BNDES afirma que concessões vão parar se pagamentos ao Tesouro não forem diluídos

O banco de fomento ainda tem de retornar R$ 22,6 bilhões à União, e pelo prazo original, teria de fazer o pagamento integral neste mês

Estadão Conteúdo

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Publicidade

Ao divulgar os resultados financeiros do terceiro trimestre, na sexta-feira, 17, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) voltou a defender uma revisão do cronograma de devolução de recursos ao Tesouro Nacional. O banco de fomento ainda tem de retornar R$ 22,6 bilhões à União, e pelo prazo original, teria de fazer o pagamento integral neste mês, o que, afirmam seus executivos, reduziria a concessão de crédito.

“Se nós pagarmos R$ 22,6 bilhões agora, isso impacta decisivamente a liquidez. Teríamos de retardar aprovações e parar o desembolso”, disse o presidente da instituição, Aloizio Mercadante, em coletiva de imprensa. Essa paralisação afetaria a todos os setores, do agronegócio aos governos estaduais, de acordo com ele.

O BNDES tem de devolver ao governo recursos que entraram no banco entre 2008 e 2014. Ao todo, os aportes somaram R$ 440,8 bilhões. Somados os juros e a correção, o banco devolveu R$ 689 bilhões desde 2015. Se incluídos aos dividendos pagos anualmente, a União recebeu R$ 798,1 bilhões da instituição nos últimos 14 anos.

Masterclass

As Ações mais Promissoras da Bolsa

Baixe uma lista de 10 ações de Small Caps que, na opinião dos especialistas, possuem potencial de valorização para os próximos meses e anos, e assista a uma aula gratuita

E-mail inválido!

Ao informar os dados, você concorda com a nossa Política de Privacidade.

Em outubro, o BNDES propôs ao governo dividir a devolução do restante em oito anos, em parcelas anuais. O Ministério da Fazenda concordou, mas o cronograma ainda depende de aval do Tribunal de Contas da União (TCU).

Para o banco de fomento, diluir as devoluções é chave para manter o ritmo de expansão da carteira de crédito, que chegou em setembro ao maior valor em mais de quatro anos, de R$ 495,2 bilhões. No terceiro trimestre, o BNDES desembolsou R$ 34,8 bilhões, alta de 18,4% em relação ao mesmo período do ano passado.

Retomada

Continua depois da publicidade

O diretor de Planejamento e Estruturação de Projetos do banco, Nelson Barbosa, afirmou que o BNDES não pretende ir muito além do tamanho relativo que tem hoje, de 7% do PIB, bem distante dos 16% vistos em 2015. Ainda assim, quer expandir a quantidade de crédito que concede. “Esperamos fechar o ano com R$ 119 bilhões em desembolsos”, disse. No ano que vem, a estimativa otimista é de chegar a R$ 137 bilhões.

Em uma perspectiva conservadora, o banco de fomento concederá crédito equivalente a 1,1% do PIB nos próximos três anos. O cenário base pressupõe que o montante chegaria a 1,4% em 2026 e, no mais otimista, subiria a 2% do PIB no final do período.

Postergar os pagamentos ao Tesouro ajudaria, mas o BNDES acredita que o balanço é robusto o suficiente para crescer no médio prazo. O índice de Basileia do banco, medida do colchão de liquidez, estava em 34,4% no final de setembro, mais de 20 pontos porcentuais acima do mínimo exigido pelo Banco Central e bem acima dos grandes bancos comerciais.

O banco teve lucro líquido contábil de R$ 4,9 bilhões no terceiro trimestre, graças a R$ 1,2 bilhão em dividendos que recebeu da Petrobras. O lucro recorrente foi de R$ 2,9 bilhões, alta de 21,3% em um ano.

O diretor Financeiro e de Crédito Digital para MPMEs, Alexandre Abreu, viu uma conjunção rara de fatores neste ano: aumentou a carteira de crédito e o lucro ao mesmo tempo em que a inadimplência caiu para 0,01%. “O resultado mostra alta do desembolso, do lucro e inadimplência em baixa”, disse o executivo.

Sem rivalidade

A retomada também passa pela participação do BNDES no mercado de capitais. Parte dessa atuação é na estruturação de emissões das empresas, atividade em que movimentou R$ 15,5 bilhões neste ano até aqui, mais de duas vezes o volume observado em 2022. No terceiro trimestre, obteve R$ 500 milhões em comissões com o serviço.

Em junho, o banco subscreveu R$ 1,8 bilhão dos R$ 3,8 bilhões em títulos emitidos pela concessionária de saneamento Iguá Rio, o que ajudou a viabilizar a oferta em um período de mercado restrito. Em agosto, ficou com R$ 1,9 bilhão dos R$ 5,5 bilhões em papéis de outra empresa do setor, a Águas do Rio. Ao todo, neste ano, levou ao balanço R$ 10,9 bilhões em debêntures.

Mercadante afirmou que o banco pretende dar mais um passo e fazer a assessoria financeira a ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês). Essa atividade é a joia da coroa nos bancos de investimento, porque paga as comissões mais polpudas, mas têm sido raras. O último IPO na B3 aconteceu em agosto de 2021.

Entretanto, o BNDES reiterou a visão de que não há conflitos entre sua atuação e a dos agentes privados. “Nós estamos aumentando a competição no mercado de emissão. O BNDES ajuda e desenvolver o mercado e a gerar taxas mais competitivas para as empresas”, afirmou Barbosa.

TCU deve votar no dia 29 sobre devolução de R$ 22,6 bi ao Tesouro

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, disse na quinta-feira, 23, que o Tribunal de Contas da União (TCU) deve votar na próxima quarta-feira, 29, sobre a devolução de R$ 22,6 bilhões de recursos detidos pelo banco ao Tesouro Nacional. Pelo prazo original, o pagamento integral termina neste mês, mas o BNDES entrou em acordo com o Ministério da Fazenda para uma postergação, sob o argumento de que o ritmo de desembolsos do banco seria prejudicado.

Mercadante esperava que o TCU aprovasse a revisão no cronograma de devolução dos recursos finais na quarta-feira, 22, mas o assunto acabou não apreciado.

“Nos informaram que vão votar na quarta que vem”, respondeu Mercadante sobre o novo prazo, frisando que a relação do banco com o TCU tem sido “muito colaborativa”. “Eles têm total soberania e autonomia, mas estamos muito confiantes de que teremos uma decisão positiva.”