Está na hora da política fiscal? Desafios em um mundo nacionalista

Em tempos de guerra comercial e taxas de juros zero ou negativas, parece ter pouco espaço de manobra para políticas monetárias estimulativas, restando às políticas fiscal e creditícia a tarefa de ressuscitar economias que parecem ter dificuldade de crescer mesmo com todo estímulo injetado na última década. EUA e China adotaram políticas de expansão nos últimos anos, enquanto que a Alemanha acumulou superávit. O continente precisará repensar seu modelo de crescimento baseado em exportações em um mundo cada vez mais nacionalista. 

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Na última reunião do Banco Central Europeu, o presidente da instituição saiu um pouco do tom usual e clamou mais de uma vez para que as autoridades da região adotassem políticas fiscais estimulativas para impulsionar a demanda claudicante na região.

Em tempos de guerra comercial e taxas de juros zero ou negativas, parece ter pouco espaço de manobra para políticas monetárias estimulativas, restando às políticas fiscal e creditícia a tarefa de ressuscitar economias que parecem ter dificuldade de crescer mesmo com todo estímulo injetado na última década.

De fato, desde o final de 2017, com a união de ventos contrários do aperto monetário do Federal Reserve e do início da trade war, a economia global fez uma curva abrupta e passou a desacelerar com afinco.

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O eleitor mais desatento imaginará logo que, se o aperto monetário aconteceu nos EUA e a guerra comercial está acontecendo entre este e a China, é natural imaginar que os países mais frágeis são exatamente os causadores de toda essa confusão, certo? Errado.

Trade war afetou principalmente algumas economias fortemente dependentes das exportações e do setor industrial. A Europa, com a Alemanha sendo o maior expoente, foi o principal bloco a sentir os efeitos deletérios do arrefecimento do comércio global.

A agência internacional Markit faz uma pesquisa mensal chamada de PMI com empresários do setor da indústria e serviços. E divulga um índice de difusão mostrando se o setor está em expansão (acima do 50) ou contração (abaixo do 50) em cada país. Repare no gráfico abaixo a distância de cada país em relação ao nível que separa expansão/contração no PMI industrial.

Pintei de vermelho onde estão EUA e China e de amarelo onde está a Alemanha. Fica muito evidente quem são os maiores perdedores da guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas. E fica igualmente claro como, até agora, EUA e China, estão relativamente imunes à batalha.

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Cabe a pergunta do porque dessa resiliência de China e EUA. Uma das respostas está nos estímulos recentes adotados pelas economias dos dois países. Em 2018, os Estados Unidos adotaram um forte corte de impostos corporativos estimulando a economia e acelerando os déficit fiscais, que alcançaram 4,2% do PIB em 2018.

Na China, há meses, o governo central adota uma série de estímulos fiscais e creditícios com a dívida total no país (público e privado) ultrapassando 275% do PIB. Enquanto isso, a Alemanha acumulou nos últimos 5 anos cerca de 5 p.p. de superávit fiscal. Se a Alemanha não lidera a Europa nesse esforço, dificilmente outros países terão espaço fiscal para ajudar o continente nessa retomada.

E é por isso que Draghi fez um clamor por mais gastos do governo. Ele não poderia mencionar um país especificamente, mas é claro que ele estava falando com os alemães. Não poderia ser com os italianos e seus 132% de dívida/PIB ou com os espanhóis com seus 100% de dívida/PIB. Dos países relevantes da zona do euro, apenas Alemanha e Holanda possuem superávit fiscal. Os outros têm déficit e, além disso, distúrbios políticos que tornariam a expansão proibitiva.

Por isso, fica meu ceticismo sobre a recuperação da região, que já sofre impactos estruturais da demográfica, do desafio de criar uma união monetária integral, do enorme endividamento dos entes  nacionais e, por fim, da enorme dependência do modelo globalizante, baseado em exportações, em um mundo cada vez mais nacionalista.

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*Ivo Chermont é sócio e economista-chefe da Quantitas Asset

*As opiniões do autor refletem uma visão pessoal e não necessariamente da Instituição Quantitas Asset

 

Ivo Chermont

Sócio e Economista-chefe da Quantitas Asset