A criptomoeda do Facebook tem potencial para substituir o dólar?

O projeto está muito bem estruturado, há clara intenção de tornar a Libra open-source, transparente, participativa e aberta à comunidade e à sociedade em geral

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Há algumas semanas atrás, comentei aqui neste post do blog e também escrevi um artigo (em inglês) exclusivamente sobre o que eu esperava da Libra, a criptomoeda idealizada pelo Facebook.

Após o lançamento do whitepaper e demais informações técnicas nesta última terça-feira e após as primeiras reações da sociedade e dos governos, quero compartilhar com vocês as minhas primeiras impressões e rever algumas das minhas apostas.

Mas antes, afinal, o que vai ser a Libra?
Segundo o whitepaper, a Libra é uma criptomoeda “estável” (em relação às principais moedas do mundo atualmente, nominalmente o dólar, euro, yen e pound) emitida como blockchain, lastreado numa cesta de moedas e governada por uma fundação independente.

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O objetivo principal é servir de meio de troca e pagamento global, o “dinheiro da internet”, e para isso, precisa de baixa volatilidade. De acordo com David Marcus, líder do projeto no Facebook e ex-CEO do Paypal, a Libra pode se tornar a fundação de um novo sistema financeiro global não controlado pelos bancos atuais, uma verdadeira mudança de paradigma. Na minha opinião é o primeiro banco central privado do mundo.

Meu objetivo é explorar algumas possibilidades e fazer reflexões sobre o que podemos esperar para o futuro da Libra e deste mercado. Se você ainda não entendeu bem como funciona ou o que é a Libra, há bastante gente explicando, mas recomendo começar pelo whitepaper e pelo site da Libra.

Conforme já deixei claro anteriormente, tenho mais interesse nos impactos econômicos e políticos do que nos aspectos tecnológicos da Libra. Vou me abster de comentar estes aspectos que não domino.

Adoção

Na minha opinião, o grande desafio será transformar a Libra em unidade de conta global. Ou seja, as pessoas passarem a precificar seus produtos, serviços, salários e gastos em Libra ao invés da sua moeda local ou o dólar.

Se os usuários dos grandes e-commerces, market places e apps como o Mercado Livre e Uber (membros fundadores) de fato começarem a utilizar a Libra como moeda referência, já será um grande passo nessa direção.

A minha aposta é que, em menos de três anos, a Libra será a moeda mais utilizada do mundo em quantidade de transferências e em menos de cinco anos será a moeda referência, ou unidade de conta, para a maior parte da população mundial.

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Acredito nisto pois as pessoas em países com moedas frágeis como Argentina, Brasil, Venezuela e Zimbábue perceberão rapidamente que é melhor manter suas reservas em Libra do que em sua moeda local. Em pouco tempo suas economias serão “libralizadas”.

Por que as pessoas irão preferir a Libra?

A Libra é uma tentativa de unir as vantagens das criptomoedas com as vantagens de se utilizar as moedas tradicionais mais fortes do mundo. Ao comprar ou aceitar Libras, os usuários estarão abrindo seus horizontes para o mundo, agilizando suas transações, diminuindo seus custos e quebrando barreiras de negócios. Isto levando em conta que estes usuários já tenham acesso a serviços financeiros e bancários, falarei adiante dos “desbancarizados”.

Como disse no meu artigo sobre a Libra há uns meses atrás, a Libra abrirá as portas a um novo mundo que ainda nem conseguimos saber todas as consequências positivas. Não é apenas a capacidade de enviar e receber dinheiro de forma ágil entre os seus contatos do Whatsapp (apeasr disto já ser muito bom).

Eu acredito que em breve, os usuários da Libra poderão acessar produtos de investimentos globais que eram simplesmente inacessíveis até agora, por exemplo. Ou poderão fazer empréstimos pessoais ou financiar seu imóvel com juros mais acessíveis que em seus países de origem.

Qual o impacto disso para a economia global?

Acredito que começará a acabar a farra de governos e bancos centrais irresponsáveis e as consequências serão extremamente impactantes para todos nós.

Como a cesta de moedas (pelo menos inicialmente) é composta apenas de moedas fortes, pode haver uma fuga de capitais de países que suas moedas não fazem parte desta cesta.

Por que? Na prática, se um brasileiro vender Reais para comprar Libras, estes Reais serão utilizados para comprar a cesta de moedas que servirá de reserva para a Libra, inicialmente USD, GBP, YEN e EUR.

Será que os gestores da Libra Reserve comprarão de volta os Reais para compor o lastro? Não aposto nisso, mas talvez seja parte da negociação com estes próprios países se as autoridades tentarem dificultar ou proibir o seu uso.

E isto pode ser muito danoso para as contas destes governos e para a estabilidade destas economias a curto prazo. Porém, pode também ser muito beneficial para o bolso dos cidadãos destes países, que passarão a ter mais controle sobre suas riquezas e terão mais facilidade em guardar seus recursos em moedas fortes.

Reações negativas por parte dos governos e bancos centrais deverão acontecer, e se um país resolver combater a Libra, proibindo seu uso por exemplo, sua população poderá se revoltar, haverão mercados paralelos, maiores controles de capitais. Receita do caos.

Para dar um exemplo prático, estive na Argentina por algumas semanas no mês passado e tenho plena certeza de que os argentinos serão heavy users da Libra.

Boa parte da economia argentina já é dolarizada, todo argentino sabe o valor de ter reservas estrangeiras e sabe o dano que a inflação causa nos seus patrimônios. É um país com boa penetração mobile, infraestrutura de internet e possuem a comunidade de blockchain/crypto mais desenvolvida da América Latina. Adiós pesos argentinos.

A revolução no mercado de moedas

Concordo com a maioria dos analistas e não tenho dúvidas de que outros gigantes de tecnologia irão seguir a onda e, em breve, teremos mais moedas privadas do que moedas estatais. E isto será ótimo. Apenas espero que lancem suas criptomoedas com conceitos diferentes, não apenas replicando o modelo da Libra.

Particularmente, eu gostaria muito de ver um esforço em tentar diminuir a volatilidade em relação às moedas fiat tradicionais, porém sem necessariamente lastrearem 100% numa cesta de moedas.

Explorei algumas ideias no meu artigo anterior e penso que talvez até a própria Libria Association pode um dia deixar de usar o modelo atual de currency board para um câmbio flutuante.

Acredito que a maior pressão agora será em cima dos bancos centrais, para que eles também entrem no jogo de emitirem suas moedas digitais, o que o mercado chama de CBDC (Central Bank Digital Currencies). Será que em 2020 se inicia a briga dos bancos centrais estatais vs banco centrais privados?

“The unbanked”

No material de divulgação há um apelo para atender os “desbancarizados”. Se isso é estratégia de marketing ou será efetivamente uma expansão dos serviços financeiros comuns à maioria das pessoas nos países desenvolvidos para os países menos desenvolvidos e populações mais pobres, só o tempo dirá. Nos documentos da Fundação há claros incentivos à participação de ONGs com esse foco. Se isto se concretizar, será mais difícil para os governos combaterem a Libra.

Qualidade e seriedade
Para concluir, quero ponderar que apesar do projeto não está concluído ainda, fiquei bastante impressionado com a qualidade. Realmente está muito bem estruturado. Há clara intenção de tornar a Libra um projeto open-source, transparente, participativo e aberto à comunidade e à sociedade em geral.

Minhas dúvidas finais:

– Qual será em média o custo por transação? Como será o retorno/incentivo para quem fizer parte da rede? Poderão usuários comuns fazer parte também?
– Como serão investidos os recursos lastreados? Qual será o impacto na economia global? Serão os retornos distribuídos ou apenas farão crescer o lastro para além do necessário? Se sim, entre quem?
– Dará pra fazer forks? E se a comunidade fizer um fork com um modelo de governança e base monetários diferentes? Será possível criar uma ou mais criptomoedas e distribuir pra mesma base de bilhões de usuários?
– Se as grandes exchanges implantarem a Libra, a eficiência de arbitragem deve melhorar bastante, diminuindo os spreads das cryptos entre exchanges, agilizando o trabalho dos arbitradores. Qual será o impacto disso no mercado de cripto atual?
– Como as instituições financeiras se adaptarão a esta nova realidade?

Em breve continuarei este artigo. Para ficar sabendo dos novos posts, se conecte comigo no Twitter e Linkedin.

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Equipe InfoMoney