Como não se deixar enganar pelo seu próprio cérebro?

Na maioria das vezes, nosso maior inimigo na hora de investir somos nós mesmos

Aline Tavares

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Desde que entrei na faculdade de Economia todas as matérias que abordavam algum modelo econômico sempre vinham acompanhados da seguinte frase: “A premissa do modelo é de que os investidores são racionais”.

Os modelos neoclássicos estudados pregavam, por exemplo, que os investidores eram sempre avessos ao risco, escolhiam as opções mais seguras e detinham todas as informações disponíveis no mercado.

Eu sempre achei aquela frase meio óbvia, já que nós, seres humanos, somos racionais, ainda mais quando se trata de dinheiro, economia e afins.

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Mas descobri logo depois que não era bem assim.

O óbvio só durou até eu me deparar com as matérias de finanças e investimentos e conhecer um assunto extremamente interessante, que me fez repensar e reavaliar todos os paradigmas estudados até então: finanças comportamentais.

No fim da década de 1970, os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky desenvolveram em conjunto de importantes estudos relacionados à tomada de decisão dos investidores — que renderam a Kahneman o prêmio Nobel de Economia em 2002.

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Esses estudos surgiram quando os pesquisadores começaram a perceber que as explicações racionais não bastavam para justificar o comportamento humano na área de finanças.

Por meio de testes e análises dos resultados obtidos, os dois especialistas concluíram que os investidores até aceitavam correr um pouco mais de risco, desde que fosse para evitar que perdessem dinheiro. Eles perceberam que as emoções ligadas ao medo da perda afetavam, e muito, a forma que os investidores entrevistados tomavam suas decisões.

Posteriormente, foram desenvolvidos outros artigos acadêmicos unindo psicologia e economia para ajudar a compreender a parte humana da tomada de decisão, como os desenvolvidos por Richard Thaler e Herb Simon, que também ganharam um prêmio Nobel por causa do assunto.

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A ideia central de todos eles é trazer a crítica sobre os mercados eficientes e tentar humanizar as escolhas e os caminhos dos investidores.

O fato é que todos nós somos munidos de sentimentos e instintos, e, comprovadamente, não somos capazes de manter a racionalidade o tempo todo. Tomamos decisões e fazemos escolhas a partir daquilo que é importante em determinado momento. Naturalmente, para cada escolha que fazemos, renunciamos a algo. Não temos e jamais teremos a quantidade total de informações completas do mercado para avaliar todos os riscos que podemos correr.

Então, por meio dos estudos sobre o tema, foram identificados alguns vieses comportamentais mais comuns nos quais nós, investidores, incorremos na hora de investir.

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Vou tentar te ajudar a identificá-los e mostrar como não se deixar levar por eles.

Viés da confirmação

É um ato inconsciente em que tentamos buscar referências, informações e fatos que reafirmem nosso ponto de vista, ignorando ou desconsiderando opiniões contrárias.

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No mundo dos investimentos, esse viés é bem perigoso porque, ao pesquisar oportunidades, o indivíduo só se baseia naquilo que apoia suas crenças, ficando com uma visão parcial da situação.

Como se prevenir? Tente sempre buscar o máximo de informações possível, de diferentes fontes, ouvir opiniões distintas da sua e, principalmente, lembrar-se de manter a humildade e entender que está tudo bem em mudar de opinião sobre algo.

Excesso de autoconfiança

É quando superestimamos ou exageramos nossa percepção na capacidade de execução de alguma tarefa.

Em geral, a pessoa sente euforia, tem a sensação de invencibilidade e faz uma exposição exagerada aos riscos. No momento de investir, o excesso de confiança pode prejudicar sua capacidade de escolha, pois pode te levar a subestimar os riscos associados àqueles investimentos, além de poder acabar te levando à não diversificação da sua carteira.

Como se prevenir? Reconheça suas limitações como investidor ou investidora, tenha humildade para reconhecer e assumir os erros, converse com outras pessoas sobre a sua estratégia, defina seus limites de riscos e procure sempre diversificar.

Ancoragem

É a tendência que temos em nos basear em uma informação do passado e considerá-la fortemente na tomada de decisão ou na formulação de estimativas, independentemente de sua relevância para o que é decidido ou estimado.

É muito comum que as pessoas influenciadas por esse viés se “ancorem” nos valores de compra de uma ação para tomar a decisão de manter o investimento ou de se desfazer dele.

O efeito resultante pode ser a manutenção de uma posição perdedora à espera de uma recuperação até o preço original, mesmo que as perspectivas futuras não indiquem tal possibilidade.

Como se prevenir? Procure não associar suas análises a preços ou cotações históricas; busque pensar nos fundamentos e perspectivas do ativo; questione suas premissas, certificando-se de que sejam realmente relevantes para a tomada de decisão e de que não sejam utilizadas apenas para suprir uma possível lacuna de informação.

Efeito manada

É a tendência de as pessoas fazerem algo porque outras estão fazendo, não importando as razões ou evidências.

Alguns motivos justificam esse comportamento, como (i) o desejo natural de ser aceito pelo grupo; (ii) a impressão de que o movimento da maioria não pode estar errado; (iii) pânico de um estresse de mercado, por não suportar a dor da perda; e (iv) o medo de estar de fora do movimento, o famoso FOMO (“Fear Of Missing Out”).

Como se prevenir? Trace seu objetivo em relação ao investimento; entenda os fundamentos; aprenda a realizar suas próprias análises ao tomar suas decisões; utilize mais a razão do que a emoção; e mantenha seu horizonte de investimento de longo prazo, dado que as desvalorizações eventuais no curto prazo são compensadas com os fundamentos ao longo dos anos.

Vale ressaltar que existem outros vieses de comportamento além dos que foram apresentados aqui. Mas acredito que esses sejam os mais comuns e aqueles que nos fazem cair com mais facilidade em algumas tomadas de decisões pouco favoráveis aos nossos investimentos.

Muitas vezes pode ser difícil não se deixar levar pelos vieses. Mas lembrar que eles existem já é o primeiro passo para começar a mudar sua mentalidade em relação aos investimentos e tomadas de decisão.

Sempre questione todas as suas escolhas, busque diversas fontes de informações, foque no longo prazo e diversifique seus investimentos. Sabemos hoje que investir não se resume totalmente à utilização da racionalidade. Mas entender os caminhos e as “peças” que seu cérebro pode te pregar é fundamental para se aprimorar e tomar melhores decisões de investimentos.

Abraços,

Aline Tavares

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Aline Tavares

Aline Tavares é analista de ações da Spiti. Analista CNPI e formada em Economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), tem MBA em Finanças pelo Ibmec-RJ e MBA de Gestão de Investimentos pela PUC-Rio. Atuou na área de análise fundamentalista da Ágora Corretora e, por quase sete anos, esteve na área de gestão de investimentos do Infraprev, o fundo de pensão da Infraero. Acredita que conhecimento tem que ser compartilhado e, consequentemente, o acesso aos investimentos, democratizado. Tem como missão desmistificar a Bolsa de Valores e mostrar que todo mundo pode, sem medo, investir em ações.