Democracia é peça-chave para o controle inflacionário no Brasil

Mergulhando na história econômica do País, Heron do Carmo, economista especialista em inflação, aponta que o combate à alta dos preços se deve às eleições diretas
Por  Um Brasil
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Os esforços do Banco Central (Bacen) para que a inflação, atualmente na casa dos dois dígitos, convirja à meta não se resumem ao cumprimento de um objetivo de política monetária. Isso porque o Brasil, historicamente, conviveu com taxas de inflação superiores à média mundial.

Os políticos, por sua vez, não pareciam se importar muito com isso, até que um dia a democracia foi restabelecida, e o controle do nível de preços passou a ser sinônimo de uma administração pública bem-sucedida.

Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, o economista Heron do Carmo, reconhecido com o um dos maiores especialistas em inflação do País, indica que as eleições diretas para presidente da República atribuíram um peso significativo ao combate à alta persistente dos preços e à manutenção do poder de compra da população.

“No Brasil, já no Império, havia uma inflação mais alta. Teve também, nas várias fases da República, uma inflação acima da [média] do resto do mundo. E a partir da Segunda Guerra Mundial, vivemos um processo inflacionário com algumas pequenas interrupções”, conta o economista.

“Acontece que, no Brasil, o objetivo da política econômica não era controlar a inflação, no sentido de reduzi-la. Era controlá-la no sentido de que não tivesse uma tendência persistente de alta muito rápida. Então, foram adotadas aqui políticas gradualistas”, acrescenta.

Na avaliação de Carmo, também membro do Conselho de Economia Empresarial e Política (CEEP) da FecomercioSP e professor sênior da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), a pressão inflacionária deve diminuir nos próximos meses, mas não antes de abril ou maio.

A inflação apresentará um recuo neste ano, mas não ao ponto de influenciar as eleições”

“A inflação apresentará um recuo neste ano, mas não ao ponto de influenciar as eleições”, destaca, sinalizando que, em pleitos passados, o tema beneficiou o candidato à reeleição ou o da oposição.

“O [então] futuro presidente Fernando Henrique Cardoso saiu de suplente do Senado e chegou aonde chegou [com o Plano Real]. O presidente [José] Sarney, que era desconhecido do eleitor, se consagrou na Assembleia Constituinte [de 1987, após o efêmero sucesso do Plano Cruzado]. O [Fernando] Collor acabou sendo eleito numa situação de inflação descontrolada. A reeleição do presidente Lula ocorreu como consequência não só do crescimento, mas de uma inflação baixa”, cita o economista.

Visitando a história econômica do País, Carmo aponta que a leniência com a alta persistente dos preços contribuiu para a desigualdade social, um dos maiores flagelos da Nação.

“Ouso afirmar que uma parte da resistência da desigualdade na sociedade brasileira se deve também ao comportamento da inflação. O País cresceu muito durante um tempo, mas sem que aquilo se refletisse numa redução mais expressiva da desigualdade, em parte justamente devido ao fenômeno inflacionário”, afirma.

De todo modo, olhando o curto prazo, Heron do Carmo diz que o Bacen tem agido corretamente – adotando uma política monetária contracionista, por meio de sucessivas altas da taxa Selic –, de modo a reduzir as perspectivas inflacionárias.

“O fundamental é que a política econômica seja apertada para não permitir que se repita a dose no período seguinte. Do contrário, entra-se num processo difícil de reverter”, explica o economista. “A inflação prevista para 2022, mesmo nas piores expectativas, é muito menor do que a inflação passada. O pior é quando você tem uma inflação alta e a perspectiva à frente é de continuar elevada”, frisa.

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