Investimentos em startups

General Atlantic responde: como lidar com a correção de preços de empresas tech?

Gestora que investe em startups na fase de crescimento, inclusive brasileiras, fala sobre desvalorização acionária e revisão de múltiplos das techs

Por  Mariana Fonseca

Os últimos meses mostraram uma correção mundial nos papéis de empresas abertas de tecnologia – e essa revisão está começando a chegar até startups privadas em fase de crescimento, de acordo com a gestora de growth capital General Atlantic.

Durante o evento Founders Summit, representantes da gestora compartilharam como lidam com seus aportes em techs nesse contexto. A General Atlantic tem US$ 80 bilhões sob gestão, inclusive por meio de aportes em empresas brasileiras, como XP, Cetip, Arco Educação, Quinto Andar e Gympass.

O growth capital (capital de crescimento) é uma subdivisão dos investimentos na classe de venture capital e private equity. O capital de crescimento foca em startups maduras, que já encontraram os encaixes entre seus produtos e seus mercados, e agora estão escalando tais soluções.

“A categoria de investimentos de growth representou US$ 15 bilhões na América Latina em 2021. É mais dinheiro do que os últimos 19 anos juntos. Isso mostra o aumento exponencial do interesse por esse tipo de investimento na região”, afirmou Martín Escobari, copresidente do General Atlantic.

Segundo Escobari, o Brasil chegou atrasado para a festa. O interesse em growth mundialmente começou há cerca de cinco anos, e há cerca de um ano e meio apenas no Brasil. Mesmo com o interesse maior dos investidores de growth na América Latina, as empresas abertas de tecnologia no país não escaparam da correção das techs, que acontece desde setembro de 2021. Papéis de companhias de tecnologia com alto crescimento caíram entre 30% e 50%, enquanto as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) foram de um terreno fértil para uma estiagem. Daqui em diante, as startups mais maduras também serão alvos.

A estratégia da General Atlantic

Os mercados públicos fazem correções rapidamente, refletindo a percepção dos donos de papéis. O mercado privado costuma demorar mais para refletir essas correções, dado que as avaliações de mercado são definidas apenas a cada nova rodada de investimento ou evento de liquidez.

“A questão era quando essa correção iria chegar, porque estamos falando disso há três, quatro, cinco anos. Quando chegou muita gente ficou surpresa, mas era esperado. Você via valuations, rodadas e preços irreais. Isso afeta o mercado público num primeiro momento, mas o mercado privado também vai se ajustar”, afirmou Rodrigo Catunda, sócio da General Atlantic.

A gestora não pretende diminuir seu apetite – mas está tomando mais cautela com o tipo de companhia em que investe. Escobari afirma que a General Atlantic toma cuidado com empresas que necessitam de capital intensivo, atuam em setores cíclicos ou em setores com grande dependência dos governos.

Já as companhias que receberam dinheiro do fundo estão diante de uma grande oportunidade, segundo Catunda. “Para quem está capitalizado, o momento vai ser bom para recrutar pessoas, desenvolver serviços e conseguir consolidação. As empresas que não conseguiram caixa nos últimos anos e não querem rodadas abaixo [com menor valuation] vão sofrer nesses movimentos.”

Para Catunda, o momento também é de reflexão para os donos de empresas de tecnologia. “Toda companhia vai ser avaliada em múltiplo de caixa ou lucro em algum momento. Essas sacudidas que o país enfrenta a cada dois ou três anos, e estamos em uma dessas sacudidas, é o momento para os empreendedores voltarem para dentro de casa. Para entenderem seus modelos, seus unit economics, seus planos para chegar até uma companhia rentável. Tudo isso é super importante para termos algo mais consistente em longo prazo.”

O futuro para techs, no mundo e no Brasil

O portfólio de US$ 80 bilhões do General Atlantic teve algumas mudanças em geografias ao longo dos últimos cinco anos. Hoje, 45% do portfólio está em negócios dos Estados Unidos; 15%, Índia; 15%, China; 15%, América Latina e 10% na Europa. “Os Estados Unidos encolheram de 65% para 45%, porque os preços fugiram um pouco do que a gente achou ser realidade. Por outro lado, vimos Índia e América Latina crescerem porque encontramos boas oportunidades, e fomos bem remunerados pelo risco que tomamos”, analisou Escobari.

Quais serão as regiões preferidas daqui para frente? “O mundo está confuso. Nesse contexto, eu gosto de risco Brasil, risco México e risco Índia. São economias que estão num bom momento e têm qualidades específicas. No Brasil, o câmbio está ajudando”, diz Escobari. “China ainda temos que ver. A postura do governo perante o setor de tecnologia e os investidores estrangeiros ainda está se definindo, assim como as restrições americanas à captação de investimentos no país por empresas chinesas. Se tudo isso se resolver positivamente, o que eu espero, a China vai continuar como um grande foco para a General Atlantic.”

Para Catunda, os riscos econômicos, regulatórios e políticos são precificados desde sempre na América Latina. “A cada dois ou três anos, temos um evento que impacta as companhias de alguma maneira no Brasil. (…) Muita gente pergunta se estamos mais ou menos otimistas com o Brasil diante das eleições, e nós estamos iguais. Existem essas barreiras, mas tem tanta oportunidade em longo prazo que as barreiras nos impactam menos. Só funciona investir em países emergentes quando você tem uma estratégia de longo prazo. Os turistas que vêm investir só quando o Cristo está para cima lá na capa da The Economist vão vender no momento errado.”

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