Economistas destacam tom levemente mais duro da Ata em relação ao comunicado do Fed

Fed tentou reduzir um pouco a expectativa de que o início dos cortes de juros está próximo, devido ao foco que a comunicação pós-reunião deu aos efeitos da política restritiva na atividade econômica

Roberto de Lira

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Os membros do Comitê de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) concordaram que deveriam reconhecer o abrandamento da atividade econômica, após o crescimento em ritmo forte no terceiro trimestre, na sua declaração pós-reunião de política monetária. A afirmação consta na ata do encontro de 13 de dezembro, divulgada nesta quarta-feira (3).

Na ocasião, o Fomc – que reúne dirigentes do Fed (Federal Reserve, banco central americano) decidiu manter os juros na banda entre 5,25% e 5,50% pela terceira reunião seguida.

A Ata até citou que houve uma decisão de incluir na comunicação o reconhecimento de que a atividade havia abrandado após o forte crescimento observado no terceiro trimestre, mas também tomou o cuidado de incluir no texto as incertezas sobre os indicadores econômicos e a manter a possibilidade de uma nova alta nos Fed Funds, caso necessário.  

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Na opinião de Lucas Farina, analista econômico da Genial Investimentos, a Ata de hoje trouxe um viés mais duro (“hawkish”), como esperado, justamente para frear o otimismo exacerbado do mercado, que havia contribuído para afrouxar as condições financeiras à revelia da vontade do Fed.

“Com a melhora recente dos dados de atividade, mercado de trabalho e inflação, o mercado passou a prever quedas de juros já em meados de 2024, em março, uma precificação que segundo até mesmo alguns dirigentes do Fed parece exagerada”, afirma.

Farina lembra que, durante boa parte do ano passado, as condições financeiras mais restritivas, muito por conta do movimento de escalada do rendimento das Treasuries, haviam contribuído para fazer parte do trabalho do Fed de combater a inflação sem que, para isso, a autoridade monetária tivesse que promover altas adicionais na taxa básica de juros.

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Para ele, o Fed busca recuperar o controle das expectativas do mercado por meio da comunicação, ação essa que só é possível pela credibilidade que perante os agentes econômicos, ainda que tenha cometido erros no período da pandemia de Covid-19. “Caso esse movimento do Fed tenha sucesso, a curva de juros voltaria a abrir, ocasionando perdas nos títulos norte-americanos marcados à mercado”, alerta

Para Matheus Pizzani, economista da CM Capital, a balança pende para um comunicado ainda levemente duro frente ao que era esperado pelo mercado, uma vez que as projeções mais positivas para os próximos anos seguem sendo contrapostas por diversas pontuações acerca dos riscos que cercam o cenário base da instituição.

“No balanço feito pelos diretores do Fed, os efeitos defasados da política monetária devem afetar trajetória do PIB dos Estados Unidos nos próximos dois anos, que tende a crescer menos que seu potencial, só retomando a trajetória normal em 2026”, destaca.

Ele cita ainda que essa estratégia de comunicação mostra que mais uma vez o Fed optou pela cautela e parcimônia no que diz respeito à condução da política monetária do país, sem se iludir com dados aparentemente positivos divulgados nos próximos meses e retomando atenção ao desempenho do mercado de trabalho, assim como seus impactos indiretos sobre a dinâmica da inflação de serviços.

“Apontar um possível início do processo de queda dos juros em um cenário como este se mostra uma tarefa difícil, visto que a reversão deste processo tende a demorar mais tempo que o mercado atualmente precifica em termos de início do ciclo de corte de juros nos Estados Unidos, o que abre espaço para eventuais surpresas para os investidores no decorrer do ano”, afirma.

Sávio Barbosa, economista chefe da Kínitro Capital, por sua vez, considerou a Ata relativamente neutra, sem alguma referência mais “hawkish”. “Os debates em relação ao balanço de riscos e a uma possível redução do QT (“quantitative tightening”) podem até ser considerados mais benevolentes”, comenta.

Ele também lembra que os membros do Fomc ressaltaram que o ambiente está mais incerto que o usual e que os dados econômicos e a perspectiva para a inflação serão os determinantes da política monetária.

Para Andressa Durão, economista da ASA Investments, o documento trouxe um tom levemente “hawkish” em relação à comunicação da decisão, ainda citando riscos para inflação e política monetária restritiva por um tempo.

“A Ata mostra que há dúvidas sobre o quanto da normalização das cadeias de suprimentos já ocorreu e indica que o Fomc continuará dependente de dados. Sobre o balanço do Fed, sugere que houve discussões sobre desaceleração do ritmo de redução e quis deixar claro que isso deverá ser anunciado bem antes.”

Esclarecimento

Para Gino Olivares, economista chefe da Azimuth Brasil Wealth Management, o documento publicado hoje ajudou a esclarecer um mal-entendido na coletiva de imprensa de Jerome Powell após a decisão de juros. Na ocasião, ele respondia a um jornalista do canal CNBC sobre  se as condições já estavam dadas para que o próximo movimento do Fomc fosse de corte de juros.. Na sua resposta, Powell afirmou que isso era “natural”, dado o avanço no combate à inflação.

Mas a Ata não trouxe qualquer menção à discussão sobre cortes de juros e só teve um breve comentário sobre o fato que quase todos os membros do Comitê tinham colocado na atualização trimestral das suas projeções econômicas que consideravam apropriado que no final de 2024 a taxa básica de juros estivesse em níveis inferiores ao atual.

Com o acréscimo que, dada a incerteza, não seria possível descartar a necessidade de elevações adicionais da taxa de juros. Isso enquanto alguns membros consideraram que circunstâncias poderiam demandar que a taxa básica ficasse no seu nível atual por mais tempo do que eles mesmos estariam projetando.

“Resulta óbvio que a redação da Ata foi feita justamente para esclarecer o mal-entendido. Mas o que interessa é a mensagem que se quis passar, que foi a seguinte: muito provavelmente haverá cortes de juros em 2024; mas eles não são iminentes”, explica.