Silver lining: o legado positivo que a crise pode deixar

Por mais difícil que seja, é importante tentar enxergar além e buscar oportunidades em meio ao caos

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Gosto muito da expressão em inglês silver lining. Metáfora para o otimismo, ela quer dizer que é possível encontrar pontos positivos mesmo em situações bastante adversas.

A expressão, que deu nome a um filme com oito indicações ao Oscar (“O Lado Bom da Vida”, na versão para o Brasil), surgiu em 1634, quando o poeta inglês John Milton disse ver um fundo prateado (um silver lining) em uma nuvem negra, em sua obra “Comus: A Mask Presented at Ludlow Castle”.

Ao analisar o aspecto puramente econômico da tragédia provocada pela pandemia do coronavírus, podemos dizer que a queda da inflação é a silver lining da crise.

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Uma inflação baixa permite que a nossa taxa de juros atualmente fique em torno dos 2% – enfim, o dinheiro dos investidores brasileiros vai sair de uma quarentena de décadas na renda fixa.

Estamos tão imersos em notícias negativas sobre a crise econômica provocada pelas quarentenas que nem percebemos o poder transformacional que uma taxa de juros tão baixa pode ter quando a doença passar.

É importante lembrar um pouco do passado e tentar se afastar, na medida do possível, dos problemas presentes, para conseguirmos imaginar o futuro.

O Brasil sempre foi conhecido por ser um país com uma das taxas de juros mais altas do mundo. Por anos, o país tentou combater a inflação por meio de inúmeros planos econômicos furados, trocas de moeda inúteis e juros galopantes.

Isso para não mencionar as mais diversas aventuras desastradas dos nossos políticos, além de invencionices como congelamentos de preços e contas e indexações.

Ufa! Depois de lembrar de tudo isso, começo até a pensar que não estamos tão mal como poderíamos, certo? Como disse, recorrer ao passado e tentar abstrair o presente pode ser um exercício gratificante.

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É certo que nosso momento presente, no campo econômico, está longe de ser o ideal. Temos um problema fiscal enorme para enfrentar, e falar da necessidade das famosas reformas estruturais, como a administrativa e a tributária, já é chover no molhado.

Imagino que você também já está cansado/a de saber sobre a urgência de endereçarmos essas pautas – se bem resolvidas, elas trariam um cenário muito melhor, em termos fiscais, para o país.

Mas sabemos também que a aprovação delas é um desafio enorme, especialmente em meio a tantas crises políticas e sanitárias. Logo, isso se torna algo que está fora de um cenário possível, pelo menos neste ano.

Voltando à questão dos juros: estes, sim, hoje em patamar mais baixo, têm o poder de tirar o nosso dinheiro da inércia e incentivar a migração para ativos de maior risco, buscando melhor rentabilidade.

Na economia real, juros mais baixos fazem um trabalho incrível: incentivam o capital, que antes estava parado, a ir trabalhar.

Também fazem o dinheiro procurar alternativas para render, ao incentivar empreendedores a investir em negócios reais, em busca de um retorno adequado para seu capital, e fazer investidores migrarem de uma renda fixa ineficiente para novos negócios, propiciando que os consumidores peguem empréstimos de longo prazo a taxas “pagáveis”.

Estes podem virar um imóvel novo, por exemplo, o que, por sua vez, significa mais empregos na construção civil. E assim a roda começa a girar.

Em meio ao caos, é importante que a gente consiga enxergar além. As finanças comportamentais já nos ensinaram que o ser humano tende a perpetuar as situações e sentimentos.

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Temos a tendência de encarar um estado positivo de otimismo como se nunca mais fosse ocorrer uma crise, mas também ver a crise como nosso triste fim, como se nunca mais as coisas fossem voltar ao normal.

Mas, como diz o famoso provérbio: “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”.

Como analista de investimentos há quase 15 anos, preciso dizer que acho que nunca vivenciei um cenário tão interessante para investimentos em renda variável para quem tem um horizonte de longo prazo.

Lembro que a esperança de ter 5 milhões de investidores na Bolsa parecia algo inatingível.

Não poderia ser diferente: qual era o sentido de sair de um rendimento de mais de 15% ao ano, praticamente sem risco, para enfrentar a volatilidade da Bolsa?

Agora, a realidade bateu à porta. A rentabilidade obtida nas aplicações de renda fixa talvez nunca mais seja a mesma, e muita gente já percebeu isso no bolso.

Aliás, isso fica muito claro quando observamos o crescimento no número de investidores na Bolsa divulgado pela B3: ele aumentou quase 80% nos últimos 12 meses.

Mas muita gente ainda precisa acordar para essa nova realidade no universo dos investimentos.

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Mesmo com todo o crescimento, o número de investidores na Bolsa equivale a menos de 1,5% da população total de brasileiros.

O caminho em direção às empresas por meio do investimento em ações já foi traçado em muitos outros países que não tinham taxas de juros estratosféricas como o nosso. Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 65% da população investe em ações.

Ou seja, a migração para a Bolsa é um caminho óbvio, e um mercado de capitais desenvolvido é peça fundamental para o crescimento de uma economia.

Agora, toda essa gama de novos investidores em renda variável precisa, sobretudo, entender como funciona este novo mundo, descobrir o prazer de ser sócio ou sócia de empresas.

Mas também deve se acostumar com a volatilidade da Bolsa no curto prazo. Ela, que pode ser assustadora para os iniciantes, e é encarada como oportunidade por investidores já experientes.

Alegro-me muito em participar dessa tarefa de recepcionar os novatos no fascinante universo das ações.

Hoje na Spiti, como analista de investimento, sinto que estou contribuindo para que os novos entrantes façam essa travessia de um mundo de investimentos em renda fixa, onde o esforço era menor e o retorno vinha em linha reta, para um mundo de investimentos em ações, que tem curvas sinuosas e escaladas emocionantes.

Para todos os que estão chegando agora, meu recado: sejam muito bem-vindas e bem-vindos. E, se precisarem, segurem na minha mão.

O caminho pode ser mais difícil, mas a vista lá de cima é gratificante.

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Cristiane Fensterseifer

É analista fundamentalista de ações da Spiti, CNPI, e acompanha a Bolsa profissionalmente há mais de 15 anos. É formada em Administração de Empresas e Contabilidade pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalhou em bancos de investimentos e corretoras de valores desde os 19 anos. Hoje, tem como missão permitir que todos consigam investir de forma inteligente e conquistem uma melhor qualidade de vida futura com isso. E, claro, também mostrar que investir em ações pode ser muito simples, por isso quer desmistificar risco e medo em relação ao mercado que tanto existe por aí.