Risco no mercado de títulos públicos: ele existe?

Sabemos que o investimento em títulos públicos tem se tornado cada vez mais popular entre pessoas físicas.

(*) Por Luciana Maia Campos Machado

Sabemos que o investimento em títulos públicos tem se tornado cada vez mais popular entre pessoas físicas. Especialmente desde 2002, quando o Tesouro Nacional criou o programa do Tesouro Direto, similar ao Treasury Direct que existe nos Estados Unidos.

Antes disso, investidores individuais somente podiam aplicar recursos em títulos públicos por meio de fundos de renda fixa, que por vezes possuíam custos de entrada, na forma de valores mínimos de aplicação, além de taxas de administração que por vezes “comiam” boa parte do rendimento dos títulos.

PUBLICIDADE

Mas se eu investir no Tesouro Direto, corro algum risco?

Primeiramente, vamos definir quais os tipos de rendimento dos títulos públicos disponíveis para negociação. Existem títulos prefixados e títulos pós-fixados. Os títulos prefixados possuem taxa contratada no momento do investimento, ou seja, no instante em que você está fazendo o investimento saberá exatamente quanto o título vai render, na forma de um número (10% ao ano, por exemplo) enquanto os pós-fixados possuem rendimento indexado à inflação ou à taxa Selic, acrescido a uma taxa contratada, de forma que no momento de investir o que você observará como rendimento é algo como “IPCA + 3%” ou “Selic”, com o título rendendo então até o vencimento aquilo que essas taxas renderem.

Definidos os tipos de rendimento, passamos ao pagamento da remuneração dos títulos, que pode acontecer somente no vencimento (juros e principal são pagos apenas no vencimento) ou semestralmente (juros, creditados na conta do investidor por meio de “cupons”) + no vencimento (crédito do principal).

Se investirmos, por exemplo, em um título prefixado que não paga cupons, saberemos exatamente a taxa de remuneração a ser recebida no vencimento, certo?

Resposta: Sim. Correto.

Logo, não corremos qualquer risco investindo em uma LTN [Tesouro Prefixado]?¹.

PUBLICIDADE

Resposta: Sim, mas somente se não precisarmos vender os títulos antes do vencimento. Se for necessário se desfazer do título antes do vencimento, aí pode sim haver riscos. Vamos ver porquê.

As LTNs funcionam assim: se eu compro um título com vencimento para daqui a 5 anos, ele será comprado hoje por um valor menor que R$ 1.000,00 (R$ 600,00, para exemplificar. A esse preço chamamos “PU”) e será resgatado no vencimento por R$ 1.000,00. A diferença do PU para o valor de resgate será minha remuneração (R$ 1.000,00 – R$ 600,00 = R$ 400,00, em nosso exemplo). Assim, a rentabilidade do título é ditada pela diferença entre o preço unitário de compra (PU) e o valor de face.

Vamos analisar juntos então dados reais históricos de uma LTN, cujo vencimento se deu em 01/01/2018. Como dissemos, este tipo de título é vendido com um desconto em relação a seu valor de face, que é de R$ 1.000,00 no vencimento.

Se alguém adquiriu no dia 10/01/2014 essa LTN, pagou R$ 623,10 pelo direito de receber, em 01/01/2018, R$ 1.000,00 – uma rentabilidade anual de 12,70% a.a.

Mas e se a pessoa precisou resgatar esse investimento antes do vencimento? Nesse caso ela esteve sujeita à marcação a mercado. O preço de mercado dos títulos sofre variação diária, de acordo com as expectativas do mercado. Abaixo temos um gráfico (feito com dados reais) demonstrando as variações que ocorreram no preço unitário do título entre 10/01/2014 e seu vencimento em 2018. Note que embora ele caminhe para seu valor de face, apresenta volatilidade de preços diários.

Um investidor que adquiriu um título no dia 03/08/2015 e precisou resgatá-lo antes do vencimento, por exemplo em 28/09/2015, perdeu aproximadamente 3,86% no período.

Podemos observar que quando a taxa pactuada diariamente para os títulos sobe, o retorno dos investidores [sobre o PU] tende a cair.

É fácil entender a lógica disso. Basta imaginar um exemplo que você adquiriu um título cuja taxa de remuneração era de 12,92% e a taxa praticada no mercado passou a ser, por exemplo, de 15%. Você tem em mãos algo que vale menos no mercado (um título que rende 12,92% enquanto outros estão rendendo 15% não terá demanda, daí ele não consegue manter seu preço) e isso afetará seu preço de venda, que cairá. Em outras palavras, sua remuneração vai diminuir durante certo tempo e pode até se tornar negativa, caso você não mantenha o título em sua carteira até o vencimento.

Esse conjunto de argumentos tem relação com o chamado “risco de liquidez”. Quando se fala em liquidez, a maior parte das pessoas logo pensa na impossibilidade de venda de um ativo, seja ele financeiro ou real. Mas quero propor que possamos pensar em liquidez de outra maneira.

Imagine que você decidiu vender o seu carro hoje. Você terá duas opções:

Ir a uma concessionária e vender seu veículo imediatamente.

Criar um anúncio de venda particular e esperar até encontrar um comprador para o veículo, sabendo que isso pode demorar um pouco para ocorrer.

Podemos encontrar duas diferenças que separam essas opções: tempo e valor a ser recebido. Se você optar por vender seu carro com urgência na concessionária, muito provavelmente irá receber menos do que gostaria, mas terá o valor em mãos rapidamente. Já se decidir fazer um anúncio particular, se dando ao luxo de esperar até receber uma proposta boa, pode esperar receber um valor superior, mas sabe que terá que esperar até encontrar um comprador.

O problema é quando você, por alguma razão, é forçado a ter urgência. Isso define o risco de liquidez. Ele não é apenas decorrente da incapacidade de liquidar determinado ativo, mas representa o risco de perda de capital caso precise liquidá-lo antes do momento mais adequado. No nosso exemplo, você conseguirá vender seu carro imediatamente, mas é quase certo que irá perder valor caso escolha a opção 01.

Voltando ao investimento em títulos de renda fixa, vale lembrar que se você tem segurança de que não precisará se desfazer dos títulos até o vencimento, terá a rentabilidade – observada por você no momento da compra – efetivamente garantida, ou seja, você estará sujeito a eventuais perdas decorrentes da marcação a mercado apenas se optar pelo resgate antes do vencimento.

(*) Luciana Maia Campos Machado – Coordenadora dos cursos de Administração, Processos Gerenciais e Gestão Financeira (modalidade EAD) na Faculdade Fipecafi.

Faculdade Fipecafi