El Niño afeta produtividade, mas impacto nos preços agrícolas é incerto

Como os efeitos do fenômeno climático são diferentes no mundo, risco de disparada nos preços internacionais pode não se concretizar

Roberto de Lira

Foto: Getty Images

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O efeitos do fenômeno climático El Niño no setor agrícola brasileiro já são evidentes na safra 2023/2024, com projeções de produtividade menor em várias culturas e regiões, mas ainda não é possível precisar se essa condição pode exercer pressões inflacionárias no ano que vem, com choques nos preços de alimentos e da ração animal.

Segundo a ata da última reunião do Copom, os diretores do Banco Central ressaltaram a incerteza do momento com relação ao impacto do fenômeno do aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, tanto em relação à sua magnitude quanto à sua duração, mas o Comitê preferiu incorporar um impacto relativamente pequeno do El Niño em suas projeções de inflação de alimentos.

Pelo menos em relação à sua duração, há um grau maior de certeza por parte dos especialistas. “Por enquanto, a gente tem uma previsão de um El Niño forte – e alguns até falando em muito forte – e atuando com esses grandes efeitos até janeiro. A partir de janeiro até abril, deve diminuir sua intensidade, mas ainda vai perdurar”, projeta Danyella Bonfim, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

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O El Niño já vem mostrando sua cara desde junho passado, quando começaram a ser registradas fortes tempestades, como os ciclones extratropicais da região Sul, com perdas na produção de grãos local, na fruticultura e horticultura, além de algumas infraestruturas.

Na sequência, várias regiões do país sofreram com onda de calor (foram oito, no total), com o registro de temperaturas acima de 40 graus e vários recordes históricos. A região Norte se deparou então com sua maior seca em 40 anos.

Segundo Danyella, a condição de forte calor, somada ao estresse hídrico, passou a prejudicar as atividade agrícolas por conta de atrasos no plantio. O plantio da soja e do milho de 1ª safra foi o mais afetado por essas condições climáticas adversas.

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“Muito produtor segurou suas atividades. Alguns arriscaram e tiveram de fazer o replantio, tiveram de repetir a operação. Consequentemente isso gera custos extras. Além da questão do replantio, tem a dificuldade na germinação da soja, por conta do solo quente”, explica.

Alívio com a volta das chuvas

Somente nas últimas semanas as chuvas chegaram com maior intensidade, principalmente na região Centro-Oeste. O Estado do Mato Grosso, por exemplo, conseguiu adiantar um pouco as operações nas duas últimas semanas e está mais em linha com o que foi visto no ano passado, diz a assessora técnica da CNA.

“As chuvas a partir deste mês devem começar a regularizar no Centro-Oeste e Sudeste. Mas, mesmo assim, os números não são significativos, devido a todo o déficit hídrico”, pondera.

Mas outras regiões como a Matopiba (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia), que nesta época deveria estar adiantando as atividades, não estão conseguindo por conta dessas más condições climáticas.

A região Sul também teve prejuízos por atraso no plantio. Com o agravante que a safra de trigo já estava sendo colhida, o que acelerou algumas perdas de qualidade. As estimativas da Conab estão sendo reduzidas em mais de 800 mil toneladas nos últimos dois levantamentos estatísticos.

Além da perda de produtividade, ainda não totalmente projetada, o atraso no plantio da soja acaba por comprometer a janela de plantio para a 2ª safra, especialmente do milho.

“O milho, com a janela de plantio menos favorável, pode ser exposto a essas condições climáticas não favoráveis e pode ter perda na produtividade. E está vindo de um cenário de redução de área, por conta da instabilidade, dos preços baixos”, afirma.

Impacto nos preços

O que isso pode representar nos preços, uma vez que há um risco de pressão nas cotações das commodities? Para Danyela, é natural esperar que a atual situação possa ter um impacto por conta da redução da oferta, mas ela adverte que isso vai depender do tipo da cultura e também do cenário internacional, uma vez que o El Niño não afeta a todos os países da mesma maneira.

Marcos De Marchi, economista chefe da Oriz Partners, concorda e destaca o caso da Argentina, onde se espera uma produção mais forte de grãos, após uma quebra de safra entre 2022 e 2023.

“Mesmo que a gente tenha uma redução, vai ter uma produção a mais forte da Argentina. Então acho que não é o caso para uma grande oscilação nos preços dos grãos”, prevê. De Marchi aposta em algumas pressões pontuais em hortaliças e leguminosas, por conta da ocorrência de chuvas além do esperado em alguns momentos.

O último Monitor Agro do Bradesco também apontou que o plantio no Brasil e na Argentina acelerou com chuvas mais regulares no final de novembro, enquanto nos Estados as safras de soja e de milho já foram praticamente colhidas.

O relatório citou o último estudo da NOAA, a agência americana de acompanhamento oceânico e atmosférico, que confirmou a expectativa de um El Niño de intensidade forte, com  presença até o segundo trimestre de 2024.

“Mas o fenômeno deve perder força a partir do primeiro trimestre do próximo ano, o que pode levar a alguma normalização do clima no primeiro semestre. O instituto também começa a sinalizar um resfriamento das águas do pacífico em meados do ano. A probabilidade de neutralidade climática é majoritária”, diz o texto do Bradesco.

Especificamente para o Brasil, a análise é que a melhora das chuvas levou ao avanço do plantio, mas que a safra de soja seguia atrasada em algumas praças. “O atraso ocorre principalmente no Nordeste, que ainda tem expectativa de um clima mais seco, com chuvas irregulares nos próximos dias”, diz o Bradesco.

Enquanto isso acontece, o banco diz que chamou a atenção a alta de mais de 40% dos preços de feijão nos últimos trinta dias. “O clima seco e com chuvas irregulares está levando ao atraso de plantio da 1ª safra de feijão. Isso deve comprometer a produtividade e os preços reagiram em mercado apertado”, afirma o banco.

No mesmo sentido, preços de arroz seguiram em trajetória de alta, com entressafra e algum atraso no plantio. E o preço de trigo acumulava até o relatório alta de mais de 20% em trinta dias, com baixa qualidade no produto nacional.

Dentre os mercados internacionais mais apertados, um destaque é café, com nova alta de preços no mês. É lembrado que o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês) apresentou nova estimativa de safra para o Vietnã, com números menores. “Além disso, o calor excessivo no Brasil durante a florada pode comprometer a oferta global”, diz o Bradesco.