Bancos: adaptem-se ou pereçam.

Não é incomum encontrarmos diversas análises e relatórios repletos de equívocos ou comentários tendenciosos acerca do Bitcoin. De jornalistas a economistas e políticos, a moeda digital desperta sentimentos ambivalentes. Alguns a favor, outros contra, e a maioria completamente alheia às noções mais básicas. Nesse sentido, é uma grata surpresa a recente apresentação do economista e vice-presidente do Federal Reserve de Saint Louis, David Andolfatto, no dia 31 de março, intitulada "Bitcoin and Beyond: the possibilities and the pitfalls of virtual currencies" (Bitcoin e além: as possibilidades e as armadilhas das moedas virtuais).

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Não é incomum encontrarmos diversas análises e relatórios repletos de equívocos ou comentários tendenciosos acerca do Bitcoin. De jornalistas a economistas e políticos, a moeda digital desperta sentimentos ambivalentes. Alguns a favor, outros contra, e a maioria completamente alheia às noções mais básicas.

Nesse sentido, é uma grata surpresa a recente apresentação do economista e vice-presidente do Federal Reserve de Saint Louis, David Andolfatto, no dia 31 de março, intitulada Bitcoin and Beyond: the possibilities and the pitfalls of virtual currencies (Bitcoin e além: as possibilidades e as armadilhas das moedas virtuais).

Faria pouquíssimas ressalvas à sua exposição, como, na questão da falta de “valor intrínseco” da moeda, apontada por Andolfatto. Ora, não existe valor intrínseco, apenas propriedades intrínsecas. O que muitos economistas têm em mente ao tratar dessa aparente debilidade do Bitcoin é a sua pouca (ou inexistente) utilidade além de um mero meio de troca ou sistema de pagamentos.

Mas isso não é essencial para que um meio de troca se torne altamente líquido e aceito no mercado. Inclusive procurei abordar essa questão com bastante profundidade no meu livro.

Também faz-se necessário destacar que, ao contrário do que Andolfatto afirma, as soluções para maior segurança na custódia não passam exclusivamente por outros terceiros fiduciários. Há a opção perfeitamente segura de estocar consigo mesmo os seus bitcoins; você não depende de intermediários para maior segurança nesse sentido.

Mas, desconsiderando outras desavenças no campo da teoria econômica pura – como a quimera da estabilidade de preços –, a verdade é que a apresentação é digna de elogios. Andolfatto descreveu muito bem o que é o Bitcoin e suas principais características sem cair em opiniões preconcebidas.

Por tratar-se de um funcionário do alto escalão do Fed, surpreenderam-me bastante o tom imparcial e, em certos momentos, até uma admiração demonstrada pela tecnologia. “Em suma, o Bitcoin é um golpe de gênio”, afirmou Andolfatto, “um sistema monetário governado por um algoritmo de computador”.

Muito lúcido, o vice-presidente do Fed ressalta que, para usos ilícitos, o dinheiro físico – cash – é até mais apropriado. E embora o Bitcoin possa ser usado para atividades ilegais, ele também é muito usado para fins perfeitamente legítimos.

Interessante também foi a realização de que o Bitcoin não pode ser perfeitamente regulado. “Como alguém mata a Hidra de Lerna?”, indagou Andolfatto, em referência ao animal de várias cabeças da mitologia grega. “Fazer cumprir uma proibição direta e imediata é praticamente impossível”, conclui o economista.

Por fim, o que mais me deixou intrigado – positivamente – foi o reconhecimento de que a tecnologia do Bitcoin e outras moedas digitais impõem concorrência genuína às moedas e aos sistemas de pagamentos tradicionais. “As instituições serão forçadas a se adaptar ou acabarão perecendo”, concluiu Andolfatto.

E qual deve ser a postura das autoridades monetárias? “Bancos centrais bem geridos deveriam dar boas-vindas à concorrência emergente”, declarou o vice-presidente. “Há, na minha opinião, espaço para uma coexistência benéfica.”

Possivelmente, essa afirmação, advinda de um respeitado economista no topo da principal autoridade monetária do planeta, faça alguns economistas repensar suas opiniões acerca do Bitcoin. A realidade é que a moeda digital veio para ficar. A tecnologia foi inventada e não desaparecerá da noite para o dia.

Talvez o melhor caminho seja o apontado pelo próprio Andolfatto: reconhecer que o Bitcoin existe e que é uma tecnologia revolucionária com inúmeras vantagens comparativas, capaz de promover uma forte concorrência genuína às instituições financeiras tradicionais. Mas eu iria além, e acho que ele concordaria comigo. Não são somente os bancos que precisam se adaptar ou acabarão morrendo; os bancos centrais e suas moedas nacionais também enfrentam o mesmo dilema. Adaptem-se ou pereçam.

Antigamente o ouro funcionava como um disciplinador dos ímpetos inflacionistas dos bancos centrais. Será que no futuro esse papel será desempenhado pelo Bitcoin? Arrisco dizer que essa coexistência pode perdurar por muito tempo. E para o bem da sociedade e do nosso dinheiro.

Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é Analista-chefe da XDEX, mestre em Economia pela URJC de Madri, com passagem por multinacionais, como o grupo ThyssenKrupp, e instituições financeiras, como o Banco Indusval & Partners. É autor do livro “Bitcoin – a Moeda na Era Digital” e Conselheiro do Instituto Mises Brasil