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A reviravolta de uma small cap que rendeu ganhos de 113% na Bolsa - e isso pode ser só o começo

Por muitos anos ignorada pelo mercado, a CSU começa a contar uma nova história na Bovespa, afastando de vez o "fantasma" da Contax

CSU - Ricardo Leite e Renata Oliva
(Divulgação)

SÃO PAULO - Abandonada pelo mercado em meio a um passado turbulento, investidores aos poucos voltam a olhar para as ações da processadora de cartões CSU CardSystem (CARD3), que acumulam neste ano alta de 34%. Da mínima deste ano (registrada em março) até a máxima alcançada dia 20 de maio, a valorização chegou a 113%. As primeiras reações de ânimo vêm após a consolidação do seu processo de reestruturação. A empresa viu em 2015 seu lucro líquido saltar 69%, para R$ 19 milhões. 

A reviravolta ocorre após a empresa amargar anos de dificuldade. Na Bolsa, sua história passa por um IPO (Initial Public Offering) desastrado por conta de uma rusga com a Caixa Econômica Federal em 2006, que provocou um tombo de 90% de suas ações nos dois anos seguintes; e 4 anos depois, a perda de mais um importante cliente, o HSBC, que teve um impacto direto sobre os números do balanço no ano seguinte (em 2013), quando o lucro líquido despencou para apenas R$ 179 mil.

Vendo suas ações derreterem no mercado, a empresa entendeu que precisava se reinventar. A repaginada veio a partir de 2014 com a criação de novas frentes de negócio e um "turnaround" financeiro. Do IPO até aquele ano, as ações da companhia acumulavam queda de 80%.

"Começamos então um trabalho de reposicionamento da CSU para que ela fosse conhecida como uma empresa completa de soluções tecnológicas, com a criação de novas frentes de negócio", explicou a diretora de relações com investidores da CSU, Renata Oliva, em entrevista ao InfoMoney. A mudança foi suficiente para que o lucro líquido saltasse, em 2014, para R$ 11,2 milhões, e a receita bruta aumentasse 12,8%, para R$ 431,1 milhões. 

Apesar dos números melhores, a reação na Bolsa só veio este ano, com o mercado ainda cético sobre a "nova" CSU. Segundo a diretora de RI, esse efeito tardio no mercado pode ser explicado também por conta de um outro estigma que a empresa precisou afastar: ser considerada por anos uma empresa de "call center", setor que historicamente não traz boa rentabilidade.  

Os papéis praticamente não mexeram na Bolsa entre 2014 e 2015, com os investidores ainda fugindo da CSU, com medo que ela se tornasse uma Contax (CTAX3). O que eles não tinham entendido era que ela já não era mais uma empresa de 'call center'; tinha se reinventado", explica Adeodato Volpi Netto, head de mercados de capitais da Eleven Financial, que recomenda o papel desde o fim de 2014. Para quem não se lembra, em 2015, a Contax encerrou como a pior ação da Bolsa, com perdas acumuladas de 95%. 

A transformação da CSU
Sob as orientações de Ricardo Leite, que assumiu a diretoria financeira da empresa nessa transição, a CSU começou a migrar para a área de tecnologia e serviços, empurrando para baixo a participação do segmento de call center. Atualmente, essa área corresponde a 45% da receita da CSU e apenas 7% do seu Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). O grosso do resultado vem da unidade responsável pelo processamento de cartões (chamada CSU CardSystem), detentora de 55% da receita da companhia e 97% do Ebitda. 

A diversificação foi importante não apenas no reposicionamento da empresa, mas também para ajudá-la a atravessar o ano de 2015 sem sofrer os efeitos da desaceleração econômica do País. O "escudo" que acobertou a CSU ano passado veio da CSU Cardsystem, que não só conseguiu proteger a empresa do cenário macroeconômico como também expandiu 22,7% a base cadastrada em relação ao ano anterior. 

Sem depender de um único setor, a companhia conseguiu entregar em 2015 resultados consistentes, ajudando a melhorar a percepção do mercado em relação à empresa, comentou Renata. "Sem depender de um único setor, a empresa conseguiu mitigar os riscos de um cenário econômico instável e o mercado viu isso como muito positivo", disse.  

"A constante entrega de resultados, trimestre a trimestre, permitiu com que os investidores passassem a reavaliar a CSU, suas diferentes e complementares frentes de negócios e a evolução dos resultados entregues", complementou Ricardo Leite. Atualmente, a CSU é dividida em 4 unidades de negócio: CSU Cardsystem, CSU Marketsystem, CSU Contact e CSU ITS (as duas últimas com receitas ainda não tão representativas no balanço da companhia).

O "estalo" do mercado
Embora os resultados positivos da empresa tenham surtido efeito positivo no mercado, a reação das ações na Bolsa só chegou esse ano, após
 uma série de reuniões do departamento de relações com investidores da CSU com investidores em potencial. 

"Temos conversado com fundos que fazem sentido em termos de investimentos. Nos últimos meses, mapeamos e falamos com algumas gestoras e esse trabalho acaba produzindo um giro maior no papel em termos de valores", explicou Renata. Além da expressiva valorização dos papéis (de 113% do fundo de março até 20 de maio), o volume financeiro movimentado com a ação também tem ganhado força nos últimos meses. Enquanto o giro financeiro diário do papel era, em média, de R$ 70 mil, em 2015; atualmente, esse volume saltou para R$ 690 mil por dia.

Embora a empresa não tenha atribuído o movimento a um único investidor, João Paulo Reis, gestor da Venture Investimentos, acredita que ajudou a aumentar o barulho em torno da ação a notícia de que a gestora americana Advent Internacional concluiu, em março, captação de um fundo de US$ 13 bilhões para investir na compra de participação de empresas da América Latina, dentre eles, possivelmente a CSU. Interessante notar que dois dias antes da divulgação da notícia no Valor, em 11 de março, o volume financeiro movimentado com as ações da CSU disparou. Naquela sessão, o giro financeiro atingiu a marca de R$ 4,4 milhões - o maior patamar desde maio de 2012. 

Alta de 34% no ano, mas ainda é pouco...
Apesar da alta de 34% acumulada este ano, a diretoria da CSU ainda acha que as ações estão precificadas abaixo do patamar justo. "Quando analisamos em relação os pares, vemos que a CSU realmente não vem sendo precificada como deveria ser", disse Renata.

Vale mencionar que a arrancada da CSU veio acompanhada, em sequência, por uma forte correção na Bolsa. Após subir 113% do início deste ano até 20 de maio, os papéis da companhia caíram 25% na Bovespa até esta quinta-feira (16), voltando para o patamar dos R$ 4,00. Essa correção, no entanto, não invalida o call de Adeodato, que cobre CSU há dois anos na Eleven e tem como preço-alvo o patamar de R$ 5,33, representando um potencial de alta da ação de 33% em relação ao preço atual.

Ele ressalta ainda que esse seria o preço-alvo "conservador". "A ação tem espaço para ir bem mais longe. Confiamos demais na empresa e se o ambiente de negócios do País melhorar, ela acelera ainda mais. Em termos de fundamento, é uma das melhores ações da Bovespa". 

Para ele, o que ainda "segura" a alta da ação é a falta de liquidez. "A empresa deveria fazer um "follow-on" (uma nova oferta de ações na Bovespa). A ação ainda sofre com o problema de liquidez, o que limita a entrada de muitos fundos, além de o fato de que boa parte do mercado ainda não percebeu a transformação que a companhia passou nos últimos anos", comentou. 

Segundo o head de mercados da Eleven, essa poderia ser uma forma da empresa se reapresentar ao mercado, resolvendo possivelmente junto o problema da liquidez. A empresa, no entanto, tem fugido desse tema por enquanto, com os papéis sendo sobprecificados pelo mercado. "Apesar de poder promover a liquidez, uma nova oferta das ações da CSU, nos atuais patamares de precificação, ainda não faria sentido para a companhia", disse Leite. 

 

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