Elon Musk, foguetes espaciais e a política fiscal brasileira

O ajuste dos gastos do governo diante da crise deve seguir um cálculo parecido com o utilizado pelos peritos da Nasa. Afinal, a linha entre quicar, explodir e entrar suavemente na atmosfera terrestre é tênue, e tudo pode ir pelos ares

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
(Bill Ingalls/NASA via Getty Images)

O último sábado foi marcado por um evento muito importante para a humanidade. Talvez, ao olhar para o fato hoje, seja difícil de perceber a importância de tal evento, mas eu queria trazer essa reflexão para você.

No dia 1º de agosto de 2020, dois astronautas da Nasa, Robert Behnken e Douglas Hurley, pousaram na Terra, mais especificamente no Golfo do México, no Oceano Atlântico.

A missão marca o primeiro envio de humanos para o espaço – com retorno para o nosso planeta em segurança, o que é mais importante, claro – por uma companhia privada, a SpaceX.

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Para quem não sabe, a empresa foi fundada por uma figura polêmica, mas nem por isso podemos deixar de considerá-lo um gênio. Sim, estou falando do bilionário Elon Musk, que também é CEO da Tesla Motors.

O fato é que o retorno da cápsula à Terra é um evento marcante, pois dá o pontapé inicial à corrida pelas viagens espaciais comerciais e também ao turismo espacial.

Já existem planos de viagens à Lua e até mesmo de criação de um hotel de luxo dentro da ISS, a Estação Espacial Internacional.

Um dos momentos de maior apreensão de toda a jornada é o da reentrada da cápsula espacial na atmosfera terrestre.

A cápsula, que não só abrigava os dois astronautas, mas muitos outros sonhos e futuras descobertas, deveria ser capaz de suportar uma velocidade de 27.000 km/h e uma temperatura superior a 2.000ºC.

As contas necessárias para que tal feito seja possível levam em consideração a velocidade de rotação da Terra, a velocidade de translação do planeta, a força de resistência do ar, a gravidade e muitos outros aspectos.

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Mas o ponto mais interessante talvez nem tenha passado pela sua cabeça: o ângulo de entrada na atmosfera terrestre é muito importante para o sucesso da missão.

Ele não pode ser muito agudo, ou seja, a entrada não pode acontecer em uma trajetória completamente vertical. Isso porque a força G gerada nesse movimento poderia ser fatal para os astronautas.

Além disso, o atrito com o ar (pasmem) poderia fazer a cápsula explodir – lembre-se de que estamos falando de uma velocidade de 27.000 km/h.

Muito menos o ângulo poderia ser muito “raso”, ou seja, bem paralelo à superfície terrestre.

Nesse caso, existiria o risco de a cápsula literalmente quicar na atmosfera terrestre e voltar ao espaço, desgovernada e a milhares de quilômetros por hora, sem combustível nem maneira possível de que sua rota fosse corrigida e trouxesse os astronautas de volta para casa.

Existe, portanto, uma linha muito tênue entre ingressar com sucesso na atmosfera e explodir a cápsula em milhares de pedaços, o que enviaria os astronautas para uma viagem sem volta.

E é por isso que as melhores cabeças e máquinas do mundo trabalham para que os cálculos sejam feitos de uma maneira precisa.

Há outro fato atualmente que me lembra bem da necessidade de um cálculo ser feito com cuidado, a fim de evitar ou uma reação muito brusca, ou tão leve a ponto de não atingir seu objetivo: os gastos do governo brasileiro para enfrentar a crise econômica causada pela Covid-19.

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O Brasil hoje está em um entrave.

Como a taxa de juros parece estar próxima do seu limite inferior – ao menos os indícios mostrados pelos membros do Banco Central, tanto diretores quanto presidente, vão bem nessa linha –, existem poucas outras armas para enfrentar a recessão causada pela pandemia do novo coronavírus.

A principal delas é a política fiscal, ou seja, um aumento no nível dos gastos públicos para fazer frente a uma queda no nível de atividade no país.

O exemplo clássico de como o aumento dos gastos do governo ajuda a reduzir a queda na atividade é o auxílio emergencial no valor de R$ 600, pago aos cidadãos em situações mais vulneráveis.

Com essa ajuda, as pessoas continuam pagando suas contas de água e de luz, comprando seus alimentos básicos, além de manterem um nível de consumo de subsistência, o que ajuda a segurar uma queda maior da atividade econômica.

Além do auxílio emergencial, também podemos citar o afastamento de funcionários dos quais o governo federal continuou pagando o salário por ao menos três meses – medida extremamente necessária para que as micro e pequenas empresas pudessem passar pelo pior momento da crise econômica com os custos reduzidos, evitando, assim, que grande parte delas viessem a quebrar.

Essas duas medidas só foram possíveis com um aumento muito expressivo dos gastos públicos.

A pergunta, portanto, seria: “Guilherme, se o aumento dos gastos públicos pode fazer com que o impacto negativo na economia seja reduzido, por que não aumentar ainda mais o volume de gastos e postergá-los por mais tempo?”

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A resposta é bem simples: porque o dinheiro, infelizmente, é limitado.

Se um país gasta mais do que arrecada em impostos, ele tem um déficit. Para cobrir esse déficit, ele precisa emitir títulos públicos, títulos de dívida, ou seja, pegar dinheiro emprestado de alguns investidores.

A taxa cobrada por esses investidores depende basicamente do risco de o país não ter a capacidade de pagar esse recurso de volta no vencimento do título.

Quanto maior a incerteza do investidor em relação à capacidade do país de pagar seus recursos de volta a ele, maiores as taxas cobradas e, assim, maiores tendem a ser as taxas dos títulos – e o inverso é verdadeiro.

E o que poderia ser um sinal do aumento da incerteza dos investidores? Um aumento no nível do endividamento público.

O Brasil iniciou o ano de 2020 com uma dívida pública de aproximadamente 70% do PIB, ou seja, tínhamos uma dívida que equivalia a 70% de tudo o que produzíamos em um ano inteiro no país.

Prevemos hoje que vamos encerrar o ano com esse mesmo indicador perto de 100% do PIB, ou seja, o Brasil vai ter uma dívida no valor de todo o montante dos bens e serviços que produz em um ano inteiro, o que é um nível realmente muito alto.

Até aqui, esse aumento foi, de certo modo, “suportado” pelo investidor, que ainda não vê grandes riscos de que essa dívida se torne insustentável, ou seja, de que ela se torne tão grande a ponto de não conseguirmos pagá-la.

Talvez você se pergunte também: “Guilherme, mas isso não ocorreu com os outros países também? Não é normal em época de pandemia?”

Para você ter uma ideia, em julho deste ano, o governo brasileiro mantinha um nível de gastos para o combate à desaceleração da economia de 7,5% do PIB, enquanto a média dos países desenvolvidos era de 5,8% do PIB e a média dos emergentes, de 4,1% do PIB, muito inferior aos gastos brasileiros.

Além de estarmos gastando muito mais do que outros países para enfrentar os impactos da recessão causada pela Covid-19, já saímos de um ponto de partida bem pior. Ou seja, já estávamos com uma dívida com relação ao nosso PIB maior do que nossos pares emergentes, como México, África do Sul e Turquia.

O tema dos gastos vem aos holofotes novamente porque cada vez mais o Congresso Nacional estuda a prorrogação de situação de calamidade pública no país para o ano de 2021, justamente para que os gastos públicos possam ser financiados via aumento de dívida pública.

A minha opinião é que os gastos públicos devem seguir mais ou menos o princípio da reentrada da cápsula Endeavor da SpaceX na atmosfera terrestre: se aumentarmos demais esses gastos – e, consequentemente, o nosso nível do endividamento – nos próximos anos, corremos o risco de “explodir na entrada da atmosfera”.

Porém, se eles não forem suficientes para sair da recessão em um ritmo razoável de atividade, podemos não sentir os efeitos de uma recuperação mais rápida e demorar anos para retomar a atividade perdida nesse período.
Esse cálculo deve ser, assim como o feito pelos peritos da Nasa, exato.

A cápsula chamada Brasil aponta cada vez mais para uma entrada verticalizada, conforme o Congresso mostra a cada dia sua intenção em aumentar o volume de gastos públicos, e não em controlá-los, a fim de estabilizar nossa situação.

Com esse ângulo de entrada, infelizmente, acredito que o risco de um acidente grave acontecer na nossa economia é bem grande.

Abraços,

Gui Cadonhotto

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Guilherme Cadonhotto

Especialista em renda fixa da Spiti, técnico em Administração de Empresas e bacharel em Economia. Atuou na mesa de operações como trader de renda fixa na SulAmérica Investimentos e como analista de investimentos na asset da Porto Seguro. Acredita que simplicidade e bom humor, sempre presentes em suas publicações e vídeos, são essenciais para tornar a informação e a compreensão dos conteúdos de investimentos mais acessíveis a todos.