Ata do Fomc cita efeito defasado da política e prepara terreno para a desaceleração, dizem analistas

Na reunião do dia 2, diretores do Fed ponderaram sobre inflação ainda alta e atividade mais fraca; aposta é que ritmo dos juros será menor em dezembro

Roberto de Lira

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Embora o conteúdo da ata da última reunião do Comitê de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), divulgada na tarde desta quarta-feira (23), não tenha trazido grandes novidades em relação tanto ao comunicado do encontro do dia 2 de novembro como às declarações do presidente do Fed, Jerome Powell, naquele dia, os analistas disseram ter motivos para ficar mais otimistas sobre a redução do ritmo de altas de juros a partir de dezembro.

Marco Caruso, economista-chefe do Original, por exemplo, ponderou sobre duas expressões usadas na ata para se referir às próximas decisões e sobre as discussões a respeito do tamanho da taxa terminal, a que definirá o fim do atual ciclo.

Ele destacou o trecho no qual é colocado que “uma maioria substancial dos participantes julgou que uma desaceleração no ritmo de crescimento provavelmente seria apropriada em breve”, enquanto na discussão sobre o nível final da taxa dos Fed Funds, a expressão usada sobre a incerteza dessa decisão foi “muitos participantes”. Como as comunicações do Fed sempre citam a possibilidade de a duração do ciclo poder ser estendida, a leitura é que “maioria substancial” é mais que “muitos participantes”.

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Na prática, diz Caruso, os formuladores da política do Fed estão sinalizando que estão inclinados a subir a taxa em 50 pontos-base em dezembro, após quatro altas de 75 pontos-base. “Se o Fed está olhando com um pouco mais de carinho para os impactos desfasados da taxa de juros, acaba sendo positivo para ações e para a renda fixa”, disse.

Francisco  Nobre, economista da XP, ressaltou que a ata está desatualizada, visto que não considerou as surpresas baixistas dos dados de inflação de outubro. Ele também citou que as autoridades reconheceram que os riscos econômicos, geopolíticos e financeiros aumentaram, especialmente no trecho que diz que as próximas decisões vão considerar “o aperto cumulativo da política monetária, as defasagens com que a política monetária afeta a atividade econômica e a inflação e os desenvolvimentos econômico-financeiros”.

Mas o trecho mais importante mesmo que a “maioria substancial” dos participantes julga ser apropriada uma desaceleração no ritmo de aumento em breve. “Atualmente, o mercado está precificando que o Fed aumentará as taxas em 50 bps em dezembro, seguido por dois aumentos adicionais de 25 bps, atingindo a taxa terminal de 5,0%. Ainda assim, acreditamos que o Fed vai parar mais cedo”, previu.

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Para Nobre, se os números de novembro e dezembro continuarem sendo benevolentes, o Fed pode fazer uma pausa depois de dezembro com a taxa em 4,5%. Mas “se as pressões inflacionárias persistirem e o mercado de trabalho continuar apertado, provavelmente veremos movimentos sequenciais de 25bps nas próximas reuniões até que os dados comecem a “colaborar”.

Remédio ou veneno

Angelo Polydoro, economista da ASA Investments, a ata mostra que o Fed vê as expectativas ancoradas e que seria hora de começar a ficar preocupado com o risco de manter a taxa muito apertada tanto para o mercado financeiro como para a atividade, ou se “a dose do remédio acaba se tornando um veneno”.

Ele também lembrou que a reunião do Fomc ocorreu antes da divulgação tanto da inflação ao consumidor (CPI) quando do produtos (PPI), dados que foram bastante benignos. “O dado de inflação veio muito em linha como que eles estavam esperando”, afirmou. Segundo ele, os integrantes do Fed indicam que para eles faz sentido desacelerar e começar a pensar mais sobre qual o “destino da viagem”.

Ele também acredita em uma sequência de alta menores, de 50 pontos-base, pelo menos até que a inflação de serviços comece a cair.

Para Leandro Petrokas, diretor de Research e sócio da Quantzed, a ata do Fed veio em linha com o que o mercado esperava, com sinalização de que o fim do aperto monetário está mais próximo.

Ele destacou que o mercado americano interpretou isso de forma positiva, com os índices S&P, Dow Jones e Nasdaq subindo na sequência da divulgação. “No Brasil, o cenário interno continua pesando e a ata não faz tanto efeito. Ainda não dá para falarmos de queda de juros, mas o cenário parece muito mais otimista do que meses atrás”, disse o representante da casa de análise e empresa de tecnologia e educação para investidores.

Para Arthur Mota, economista do BTG Pactual, a leitura inicial de que teve pouca novidade na ata, numa reunião que serviu mais para preparar o terreno para o Fed desacelerar a alta. Ele ponderou que alguns membros comentaram do Fomc alertaram  sobre riscos dos juros altos para a atividade, mas que o balanço de riscos de inflação ainda se mostrou acima do que os diretores esperavam. Além disso, o mercado de trabalho está relativamente apertado, com pressão salarial.