De queridinha dos gestores à “esquecida” durante o rali: o que acontece com a CCR?

Ela deveria se beneficiar do cenário de queda de juros, mas desânimo do mercado com leilões impactam negativamente a ação na bolsa

SÃO PAULO – Beneficiada em um ambiente de queda de juros, resiliente e boa pagadora de dividendos, além de boas perspectivas com a retomada da economia brasileira. Contudo, uma queda de 5% no acumulado do ano.

Esse desempenho não seria tão ruim mas, quando comparado com os ganhos de cerca de 12% do Ibovespa no mesmo período, a queda é bastante significativa, assim como o fato de que, no dia do “Joesley Day”, quando o benchmark da bolsa fechou em forte baixa, os papéis fecharam aquela sessão a um valor acima do que estão sendo negociados atualmente. 

Mas afinal, o que acontece com a CCR (CCRO3), antes queridinha por muitos do mercado, e que agora está descolando fortemente da tendência positiva da bolsa? O mercado tem motivos para estar penalizando a empresa na bolsa, ou estamos diante de uma grande oportunidade de comprar uma ação que não acompanhou o rali do Ibovespa?

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Gestores consultados pelo InfoMoney convergem sobre os motivos para o desânimo do mercado sobre a ação, mas divergem sobre o futuro da ação na bolsa no curto prazo. 

Segundo os gestores, as ações estão registrando um desempenho fraco recentemente com os investidores já vislumbrando os fins dos contratos de concessões algumas rodovias com vencimento a partir de 2021(como é o caso da não-prorrogação antecipada da Nova Dutra), além da competição que deve sofrer em leilões de concessões em ativos novos, tornando mais difícil crescer com rentabilidade. Já no curto prazo, alguns dados de tráfego de rodovias mais fracos do que o esperado impactaram o papel.

Porém, uma das questões (e na qual reside uma das divergências de avaliações entre os gestores) trata sobre um certo “desânimo” de muitos investidores sobre a companhia ao longo do tempo. “É importante entender o histórico do valuation da CCR. O papel sempre foi caro porque o mercado sempre viu a empresa como bem disciplinada e pagou por crescimento lá na frente”, aponta um gestor que não quis se identificar e que não está mais posicionado no papel.

Ele ressalta que a avaliação recorrente era de que a companhia iria crescer de forma rentável nos próximos anos.  Contudo, aponta, o que se viu na realidade foi bem diferente. “A empresa fez leilões bem ruins”, diz ele, citando a MSVia, que trata da duplicação do trecho sul-mato-grossense da BR-163, a expansão e modernização do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins (MG), o metrô de Salvador, com a CCR Metrô Bahia e, por fim, a implantação do VLT carioca. 

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Além disso, a empresa errou na gestão do passivo durante a crise, culminando no aumento de capital de R$ 4 bilhões, ressalta, citando a operação concluída no começo do ano passado. Na época, a avaliação que se fazia por parte dos investidores é de que a oferta de ações, mesmo que ruim no curto prazo, seria positiva por que capitalizaria a companhia para a disputa dos próximos leilões.

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“Contudo, a percepção é de que [os estrangeiros] não veem mais tanta graça no case de investimentos e viram que os leilões estão bem mais concorridos do que antecipado pela empresa, gerando retornos ruins”, afirma. 

O que esperar daqui para frente?

Em um cenário de fraqueza das ações e desconfiança do mercado, há duas visões bastante distintas sobre o que esperar para os papéis da companhia daqui para frente. 

Mais otimista, um dos gestores, que possui exposição em CCR, ressaltou que o mercado já incorporou essas notícias ruins. O valuation atual, aponta ele, não incorpora alguns fatores que podem levar à valorização dos papéis, como tráfego maior por conta do PIB mais forte em 2018 [expectativa do mercado, segundo o último Focus, é de alta de 2,80% do PIB em 2018], a queda do custo de dívida decorrente da queda do CDI e eventuais novos bons investimentos. 

Já o gestor anterior aponta que, ao fazer uma análise relativa dos papéis, há outros ativos que, mesmo com características um tanto diferentes no âmbito em seu case de negócios, podem fazer mais sentido possuir na comparação com a CCR, como é o caso da Transmissão Paulista (TRPL4), que é um negócio regulado e conhecido pelas suas margens altas. 

“Quanto aos fundamentos, não vejo nenhum catalisador muito óbvio para a CCR. Por mais que ela vença alguma concessão no curto prazo, o que se vê pela frente não é tão relevante assim para o valuation. Ela teria que levar algo muito grande para fazer algum sentido – como uma Invepar – e ela está um pouco distante disso atualmente, não é tão óbvio para ela”, afirma ele.

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Além disso, aponta, a companhia também tem o imbróglio com o governo de São Paulo relacionado à Autoban, que possui maior impacto no valuation. A queda de braço entre o governo paulista e a empresa ganha destaque no mercado, em meio às declarações de que o Palácio do Bandeirantes estuda relicitar o sistema de rodovias ao antecipar o fim da concessão, em uma disputa judicial que se arrasta desde 2011.

Se não há um catalisador claro no curto prazo, por outro lado, avalia ele, é possível que haja uma recuperação em termos técnicos, o que pode fazer a ação ter uma leve alta em meio à baixa forte recente, mas nada que gere maior ânimo no curto prazo. 

Mesmo sem um catalisador visível no curto prazo, para o investidor em CCR, vale ficar atento aos números do quarto trimestre a serem revelados nesta quinta-feira (22), depois do fechamento do mercado, com teleconferência na próxima sexta-feira (23) às 11h (horário de Brasília). 

De acordo com o Bank of America Merrill Lynch, que possui recomendação de compra para os ativos CCRO3 com preço-alvo de R$ 19 (um potencial de valorização de cerca de 30% frente o fechamento da última sexta-feira), a companhia deve registrar um resultado de boa qualidade, beneficiando-se do crescimento do tráfego, uma maior contribuição dos números do aeroporto de Belo Horizonte e do metrô de Salvador e também do impacto da queda da Selic no resultado financeiro. A expectativaé de uma alta do tráfego de 4,4% no quarto trimestre na comparação anual, fechando o ano com alta de 1,2%, enquanto a receita consolidada deve subir a R$ 2,16 bilhões nos últimos três meses do ano passado, alta de 14%. Assim, ao olhar para a forte queda dos papéis, o BofA avalia que esta é uma boa oportunidade para entrada nos papéis. 

Dessa forma, em meio a divergências sobre qual será o futuro da CCR na bolsa, vale ficar atento não somente ao balanço da companhia, mas também ao desenrolar dos imbróglios que a empresa tem em relação a concessões – e o que ela fará com os bilhões que captou no ano passado. 

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.