O retrovisor e o para-brisa

Diretor-geral do Ibmec SP avalia que, apesar do tombo histórico do PIB no 2º trimestre, cenário econômico à frente, sem menosprezar os riscos, se mostra mais promissor

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Por Reginaldo Nogueira*

Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre reforçaram que a pandemia de covid-19 é um dos maiores desafios da história brasileira. A queda do PIB de 9,7% frente aos três meses anteriores nos levou a dois trimestres consecutivos de retração, tecnicamente configurando uma recessão.

É certo que este resultado não se distanciou tanto das expectativas de mercado, nem ficou muito longe do observado em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cuja taxa aponta queda média de 9,8% no período.

Todavia, nunca devemos perder de vista que, quando a pandemia se abateu sobre o País, a renda per capita se encontrava ainda em torno de 7% abaixo do nível observado no fim de 2013. Nossa lenta recuperação após a recessão do biênio 2015-2016 foi tragicamente abortada pela covid-19.

Mas os dados do segundo trimestre representam a visão que temos ao olhar pelo retrovisor. Foram exatamente nos meses de abril, maio e junho que os maiores impactos das restrições econômicas e sociais impostas para o enfrentamento da pandemia foram sentidos. Isso fica claro com as expressivas quedas de 12,3% da indústria e de 9,7% dos serviços, ambos muito afetados pelas medidas de distanciamento social. Na ausência de uma segunda onda de tons mais graves, com novos fechamentos e restrições, as recentes reaberturas e flexibilizações devem levar a algum alívio a esses setores.

Nesse sentido, se deixarmos o retrovisor de lado e olharmos para o para-brisa, o cenário à frente parece melhor, embora não sem riscos e desafios. Há sinais de alguma recuperação no terceiro trimestre, além de expectativas de melhora ao fim do ano, por exemplo, pelos dados das vendas no varejo.

É verdade que as estimativas do relatório Focus, do Banco Central (BC), têm apontado para uma queda do PIB em 2020 entre 5% e 5,5%, mas ainda se espera um 2021 com crescimento superior a 3%, o que seria condizente com esta sensação de recuperação contemporânea. Mas, novamente, na dependência de um alívio constante, ainda que lento, das condições da pandemia. A atenção aos cuidados nos períodos de flexibilização, fundamentais para evitar retrocessos, mostra-se de extrema importância.

Mas, ainda olhando à frente, os maiores desafios que ficam para a economia brasileira, após esse período, são os de natureza fiscal. As medidas adotadas pelo governo brasileiro vieram na mesma direção que as melhores propostas avaliadas ao redor do mundo, atacando o problema da garantia de renda mínima, o socorro emergencial de autônomos e a liberação de liquidez às empresas, no esforço de manutenção dos contratos de trabalho.

Mas todas estas medidas tiveram um custo extraordinário. O déficit fiscal em 2020 deve ficar ao redor de R$ 900 bilhões, puxado tanto pelo aumento de gastos emergenciais quanto pela queda da receita, decorrente da redução da atividade econômica. Em um país onde, nos últimos cinco anos, se debate intensamente o controle do gasto e da dívida pública, a crise provocada pela covid-19 assume contornos dramáticos.

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Certamente, o debate dos próximos anos será o enfrentamento do crescimento do endividamento público, condição indispensável para a recuperação do crescimento de maneira sustentável. É verdade que, com os juros em patamares tão baixos como os observados atualmente, o custo de carregamento da dívida será menor, pelo menos enquanto as condições se mantiverem favoráveis.

Mas esta situação é intimamente ligada à credibilidade das ações relacionadas à manutenção do teto dos gastos e à retomada da agenda de reformas. Em meio ao choque do resultado do segundo trimestre, é preciso olhar adiante e identificar medidas e ações que irão auxiliar a superar não apenas os desafios de curto prazo, mas também aqueles que perdurarão pela próxima década.

*Reginaldo Nogueira é PhD em Economia e diretor-geral do Ibmec SP e DF

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