Comportamento da inflação em novembro favorece plano de voo do Copom, dizem economistas

Avaliação é que serviços subjacentes e núcleos mostraram dinâmica benigna, embora alimentação no domicilio tenha subido após cinco meses

Roberto de Lira

(Feodora Chiosea/ Getty Images)

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Embora o índice cheio do IPCA-15 de novembro tenha vindo acima das projeções – a prévia da inflação oficial foi de 0,33% no mês, ante mediana de 0,30% – os economistas observam que o comportamento dos preços continua a manter uma tendência benigna, o que favorece  a manutenção do rito de cortes de 0,50 ponto percentual na Selic pelo Copom em dezembro. O principal ponto de alerta, dizem, é a alta dos alimentos, que quebrou um sequência de deflações.

Para Laura Moraes, economista da Neo Investimentos, o IPCA-15 teve uma composição parecida com a do IPCA cheio de outubro, com a quebra de preços livres acelerando puxada pela alta de alimentos, em especial os itens in natura.

“A alimentação no domicílio registrou forte alta, quebrando uma sequência de 5 meses de queda, que refletia uma acomodação nos preços de commodities. Essa alta vem puxada por bens in natura que subiram +5,1% com as chuvas fortes causadas pelo El Niño”, comenta, destacando que essa desinflação de commodities está se dissipando no atacado, indicando que, provavelmente, o melhor momento para a inflação de alimentos já passou.

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Ela cita ainda que o headline de serviços subiu +0,65%, puxado especialmente por uma alta de +19,0% em passagens aéreas, mas que o núcleo dos serviços continuou bastante benigno, com a taxa trimestral anualizada em +3,8%.

“Esses números consolidam um cenário bastante benigno para o BC. Destaque para aluguéis e taxas, que continua vindo abaixo da projeção, com uma alta de +0,3%. Alimentação fora do domicílio também veio baixo, em +0,2%, porém vale o destaque de que essa categoria pode mostrar um comportamento impactado pela Black Friday”, ponderou.

Carla Argenta, economista da CM Capital, também destaca o comportamento do grupo de Alimentos (+0,82% no mês), após 5 meses consecutivos de deflação, mas comenta que isso foi impulsionado por subgrupos extremamente voláteis, como tubérculos (+9,07%) e hortaliças e verduras (+6,14%). “Carnes, que possuem peso relativo elevado, também apresentaram inflação após 10 meses consecutivos de queda nos preços”, observa.

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Dentro grupo Habitação – que passou de uma variação mensal de 0,26% em outubro para 0,20% em novembro – Carla cita que a maior parte dos subgrupos apresentaram movimentos inflacionários benéficos, com pressão menor de reparos, deflação de artigos de limpeza, arrefecimento de combustíveis e energia e aceleração marginal de aluguel e taxas.

No grupo de Transportes (+0,18%), ela cita que só não houve deflação por conta da pressão exercida pelas passagens aéreas. “Itens importantes como combustíveis automotivos, automóveis novos e usados, metrô e trem apresentaram deflação no período”, lista.

Ela também poderá que, embora os Serviços tenham apresentado inflação de 0,65% no mês, acelerando marginalmente ante o resultado anterior (0,63%), por conta das passagens aéreas, os serviços subjacentes mostraram inflação moderada (na casa dos 0,2%).

“Mais do que isso, os serviços cujos preços são afetados pela inércia inflacionária apresentam movimentos positivos e mostram certa estabilidade em patamar perfeitamente compatível com o cumprimento do regime de metas para a inflação”, comenta.

A média dos núcleos acompanhados pela CM Capital acelerou 0,02 p.p. em um mês, de 0,21 % para 0,23%, mas Carla destaca que ela ficou abaixo dos 0,30% pelo 3º mês consecutivo, sinalizando que os movimentos inflacionários mais persistentes e preocupantes estão sendo contornados com sucesso. “Este conjunto de fatores corrobora a hipótese de manutenção da queda nos juros em 50 pontos base no Copom de dezembro”, prevê.

João Savignon, chefe de pesquisa macroeconômica da Kínitro Capital, também diz que, mesmo vindo acima da mediana, a abertura do IPCA-15 de novembro deve ser interpretada como positiva. “Quando olhamos os serviços subjacentes, a alta foi de apenas 0,21%, reforçando a leitura de que a alta do mês se deveu novamente a itens voláteis”, afirma.

Na análise dos núcleos da inflação, ele compara que as surpresas positivas superaram as negativas. “A média dos núcleos ficou em 0,27%, contra uma expectativa de 0,31% do consenso e de 0,32% da gente. Em 12 meses, a média dos núcleos recuou de 4,84% para 4,57%, enquanto a média móvel de 3 meses anualizada de 3,91% para 3,08%”, comenta.

Ele destaca especificamente o núcleo Ex-3, que considera somente os bens industriais e serviços subjacentes, apresentou uma variação de 0,08% no mês e chegou a 4,18% anualmente, com a média móvel anualizada recuando de 2,81% para 1,19%.

“O resultado de hoje veio ligeiramente abaixo da nossa projeção e acima do consenso, mas a abertura do dado reforça a visão benigna do indicador no curto prazo. O desvio em relação a nossa projeção se concentrou em Bens Industriais, com possível antecipação da Black Friday”, afirma

Com as medidas subjacentes e de núcleos permanecendo numa dinâmica positiva,  a Kínitro mantém sua expectativa a condução da política monetária, que é de manutenção do ritmo de cortes de juros de 50 p.b. nas próximas reuniões.

Serviços resilientes

Entre as surpresas e baixa na prévia do IPCA de novembro, Claudia Moreno, economista do C6 Bank, cita a gasolina (-2,25%), que tem um peso importante no cálculo do IPCA-15, contribuindo com -0,11 pontos percentuais do indicador de novembro. “O etanol também caiu 2,49%, ajudando a amenizar a pressão inflacionária de outros itens.”

Para ela, os números mostram que a inflação de bens industriais e a dos núcleos acompanhados pelo BC vêm desacelerando, mas que a de serviços continua mais resiliente. “Enquanto a inflação de bens industriais e dos núcleos do BC são impactadas pela queda dos preços das commodities, a de serviços segue influenciada pelo mercado de trabalho aquecido. Com a taxa de desemprego abaixo da média histórica brasileira, não enxergamos forte desaceleração da inflação de serviços”, alerta.

Claudia lembra que, no acumulado de 12 meses, a inflação de serviços acumula alta de 6%, maior que os 5,4% registrados até outubro. Já a inflação dos núcleos do Banco Central desacelerou nessa métrica, acumulando até novembro alta de 4,6%, menor que os 4,8% medidos até outubro.

“Nossa projeção é que o IPCA termine 2023 em 4,8%, evoluindo para 5,5% em 2024. Esperamos cortes de 0,5 ponto percentual nas reuniões do Copom de dezembro e de janeiro do ano que vem. Projetamos Selic em 11,75% ao final de 2023 e em 9,25% ao final de 2024”, revela.

A visão de Andressa Durão, economista da ASA Investments, também é de um qualitativo de  benigno no IPCA-15 de novembro, com  os serviços sendo pressionados por passagens aéreas, mas com o núcleo desses preços ainda registrando taxas mensais bastante amenas. “Com itens que se repetem e alguns ajustes a partir do IPCA-15, vamos rever o IPCA de novembro para cima. O IPCA de 2023, por enquanto, ainda em 4,5%, e o de 2024, em 4,3%.”

A análise do Santander Brasil é que houve mais uma impressão favorável, que reafirma uma dinâmica de inflação muito benigna no curto prazo, mesmo com o headline surpreendendo para cima ante o consenso do mercado. “A melhor composição em bens industriais compensou o aumento nas passagens aéreas”, comentam Daniel Karp e Adriano Valladão.

Para a Warren Investimentos, as medidas de serviços subjacentes e os núcleos, que buscam capturar a tendência dos preços, desconsiderando distúrbios resultantes de choques temporários, continuam desacelerando consistentemente.