Bitcoin como investimento: precificando esse novo ativo

Qualificar o bitcoin como um ativo semelhante às moedas ou aos metais preciosos (commodities) é essencial porque nos permite entender melhor a sua natureza e suas propriedades, além de conduzir a uma correta metodologia de avaliação de valor. Qualquer investidor sério interessado em aportar recursos nesse novo ativo procurará encontrar o fair value do bitcoin. Mas como precificar uma unidade de bitcoin? De que forma estimar a cotação futura da criptomoeda?

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
arrow_forwardMais sobre

Qualificar o bitcoin como um ativo semelhante às moedas ou aos metais preciosos (commodities) é essencial porque nos permite entender melhor a sua natureza e suas propriedades, além de conduzir a uma correta metodologia de avaliação de valor.

Qualquer investidor sério interessado em aportar recursos nesse novo ativo procurará encontrar o fair value do bitcoin. Mas como precificar uma unidade de bitcoin? De que forma estimar a cotação futura da criptomoeda?

Em dezembro de 2013, David Woo, do Bank of America Merrill Lynch, tornou-se um dos primeiros analistas a cobrir a nova moeda, lançando-se à árdua tarefa de descobrir o fair value do bitcoin. No seu relatório intitulado “Bitcoin: a first assessment, Woo chegou a um preço alvo de US$ 1.300 para cada unidade. À época, essa avaliação se situava em um patamar não muito distante da cotação de mercado, cerca de US$ 1.000.

Apesar de ter sido um dos precursores em Wall Street a publicar uma tentativa de avaliação da moeda digital, o estudo foi muito mais importante do ponto de vista de exposição do bitcoin na mídia do que como uma apreciação sólida de seu preço futuro. O problema com a estimativa de fair value do analista do BofA jaz na metodologia equivocada utilizada.

Um dos vetores de estimativa de preço utilizados por Woo foi assumir que a base monetária do bitcoin poderia alcançar um valor similar à média de capitalização de mercado das empresas de transferências de baixo custo como a Western Union e MoneyGram. Mas essa premissa é bastante precária, porque simplesmente não podemos comparar o valor do estoque total de uma moeda com o valor de capitalização de uma empresa.

Uma moeda não é uma ação de uma companhia. O valor de uma ação é derivado das estimativas dos fluxos de caixa futuros de determinada empresa. Uma ação é um ativo gerador de rendimentos, assim como títulos de dívida. Na mesma linha, imóveis são avaliados de forma semelhante; é preciso estimar o fluxo de caixa futuro de uma propriedade para determinar o seu valor de mercado hoje.

Ações, títulos de dívida e imóveis são ativos geradores de caixa – com uma previsão fundamentada dos rendimentos futuros, é possível chegar ao preço justo de forma bastante razoável.

Mas commodities são outra espécie de ativos. Não há dividendos e não pagam juros. Investir em commodities requer uma boa dose de análise do mercado, para saber identificar os momentos em que a oferta e a demanda estejam em desequilíbrio e aproveitar excelentes oportunidades de negociação. 

No caso de commodities como minério de ferro, soja, petróleo, etc., basta entender como se comportarão os produtores (ofertantes) e os consumidores (os demandantes), para estimar o preço futuro.

Entretanto, com o ouro, a tarefa não é tão simples. Ao contrário das commodities já citadas – que são produzidas e consumidas –, quem adquire o metal precioso não o consome; na verdade, o entesoura. Embora haja aplicação industrial, a maior parte da demanda do ouro advém de seu uso como bem monetário, como ativo de proteção.

Isso significa que o estoque de ouro produzido em um ano não é extinto – ao contrário do minério de ferro, que é consumido e transformado em outros produtos. Na verdade, ele circula de investidor para investidor, fazendo parte do encaixe financeiro destes.

Prever o preço de uma commodity como o ouro exige não somente compreender a evolução da oferta originada pelos grandes mineradores ao redor do globo, mas também imaginar como evoluirá a demanda desse ativo – para fins de proteção e investimento – pelos indivíduos.

A metodologia para precificar as moedas não é muito diferente. Dinheiro é o único bem que não é consumido e tampouco serve para produzir outros bens; não é um bem de consumo nem um bem de produção. É dinheiro, é um meio de troca. Ninguém adquire moeda para consumi-la. Em realidade, mantemos um encaixe de dinheiro para trocá-lo por bens no futuro, sejam eles de consumo, sejam de produção.

Mas a lei de oferta e demanda é inexorável, e ela atua igualmente sobre qualquer mercadoria, até mesmo a moeda, que também é um bem, com a particularidade de ser o bem mais líquido no mercado. Isso significa que, tudo o mais constante, quando aumenta a oferta da quantidade de uma moeda, o seu preço diminui. Dito de outra forma, quanto mais aumenta a quantidade de dinheiro em circulação, menor tende a ser o poder de compra de cada unidade monetária. A moeda perde valor.

Mas como no mundo real “tudo o mais é inconstante”, prever o valor de uma moeda em relação à outra – o seu câmbio – é uma das tarefas mais intrincadas do mercado financeiro. É preciso ponderar como será a política monetária dos bancos centrais, e é imprescindível considerar como se comportará a demanda por uma moeda pelos agentes de mercado.

Para uma moeda ganhar poder de compra (apreciar-se), não basta uma política monetária relativamente mais rígida se sua demanda despencar. Da mesma forma, uma política monetária frouxa e expansionista não necessariamente irá causar a depreciação do dólar, por exemplo, se a demanda pela moeda norte-americana seguir aumentando.

Porém, é certo que, no longo prazo, aquelas moedas que foram relativamente mais inflacionadas que as demais acabarão se desvalorizando inevitavelmente. Esse fato é muito bem ilustrado pelo falecido Deutsche Mark. Tendo uma das políticas monetárias mais rígidas do planeta, o Bundesbank não vacilava e defendia o valor do marco alemão. E qual era o resultado? Os demais bancos centrais mais inflacionistas – geralmente os do sul europeu – testemunhavam suas moedas se depreciar ano após ano.

Essa metodologia de avaliação de commodities monetárias e moedas é precisamente a que devemos empregar quando buscarmos determinar o fair value do bitcoin. Porque antes de apresentar a tese de investimento em si, precisávamos expor como, em nossa visão, esse novo ativo deve ser valorado.

Portanto, compreendidas a classificação do bitcoin como uma nova classe de ativo e sua metodologia de avaliação, podemos agora adentrar no porquê (ou não) de investir na criptomoeda. Mas deixemos esse tema para a última parte deste artigo.

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil