Stuhlberger vendeu, quem compra sou eu? Tesouro IPCA+6,3% chama bastante atenção

Gestor do fundo Verde se desfez da sua posição no ativo, mas a NTN-B pode fazer sentido na sua carteira, pois a taxa atual é atraente; é difícil encontrar taxas reais neste patamar com um risco soberano razoável
Por  Lucas Collazo -
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Caros(as) leitores(as),

Na última quinta-feira (9), passei o dia inteiro no escritório, algo que, por mais simples que seja, se torna especial no contexto pós-pandêmico. Aliás, foi a primeira vez que fiquei na mesma baia do meu “fiel escudeiro”, Henrique Esteter – lembro de imaginarmos esse momento desde o lockdown.

Ele e eu exercemos a função de “especialista de mercado” no InfoMoney. Basicamente, fazemos o trabalho de pesquisa (research) dentro da casa – o que faz sentido, pois, na vida passada do mercado, eu e ele fizemos parte de times de análise como estrategista e analista de ações, respectivamente.

Ao chegar na mesa, a primeira fala dele foi: “Colla, você viu o movimento nos títulos públicos? As taxas ‘abriram’ muito, acho que é uma oportunidade.”

O “Hzão” (apelido carinhoso do Esteter) não estava errado, mas antes, preciso explicar o porquê debatemos esse ponto:

Quando analisamos ativos de risco, como ações e fundos imobiliários por exemplo, nós sempre temos um “custo de oportunidade”. Alguns falam sobre a taxa Selic, outros olham para o CDI, para mim e para o “H” os títulos públicos de inflação são os mais importantes.

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Oras, se nós perseguimos ganhos reais atrativos para o nosso portfólio – ou seja, retorno acima da inflação –, os títulos públicos brasileiros são os ativos locais que expressam o menor risco de crédito possível. Dito isso, podemos chamar eles de “taxa livre de risco” (aparentemente, não é apenas o Esteter que possui apelidos).

Na decisão de alocação de capital, para tomar risco (investir em qualquer outro ativo que não seja o Tesouro IPCA+), como investidor eu deveria pedir um “prêmio” para “aceitar” esse acréscimo de risco. Mas será que qualquer oportunidade de investimento projeta um retorno acima disso?

Definitivamente não…

Mais de 6% de juro real é bastante alto. Claro que existem excelentes ativos na bolsa, que possuem uma taxa interna de retorno de algo como IPCA+12%. O próprio S&P 500, principal índice de ações dos Estados Unidos, gerou em reais um retorno de IPCA+13,6% nos últimos 10 anos – e você pode investir nas empresas que compõem esse índice de maneira fácil e barata por meio de um ETF (Exchange traded fund) ou fundo aberto passivo.

Bom, acho que os conceitos até aqui ficaram esclarecidos, mas precisamos realizar um contraponto importante. O Tesouro Direto Nacional vai te expor ao principal risco brasileiro: o fiscal.

A dívida pública brasileira é um desafio há muitos anos, sempre foi um ponto de atenção por aqui. Neste momento, como o mundo enfrenta dificuldades fiscais, o fiscal brasileiro é menos comentado, mas isso não significa que a preocupação seja menor.

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Justamente foi esse risco que fez com que Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde e um dos maiores financistas do Brasil, vendesse sua posição no ativo – que chegou a ser a mais importante da casa recentemente. Ele fez uma “troca”:  tirou o título publico brasileiro que paga taxa de juro real e “comprou” o mesmo ativo, só que nos EUA (onde esses papéis são chamados de “tips”).

Segundo Stuhlberger, as “tips” foram excelentes ativos para se defender da inflação, inclusive melhores do que o ouro, bitcoin e demais ativos reais que não pagam juros. Ele continua acreditando que a NTN-B é interessante, mas ter investimentos nesses ativos com a condução atual do governo em relação aos gastos públicos não é tão interessante.

Eu não li essas opiniões do Luis em nenhum lugar, estava lá na plateia do Verde Day, evento que a gestora promove anualmente para destrinchar opiniões e leituras da casa sobre o mercado. Aliás, ao discorrer sobre essa mudança na carteira, ele compartilhou o seguinte gráfico:

(Fonte: BBG, Haver, Verde AM, foto tirada no Verde Day)

Na imagem da esquerda, vemos, grosso modo, a probabilidade de você “ganhar dinheiro” no título de inflação brasileiro, segundo os modelos da Verde. Na realidade, uma “cesta” desses ativos (no eixo Y – vertical) e um título público brasileiro atrelado à inflação com vencimento em 10 anos (no eixo X – horizontal). Como podemos ver, a partir de 6% de taxa, a situação fica muito interessante para o investidor desse ativo.

Mas, se é tão interessante assim, por que uma das mentes mais brilhantes da gestão de recursos não quis permanecer investido?

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Bom, a resposta é simples: cada um escolhe o risco que quer correr. O fiscal brasileiro e, segundo ele, as “ideias erradas do Lula” batem nos preços desses títulos de uma forma que ele prefere evitar.

E sobre as tips? O nível de juros reais nos EUA é muito interessante, especialmente quando comparamos com o histórico e o ajustamos pelo risco americano – que é pior hoje, já que seu fiscal também é terrível (até pior, eu diria), mas segue sendo um dos menores do mundo.

A ideia de o Tesouro americano dar um calote é completamente remota. Até mesmo sabendo que teremos eleições presidenciais neste ano, que prometem ameaçar ainda mais as contas publicas.

Mas então, Colla, se o Stuhlberger vendeu, quem compra sou eu?

Sim, talvez seja você. Esse prazo de vencimento faz sentido para você? Você poderia, com parte do seu patrimônio, permanecer investido até seu vencimento? Os movimentos de preço ao longo desse caminho vão te incomodar?

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Então talvez faça. Por mais que a probabilidade de “ganhar dinheiro” vendendo seu ativo, tentando “operar” esse mercado, seja alta, este não deveria ser seu foco, caso acredite que não tenha tempo ou competência para isso.

Nesse caso, pode fazer sentido. A taxa é atraente e é difícil encontrar taxas reais neste patamar com um risco soberano razoável. Você não é gestor(a) de um fundo multimercado, não possui cota diária e não possui o mesmo horizonte de investimento do Luis.

Porém, como eu falei, perguntas como as anteriores – acrescidas de algumas mais – podem te ajudar a entender que os demais ativos, como o S&P por exemplo, são boas oportunidades. Em uma carteira equilibrada, não existe apenas um ativo, um único mercado.

Nem mesmo o Luis deixa de diversificar nesses momentos, por que iria eu?

Lucas Collazo Host e conselheiro no fundo do Stock Pickers | Especialista em alocação e fundos de investimento no InfoMoney

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