atuando contra a política monetária.

Para o Itaú, a ata do Copom reforça a visão de Selic por muito tempo, mas também coloca uma barra relativamente alta para reiniciar o ciclo de aperto. “Mostra que o comitê vê o tamanho do hiato do produto como particularmente incerto, mas mesmo em uma simulação que suponha um hiato nulo até o 3° trimestre, a inflação convergiria para a meta em 2024”, diz relatório do banco.

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O Itaú acredita que seria necessária uma deterioração maior para o Copom reacender o ciclo. “Esperamos que o comitê não revise a estratégia de manter as taxas altas, onde estão, por pelo menos algumas reuniões”, afirma o relatório, que destaca esperar mais detalhes na divulgação do Relatório de Inflação na próxima quinta-feira (29).